O Neoliberalismo Tupiniquim ou Alternativas para o Brasil Frente à Globalização?
 

A globalização é o fenômeno deste fim de século. Ao contrário de todas as previsões marxistas de que o comunismo, ou socialismo, era inevitável no processo histórico, ao final deste século, mesmo tendo sido minoritário na maior parte do tempo, o capitalismo se mostra pungente e dominante em toda a face da terra. Disto trata a globalização: da vitória do mercado sobre a ideologia ou metafísica. Não são mais as orientações políticas, filosóficas ou religiosas que distribuem as cartas do novo jogo internacional. O mercado, sua eficácia e o lucro - com seu sujeito oculto em grandes conselhos de gigantes conglomerados internacionais - decidem os rumos do planeta. Globalização é a unificação do mercado. As empresas já não pertecem mais a um país, nem o seu capital retorna para lá. Este é um mundo de virtualidades e o dinheiro, também espectral, se multiplica em especulações, na transferência de fábricas para países cujas legislações oferecem mais vantagens, na substituição da mão-de-obra humana por robots e na homogeneização de padrões de consumo - esse um dado particularmente importante nesta abordagem - através dos meios de comunicação de massa.

Globalização deve ser o oposto de universalização. Universal é aquilo que pertence à essência; global é aquilo que está no globo, ou seja, dentro das possibilidades de alcance global. Universal é o que é uno; global é o que contém tudo, todas as fragmentações: o meio, o veículo, o raio de alcance. A comunicação se torna poderosa na medida em que a noção de mundo, a aldeia global, se torna acessível através da rapidez da comunicação. A história, a realidade e até as subjetividades serão construídas por estes sistemas, que aos poucos substituem a leitura, o estudo e até a conversa de calçada entre vizinhos. A internet é um mecanismo que possibilita a comunicação com seres de todo o planeta àquele cidadão que não cumprimenta nenhum de seus vizinhos de porta no edifício.

A título de exercício, proponho aqui um raciocínio que contrapõe Van Gogh e Jacqueline Kennedy. Pode parecer absurdo mas tratam-se de dois grandes ícones de nosso tempo: o artista cujas obras são as mais valorizadas e a mulher que institui um modelo a ser seguido pela sociedade globalizada. De um lado temos aquilo que um jovem corretor da bolsa chamaria de "um perdedor" : o artista que morreu sem vender um quadro, tendo vivido miseravelmente, para ser reconhecido após sua morte como um homem que buscava a excelência na expressão de impressões subjetivas do mundo, e nisto a beleza pessoal e intransferível do olhar. Do outro temos a mulher que seduziu o poder, tornando-se o lado glamouroso da instituição capitalista: Jackeline casou-se com o poder, e não se incomodava se o marido era o autor de uma guerra genocida em busca da estabilização deste mesmo poder; não se incomodava nem com o fato de saber que o marido se divertia em muitas outras camas. Ela se tornou a imagem da mulher que sabia comprar, sabia se vestir, sabia se equilibrar dentro do esquema, usufruindo de suas benesses e fazendo vista grossa para suas excrescências. Regras máximas para a aceitação popular deste sistema.

Enxugar gelo é mais eficaz e inteligente que isso. Os males que um ser humano pode causar a si próprio são infinitos. Mas a bebida e o jogo foram, talvez pela grande popularidade, aos poucos se tornando legais novamente. Há casos de países em que o governo oferece umas 40 possibilidades diferentes de jogos de azar mesmo alegando que o jogo é proibido. Bebidas também são permitidas após uma certa idade, na qual o indivíduo já adquiriu a consciência de que pode perder a consciência quando bem entender, desde que seja com substâncias que os legisladores curtam. E a garotada enche a lata muito antes dessa idade e ninguém parece achar nada demais nisso. Se no final dos anos 60 a madame era o exemplo da mediocridade - e os resultados da luta pela igualdade no plano sexual se inserem aí - nos anos 90, na era da globalização, ela volta gloriosa. A madame é o padrão que todas as modelos - e as mulheres que se destacaram na mídia nos 90 são essas - estão vendendo: a mulher cara, bela e sedutora. Não há o pensamento de Jackeline, há a sua forma, seu (bom?) gosto, seu modelo. Em Van Gogh tudo é pensamento, alma e estética, mas não há a eficácia; não há a presença do modelo a ser seguido literalmente, naquela existência que proclama a singularidade em detrimento desta que glorifica o individualismo. Aí está a chave de tudo.

