PARA QUEM NÃO COMPROU

A VERDADE (1)

Lisette Lagnado

 

"Para quem comprou a verdade"  (To him who bought the truth), 1991
Bordado sobre voile/Embroidery on voile, 39 x 35 cm
Col. Luciana Brito e Fábio Cimino, São Paulo
Foto Rômulo Fialdini

 

____O discurso da sinceridade pertence à estrutura expressiva do primitivo ou, mais explicitamente, a retórica do primitivo está baseada numa profissão de fé. Antes de mais nada, não se pode confundir sinceridade com verdade. Ser sincero exige credibilidade, não há verificação possível; já a existência da verdade depende de provas. A confissão é uma das manifestações literárias da sinceridade (J.J.Rousseau). O diário, também, quando se trata de narrar as disposições interiores de seu narrador - histórias, suportes de uma ficção. Mentiras? Talvez. Mentiras sinceras que vêm do coração. A busca de Leonilson consiste em nos convencer de sua sinceridade: para que seja acreditado, confessa até que é "mentiroso" (2). A negação deste ato de fé não é a mentira mas a falsidade, inimiga jurada da sinceridade. Leonilson não abdicou de sua ironia característica, mas mesclou-a com questões de fé. Devoto fervoroso de um ideal romântico malogrado, este artista inscreveu seu gesto na epistolografia contemporânea. Cada trabalho (deliberadamente indefinido quanto aos limites do desenho, da pintura ou do bordado) foi feito como um registro íntimo, mergulho narcísico, e foi dedicado ao objeto de desejo.

____Há uma lógica da ambigüidade, muito atual, que permeia a atitude de Leonilson em todos os sentidos (estéticos, morais, religiosos, sexuais). Nela, a adoção de um princípio não exclui a coexistência de seu oposto. Embora possa se dizer que toda a sua obra atualiza a marca do mundo vivido pela subjetividade que vem pontuando a produção contemporânea, penso que o gesto de Leonilson trata, contudo, de algumas questões próprias: o discurso amoroso e as figuras do romantismo, a alegoria da doença e o uso da biografia para dar corpo à desmaterialização da obra de arte.

____Em que consiste esta ambiguidade? Na visão do artista, há, por um lado, a vontade de fazer um trabalho que "não entrega uma verdade" (sempre criticou as categorizações da produção artística em "abstrato", "figurativo" ou "conceitual", pleiteando a sobreposição de várias formas de linguagem), e, por outro, uma ambiguidade da figura feminina. O ofício da tecelagem, é, de modo geral, feminino: mesmo assim, em algumas culturas indígenas, esta técnica requer tanto a participação do feminino como do masculino. O bordado é também, por excelência, o ardil inventado por Penélope para adiar o reconhecimento da morte de Ulisses, que seria consumado uma vez que ela aceitasse um dos pretendentes.Neste registro da suspensão de uma ameaça irredutível, Leonilson confecciona um bordado intitulado O Penélope.(3)

____Profano em suas atividades eletivas, o artista assume, no bordado, a influência da moda, visível na escolha dos tecidos, na relação entre as cores e as texturas, na leveza do suporte que despreza o chassi convencional e nos botões e pedras semipreciosas costuradas com arame de cobre. Através da moda, Leonilson vincula-se estreitamente à questão da modernidade, como enunciada por Baudelaire em seu ensaio "O pintor da vida moderna".Sem cair em nenhuma conotação pejorativa, Baudelaire tece um parentesco entre modernidade e moda. "A modernidade", diria o poeta, "é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte cuja outra metade é o eterno e o imutável". Não que a obra de Leonilson não consiga dialogar com artistas da tradição que nos suscitam sensações de "beleza eterna", como Klee. Mas, por outro lado, Leonilson incorpora o que Baudelaire chamaria de "um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, a cada vez ou de uma só vez, a moda, a moral, a paixão".

____Se cada época tem "seu porte, seu olhar e seu sorriso", ou seja, sua Gioconda, o olhar deste fim de século está no pequeno e significativo trabalho El puerto (1992), composto de um espelho recoberto com um pedaço de camisa de Leonilson e algumas informações biográficas: "Leo, 35, 60, 179" (nome, idade, peso e altura). Nele reside toda a ambivalência da temporalidade: o passageiro e o frágil, i.e., a modernidade e a tragédia da existência. O espelho testemunha o desenvolvimento da doença e a desintegração da identidade de seu sujeito. O grau máximo de autenticidade está recuperado e, no gesto de ocultar a figura, o artista aproxima-se do sublime. Este dado torna a produção de Leonilson singular e não apenas "particular", um cuidado que os intérpretes deverão tomar para não cair numa tendência "psicologizante" em face a uma obra que trata da pulsão do ser.

