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____O
discurso da sinceridade pertence à estrutura expressiva do
primitivo ou, mais explicitamente, a retórica do primitivo
está baseada numa profissão de fé. Antes de
mais nada, não se pode confundir sinceridade com verdade.
Ser sincero exige credibilidade, não há verificação
possível; já a existência da verdade depende
de provas. A confissão é uma das manifestações
literárias da sinceridade (J.J.Rousseau). O diário,
também, quando se trata de narrar as disposições
interiores de seu narrador - histórias, suportes de uma ficção.
Mentiras? Talvez. Mentiras sinceras que vêm do coração.
A busca de Leonilson consiste em nos convencer de sua sinceridade:
para que seja acreditado, confessa até que é "mentiroso"
(2). A negação deste ato de fé não é
a mentira mas a falsidade, inimiga jurada da sinceridade. Leonilson
não abdicou de sua ironia característica, mas mesclou-a
com questões de fé. Devoto fervoroso de um ideal romântico
malogrado, este artista inscreveu seu gesto na epistolografia contemporânea.
Cada trabalho (deliberadamente indefinido quanto aos limites do
desenho, da pintura ou do bordado) foi feito como um registro íntimo,
mergulho narcísico, e foi dedicado ao objeto de desejo.
____Há
uma lógica da ambigüidade, muito atual, que permeia
a atitude de Leonilson em todos os sentidos (estéticos, morais,
religiosos, sexuais). Nela, a adoção de um princípio
não exclui a coexistência de seu oposto. Embora possa
se dizer que toda a sua obra atualiza a marca do mundo vivido pela
subjetividade que vem pontuando a produção contemporânea,
penso que o gesto de Leonilson trata, contudo, de algumas questões
próprias: o discurso amoroso e as figuras do romantismo,
a alegoria da doença e o uso da biografia para dar corpo
à desmaterialização da obra de arte.
____Em
que consiste esta ambiguidade? Na visão do artista, há,
por um lado, a vontade de fazer um trabalho que "não entrega
uma verdade" (sempre criticou as categorizações da
produção artística em "abstrato", "figurativo"
ou "conceitual", pleiteando a sobreposição de várias
formas de linguagem), e, por outro, uma ambiguidade da figura feminina.
O ofício da tecelagem, é, de modo geral, feminino:
mesmo assim, em algumas culturas indígenas, esta técnica
requer tanto a participação do feminino como do masculino.
O bordado é também, por excelência, o ardil
inventado por Penélope para adiar o reconhecimento da morte
de Ulisses, que seria consumado uma vez que ela aceitasse um dos
pretendentes.Neste registro da suspensão de uma ameaça
irredutível, Leonilson confecciona um bordado intitulado
O Penélope.(3)
____Profano
em suas atividades eletivas, o artista assume, no bordado, a influência
da moda, visível na escolha dos tecidos, na relação
entre as cores e as texturas, na leveza do suporte que despreza
o chassi convencional e nos botões e pedras semipreciosas
costuradas com arame de cobre. Através da moda, Leonilson
vincula-se estreitamente à questão da modernidade,
como enunciada por Baudelaire em seu ensaio "O pintor da vida moderna".Sem
cair em nenhuma conotação pejorativa, Baudelaire tece
um parentesco entre modernidade e moda. "A modernidade", diria o
poeta, "é o transitório, o fugitivo, o contingente,
a metade da arte cuja outra metade é o eterno e o imutável".
Não que a obra de Leonilson não consiga dialogar com
artistas da tradição que nos suscitam sensações
de "beleza eterna", como Klee. Mas, por outro lado, Leonilson incorpora
o que Baudelaire chamaria de "um elemento relativo, circunstancial,
que será, se quisermos, a cada vez ou de uma só vez,
a moda, a moral, a paixão".