A grande falha dos marxistas e socialistas foi esta: trataram o tempo inteiro das relações entre os homens e não de sua subjetividade. Falou-se de economia e não de psicologia e existencialismo, do ontos humano. Estabeleceu-se todo um sistema não acreditando que o homem pudesse ter questões mais profundas que aquelas relacionadas ao trabalho, acumulação de capital e relações de poder. E a alma humana ficou postergada a um outro momento, quando o homem ideal, nascido já numa sociedade equilibrada, haveria de trabalhar o assunto. Ora, os soviéticos estavam há anos na lua e ainda não pensavam em fabricar absorventes íntimos para suas mulheres. Se elas não se sentiam bem lavando toalhinhas em plena década de 80, diria o soviet supremo, era sinal de arraigada mentalidade burguesa. A mulher russa tinha que se preocupar era com a produção e não com questões como vaidade, sedução, encantamento e paixão. O estado não lucra com isso, ora pois. E o maior estado internacional ruiu por não perceber que o proletariado era composto por pessoas, todas elas com suas diferenças e esquisitices: singularidades. Venceu o desejo de individuação, de singularização, de liberdade individual de ir, vir e escolher ser bom ou mau, feio ou bonito, certo ou errado, sem a autorização de nenhum burocrata. Este desejo será explorado, em seguida, aos estertores, pelo mercado.

O que, no entanto, se percebeu foi a crescente presença dos segmentos mercadológicos, cada um obedecendo regras muito evidentes de controle social através do lazer e da divulgação de padrões de comportamento, principalmente direcionados à juventude, criando uma torre de babel em tendências e linguagens, que podem conviver quase que pacificamente num mesmo ambiente: o mercado. O símbolo máximo, a igreja desta nova versão de sagrado, é o shopping center. Lá todas as possibilidades estão perfiladas em milhares de opções de consumo. Pode-se fazer o estilo rebelde, ou conformista, agressivo ou pacifista, culto ou esportivo e, ao mesmo tempo, como no caso do morador do edifíco que mencionei anteriormente, não se relacionar com aqueles que, ao final das contas, frequentam o mesmo lugar, consomem os mesmo ítens, num mesmo estilo de vida absolutamente conformista e que, no entanto, nas aparências é completamente diferenciado. Tudo o que existe, se é que pode ser percebido por uma certa quantidade de gente para se dizer existente num plano social, ainda que local ou regional, existe por ter sido mencionado e reconhecido na mídia. A realidade é, pois, o que aparece no jornal da noite e não o que aconteceu nas ruas à tarde. O mundo globalizado é feito no Paraguai: a legítima falsificação de mundo. O parecido é mais real que o verdadeiro. O público que elege o pagode não faz a menor idéia de quem seja Cartola ou compra discos de Jamelão; e pode até vir a simpatizar com estes, se colocado em contato, afinal os velhos mestres são parecidos com aquilo que consome. Embora muito mais "chatos", já que não foram paridos por nenhuma pesquisa de mercado.

O produto pausterizado, para o consumo das massas, feito em série, depende de uma padronização do gosto público. O estado globalizado se institui orientando a individualização em detrimento da originalidade ou do contato existencialista. A arte deve dar espaço ao objeto de consumo fetichizado pela mídia mas produzido na coréia, ou por crianças tailandesas. Há que se investir naqueles ítens que provocaram a erosão dos estados socialistas sem, entretanto, possibilitar o raciocínio; sem glorificar a expressão que não busque a eficácia; sem orientar para o desenvolvimento das singularidades do olhar. A atuação dos intelectuais se dá apenas no ambiente acadêmico, cada vez mais afastado dos centros nervosos políticos e empobrecido de valor intrínseco. Para o cidadão que passeia de sandália e roupa de ginástica aos domingos pelos corredores dos shoppings o intelectual é, e tão somente, um chato. As faculdades de filosofia na França vão perdendo alunos a cada ano, na mesma medida em que se abrem lojas de Macdonald's e shopping centers. Porém - apesar da negligência mercadológica para o que é feito em nome da busca do saber, da excelência, de um aperfeiçoamento humano nas questões universais: a inteligência e o saber - é exatamente aí que se estabelecem, no meu entender, as possibilidades de reação e a elaboração de alternativas.