____Em seu texto sobre o pintor moderno, Baudelaire se refere ainda a um par antagônico: "artista" e "homme du monde". Sua idéia de "artista" tem um sentido mais restrito, pois está fundamentalmente presa à paleta. A segunda expressão seria, segundo ele, mais abrangente, uma vez que torna o homem "cidadão espiritual do universo". Embora essa afirmação possa parecer um tanto quanto pomposa, ela se adequa perfeitamente à Leonilson que, em nossa última conversa, afirma ser antes um "curioso", um "andarilho", do que um "artista" (4). Tal curiosidade é uma marca inconfundível de sua modernidade. Como uma criança (e aqui o traço infantil de seu desenho não pode ser desprezado), Leonilson observa o mundo e o registra nos blocos de desenho que costumava levar em suas frequentes viagens. Também através do deslocamento de seu olhar (nascido em Fortaleza, bebeu tanto na iconografia popular e católica como na transvanguarda, na pop art e na art brut), conseguiu imprimir um caráter nômade à sua obra na busca de um conhecimento híbrido (5). Sua sinceridade, exposta nos trabalhos através de uma sequência de adjetivos morais, procura contornar o patético, admiravelmente sublimado no uso de flores (nomeadas, bordadas, pintadas ou construídas).

____A pergunta é quase insolente: como pensar a dimensão da fé e da crença num mundo pós-moderno? Um artista sincero e autêntico soa um tanto démodé no contexto da pós-modernidade. O recurso das plavras, embora mereça um exame mais detido, proporciona uma acepção mais ampla do conceito de "primitivo" - um "primitivo moderno"se isto fosse possível. Leonilson deixa um testemunho cuja grandeza está relacionada ao prosaico: a obra, feita como "orações", como os símbolos de uma religião primitiva, liga o indivíduo a uma entidade superior. Não pode ser desprezado um outro fator relevante para a feitura dos "bordados": atitude de Leonilson encontra seu melhor eco na incorporação do designer dos Shakers (6).

____Como um Shaker, Leonilson assume a inflexão teológica do discurso do sacrifício: nos bordados, há nitidamente uma busca de uma vida interior harmoniosa, com valores essenciais, destituída de qualquer tipo de excesso - seja moral ou estético. É claro que se algumas de suas frases parecem "primitivas", os leitores não podem cair na sua ingenuidade ardilosa: Leonilson enquanto artista sabia muito bem o que estava fazendo e conhecia os embates críticos que sua obra apresentava - desde a discussão formal dos materiais até o tênue limite entre a ironia e o sublime na modernidade. Seu legado é valioso porque reavalia a noção de subjetividade após as experiências conceituais.

____Longe de emitir reflexões céticas sobre a função da obra de arte, o trabalho de Leonilson coloca-se no projeto da modernidade ao questionar o destino do sujeito, mais precisamente a tomada de consciência de um tempo apreendido na sua passagem. Sua atitude implica um ativismo cultural que aponta para uma dimensão ética do "uso dos prazeres" nesse final de século, questionando os paradigmas do conhecimento e da razão. O discurso auto-analítico se desenvolve sobre o eixo paradoxal da verdade interior e da verdade exterior, num limiar da martirologia (emblematizada na imagem de São Sebastião). Trata-se de uma retórica religiosa posta à serviço da paixão. São tantas as verdades convida ao exercício da tolerância: trata-se tanto de uma tolerância intelectual, em tempos de discursos dogmáticos e religiosos, como da afirmação de um desejo polissêmico, originariamente com várias acepções e que está ameaçado de desintegração.

 

Lisette Lagnado, São Paulo, 1997

 

 

(1) Este texto apareceu numa primeira e mais longa versão em Item, n.3, fevereiro de 1996, Rio de Janeiro. O título inspira-se num bordado de Leonilson com a inscricão "para quem comprou a verdade". A presente reflexão é profundamente devedora aos textos de Paul de Man sobre Rousseau (cf. Allegories of reading, Yale University Press, 1979).

(2) Em nome da sinceridade, Leonilson declara ainda que é traidor, tímido e egoísta.

(3) A colocação de um artigo masculino na frente de um nome feminino, silepse de gênero, será um recurso recorrente na sua obra. Outros exemplos: "o ilha", "os delícias", "as solidão", "os ruínas".

(4) Um rápido olhar sobre a paleta de Leonilson já demonstra que ele não seria um colorista no sentido tradicional do termo.

(5) São tantas as verdades apresenta símbolos de autoridade (manto, cetro e coroa) mergulhados em referências de origens díspares: Agnes Martin, Balenciaga, Bardot, Basquiat, Beats, Berçot, Beuys, Bossa Nova, Boy George, Brando, Butô, Chanel, Clemente, Deneuve, Dewaere, Duane Michaels, Eva Hesse, hippies, Kelly, Koons, Michael Clark, Miou Miou, New Order, Pollock, Prince, Serra, Stella, Suport Surface, Swing, Twiggy, Twombly, Warhol, W, de Maria, Yamamoto, Pantanal, Dias, Carnaval...

(6) O movimento dos Shakers é originário de Manchester Inglaterra, e começou em 1774 nos EUA com Ann Lee. Pregava uma vida comunitária a partir de uma nova ordem de seres, mais anjos que humanos, cuja vida excluiria violência, guerra e ambição.

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