____Se
cada época tem "seu porte, seu olhar e seu sorriso", ou seja,
sua Gioconda, o olhar deste fim de século está no
pequeno e significativo trabalho El puerto (1992), composto de um
espelho recoberto com um pedaço de camisa de Leonilson e
algumas informações biográficas: "Leo, 35,
60, 179" (nome, idade, peso e altura). Nele reside toda a ambivalência
da temporalidade: o passageiro e o frágil, i.e., a modernidade
e a tragédia da existência. O espelho testemunha o
desenvolvimento da doença e a desintegração
da identidade de seu sujeito. O grau máximo de autenticidade
está recuperado e, no gesto de ocultar a figura, o artista
aproxima-se do sublime. Este dado torna a produção
de Leonilson singular e não apenas "particular", um cuidado
que os intérpretes deverão tomar para não cair
numa tendência "psicologizante" em face a uma obra que trata
da pulsão do ser.
____Em
seu texto sobre o pintor moderno, Baudelaire se refere ainda a um
par antagônico: "artista" e "homme du monde". Sua idéia
de "artista" tem um sentido mais restrito, pois está fundamentalmente
presa à paleta. A segunda expressão seria, segundo
ele, mais abrangente, uma vez que torna o homem "cidadão
espiritual do universo". Embora essa afirmação possa
parecer um tanto quanto pomposa, ela se adequa perfeitamente à
Leonilson que, em nossa última conversa, afirma ser antes
um "curioso", um "andarilho", do que um "artista" (4). Tal curiosidade
é uma marca inconfundível de sua modernidade. Como
uma criança (e aqui o traço infantil de seu desenho
não pode ser desprezado), Leonilson observa o mundo e o registra
nos blocos de desenho que costumava levar em suas frequentes viagens.
Também através do deslocamento de seu olhar (nascido
em Fortaleza, bebeu tanto na iconografia popular e católica
como na transvanguarda, na pop art e na art brut), conseguiu imprimir
um caráter nômade à sua obra na busca de um
conhecimento híbrido (5). Sua sinceridade, exposta nos trabalhos
através de uma sequência de adjetivos morais, procura
contornar o patético, admiravelmente sublimado no uso de
flores (nomeadas, bordadas, pintadas ou construídas).
____A
pergunta é quase insolente: como pensar a dimensão
da fé e da crença num mundo pós-moderno? Um
artista sincero e autêntico soa um tanto démodé
no contexto da pós-modernidade. O recurso das plavras, embora
mereça um exame mais detido, proporciona uma acepção
mais ampla do conceito de "primitivo" - um "primitivo moderno"se
isto fosse possível. Leonilson deixa um testemunho cuja grandeza
está relacionada ao prosaico: a obra, feita como "orações",
como os símbolos de uma religião primitiva, liga o
indivíduo a uma entidade superior. Não pode ser desprezado
um outro fator relevante para a feitura dos "bordados": atitude
de Leonilson encontra seu melhor eco na incorporação
do designer dos Shakers (6).
____Como
um Shaker, Leonilson assume a inflexão teológica do
discurso do sacrifício: nos bordados, há nitidamente
uma busca de uma vida interior harmoniosa, com valores essenciais,
destituída de qualquer tipo de excesso - seja moral ou estético.
É claro que se algumas de suas frases parecem "primitivas",
os leitores não podem cair na sua ingenuidade ardilosa: Leonilson
enquanto artista sabia muito bem o que estava fazendo e conhecia
os embates críticos que sua obra apresentava - desde a discussão
formal dos materiais até o tênue limite entre a ironia
e o sublime na modernidade. Seu legado é valioso porque reavalia
a noção de subjetividade após as experiências
conceituais.
____Longe
de emitir reflexões céticas sobre a função
da obra de arte, o trabalho de Leonilson coloca-se no projeto da
modernidade ao questionar o destino do sujeito, mais precisamente
a tomada de consciência de um tempo apreendido na sua passagem.
Sua atitude implica um ativismo cultural que aponta para uma dimensão
ética do "uso dos prazeres" nesse final de século,
questionando os paradigmas do conhecimento e da razão. O
discurso auto-analítico se desenvolve sobre o eixo paradoxal
da verdade interior e da verdade exterior, num limiar da martirologia
(emblematizada na imagem de São Sebastião). Trata-se
de uma retórica religiosa posta à serviço da
paixão. São tantas as verdades convida ao exercício
da tolerância: trata-se tanto de uma tolerância intelectual,
em tempos de discursos dogmáticos e religiosos, como da afirmação
de um desejo polissêmico, originariamente com várias
acepções e que está ameaçado de desintegração.
Lisette
Lagnado, São Paulo, 1997
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