O mundo inteiro sabe como é a carne que se come em Bologna, o que é o croissant ou o sanduíche que Hamburgo inventou e os EUA eternizaram. A luta brasileira tem sido no sentido de incluir o nosso pão-de-queijo neste cenário. Para isso, no entanto, é preciso que o brasileiro, tão atento aos sistemas comportamentais do primeiro mundo, se interessasse pelo leitão-à- pururuca, pelo baião-de-dois, e por que não dizer?, pela broa de milho. Se isto não significar nada no campo filosófico, pelo menos alguns resquícios culturais serão preservados, e a possibilidade de compreensão de nossa natureza, enquanto nação, estará assim estabelecida.
Mas não é a inclusão do produto brasileiro no mercado internacional a solução para se lidar com a globalização. Se o capital financeiro chega aqui mais forte que o industrial, produtivo, quando sai leva parte de nossos sonhos e possibilidades. O sistema é nocivo como um todo; quero dizer que não basta estar bem colocado dentro do sistema, há que se compreendê-lo e ter alternativas para a preservação do pensamento, da crítica, daquilo tudo que norteou a existência de um Van Gogh. E que serviu, e muito, à humanidade, antes de enfeitar as paredes dos poderosos.

Conseguir um lugar ao sol no horizonte que se anuncia para o próximo século, dependerá muito mais de nossa capacidade deproduzir inteligência. Este é o caminho, a alternativa das alternativas; a produção e o investimento no pensar, no saber, no olhar aguçado e agudo sobre o que nos interessa neste quadro e o que não nos servirá. O investimento na educação deverá se dar de tal forma que possa equiparar-lhe, em importância, ao poder de sedução exercido pelos mecanismos publicitários. A pesquisa é absolutamente necessária, mesmo e, principalmente, a que não resulta em sucesso e eficácia comercial. Antes mandava-se um texto para a polícia federal, hoje ao patrocinador. Antes obedecia-se aos interesses ideológicos do poder, hoje aos interesses mercadológicos. É preciso desvincular a produção intelectual da noção de sucesso em massa. Uma doença rara não venderá muito remédio, mas saber lidar com ela é, em última análise, conhecer mais sobre o corpo e avançar a medicina. Não haverá saúde pública enquanto a medicina servir ao lucro privado.

Os EUA gastam por ano em patrocínios e fomentação de eventos culturais U$90 milhões anuais. A Alemanha gasta no mesmo período U$900 milhões, tendo uma população quatro vezes menor. Gasta, proporcionalmente, 36 vezes mais, portanto. O Brasil, neste quadro, aparece com cifras irrisórias, paraguaias. Ora, somos o povo que pior distribui sua renda, sendo um dos maiores PIBs internacionais. Dinheiro para esses investimentos há, a questão é convencer os nossos capitalistas, em geral gente pouco ilustrada, sobre a importância da produção de inteligência e de seus benefícios relacionados à questões como criminalidade, saúde pública, civilidade, produtividade etc.

Em lugares onde o sucesso pessoal não se dá através do enriquecimento mas da felicidade, o saber tem lugar importante no panorama geral. Não é necessária a acumulação para se obter prazer, mas é necessário o acesso. Compreenda-se por acesso todas as possibilidades do termo: intelectual, financeiro, político, econômico etc. Mais do que a mera proposição de um sistema, ou de um programa político/econômico, acredito na necessidade de investimento na alma, naquilo que poderá inventar diferentes soluções para diferentes necessidades em diferentes tempos. Não há como imaginar a felicidade nos caminhos da insensibilidade e da indiferença, propostos por um tempo onde o corpo se mecaniza, os robots ganham espaço e os vínculos humanos se fragilizam e fragmentam. É preciso contato com a própria humanidade para se poder refletir a questão existencial. Robots não sentem dor, e paramentados com todos os produtos que a "felicidade" pode comprar, o jovem de corpo esbelto parecerá feliz. Mas até quando? O que fazemos com os velhos e as crianças? Os inválidos? Os menos capazes merecem a exclusão? Mas será que todos nesta lista são menos capazes em tudo e o tempo inteiro? Não se pode, como no caso da atual orientação política brasileira, aceitar as regras do jogo só porque todo mundo o faz. O neoliberalismo foi inventado para combater o estado do bem-estar social, das sociais-democracias do norte europeu. É , no mínimo, curioso que o partido que o institui aqui se chame social-democrata.

Parece bom mas não é. Estamos perdendo nossa imagem no espelho, corrompidos por um sonho que não é nosso. Neste mundo globalizado, a capital é a Ilha de Caras, o hino nacional é a Macarena, a igreja é o shopping center e a vida é uma festa. E nós não fomos convidados. Como dizia o poeta: ficamos na porta, olhando os carros.