Auto Retrato
 

Onde procuro espelhos só vejo janelas. Tudo foge, e os dias vão como cavalos selvagens descendo a colina. De onde é que sairá esse retrato? Remexo em antigos papéis, velhos poemas, recortes de jornal - há uma história, mas o passado se transforma mais que o presente e o futuro é sempre aquela mesma coisa que vai acontecendo, acontecendo. O futuro era melhor no passado e, no entanto, hoje é sempre melhor que ontem. Seja lá como for.
Minha veia de jornalista se mostra inútil. Essa pesquisa no “dedoc” da memória acaba por me confundir ainda mais. Pelo menos achei uma frase, que como todas as que existem, também não é minha: “Sou como uma escola de samba com mais de três mil figurantes desfilando o mesmo enredo.” Pronto, essa frase me define. E nessa construção múltipla, percebo - meu coração balança um samba de tamborim.
Mas, e se eu olhasse para onde vão meus olhos, já que não consigo detê-los? E se mostrasse apenas onde eles se demoram, como num velho nouvelle vague? Esses meus olhos que eu nunca acho, me fazem recordar: “ Não quero ver novas paisagens, quero novos olhos para olhar as mesmas paisagens.

Gosto de mulheres. Em todas as idades, em todos os papéis. Gosto das mães, das avós, das filhas, das chefes, das colegas, das empregadas, das atletas, das bailarinas, das professoras, das alunas... Gosto das que são amigas (e algumas são e continuam sendo mesmo quando encontram um novo amor). Gosto das que a gente pode chamar de “a minha mulher”. Gosto muito da amante, de todas é a melhor.
E o que pode ser mais perfeito a uma mulher que amar e ser amada, nas frações, nos detalhes e improbabilidades dos momentos amorosos? Se um projeto (hoje se fala muito em relacionamentos, de amor mesmo não se ouve quase nada) mata isso, é melhor que morra o projeto. O amor não morre nunca, relacionamentos são todos descartáveis como a vida. O amor nem existe, o que há é a falta dele. Eu gosto de gostar. Sou um amador, por assim dizer. E de tudo que faço, me segue o amor por estar fazendo.
Me divirto em quase todo trabalho. Sou feliz por ter sido escolhido por essa profissão, a de estar ondea alegria e a celebração acontecem. Nos hotéis e cadastros escrevo - artista. Acho meio pedante quando aparece aquela lista - cantor/compositor/ator/escritor; mesmo sendo verdade e gostoso ter essas diferentes embarcações por onde velejar. Neste país singular, pluralidade é mais conhecida como indefinição.

Esse cara não sabe o que quer, cada hora atira para um lado!” .

Se há competência ou não são outros quinhentos. E eu quero ainda escrever uns livros e filmes, trabalhar como ator em alguns espetáculos. Quero fazer as músicas para um balé, pra uma peça ou filme. Quero escrever sobre futebol em algum jornal, fazer crônicas, que gosto tanto e quase ninguém mais faz. Quero continuar estudando e aprendendo as coisas. E estou doido para fazer um programa na televisão e outro no rádio, além de ter minha própria casa de show/restaurante.Se deixar por minha conta essa indefinição será permanente. Novos olhos.

Mas já realizei algumas coisas. Vi o maracanãzinho lotado cantar todas as músicas de meu show. Fiz um golaço aos 44 do segundo tempo, empatando o jogo em 4 x 4 no Maracanã.

Vi um bloco, o “Dois pra lá, dois pra cá” , com seus 3 mil integrantes cantando o meu samba pela avenida, por dois anos consecutivos. Consegui a primeira grande entrevista do ídolo Roberto Carlos e ganhei um anel emblemático de Erasmo, o Tremendão - uma das melhores coisas desse país. E mais não digo, mesmo que me lembre. Estou no começo ainda.
Entre dia e noite sou mais os dois, dependendo de tudo. Entre Lennon e MCcartney sou mais a dupla. Entre Beatles e Stones, idem. Sou completamente Piquet; montanha e fazenda mais que praia, Europa mais que América; slow-food, cool jazz; coração bossa-nova, quadris rock’n’roll, pés sambistas e na cabeça soul; detesto cigarros, birita e outros entorpecentes, prefiro meditação, poesia e risadas. Sou mais Pelé junto a Garrincha, mas sou Flamengo e Zico mais que qualquer outro. Cinco milhões de anos antes do Flamengo existir eu já era rubronegro. E tenho dito. Não seria problema para mim se um filho fosse gay, mas se resolvesse ser vascaíno ia entrar na porrada. Arêrê!!!!

Não gosto de muita arrumação e nem de bagunça, mas entre o confortável e o elegante sou mais o conforto. Gosto de comidas típicas, que experimento quando viajo. Detesto ir aos cartões postais, prefiro andar pelas ruas íntimas das cidades, sentir os cheiros e compreender suas lógicas e matizes. Ir aos lugares onde os locais vão - achar minha turma. Detesto seguir a boiada. Isso é que não, isso é que nunca. Mas já fiz muito isso, tentando ser pertinente ou coerente, sei lá. Vai ver era preguiça.
Deixo a câmera passeando pelas alas, para que você possa ver as fantasias.
Vai passar, nessa avenida um samba popular...