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"As ruas da
cidade " (The Streets of the City), 1988
Acrílica sobre lona (acrylic on canvas), 200 x 95 cm Coleção
Particular
Foto
Eduardo Brandão
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UMA LÓGICA
DA AMBIGÜIDADE
Lisette
Lagnado
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____Nascido
em Fortaleza, de uma família católica, José
Leonilson Bezerra Dias (1957-1993) traz em sua formação
dois dados necessários para a leitura de sua obra: a cultura
nordestina (com a literatura de cordel, o artesanato, as cores vivas,
as crenças populares) e a iconografia religiosa. Mais tarde,
as freqüentes viagens do artista ao exterior (notadamente Amsterdã,
Paris, Milão, Madri, Munique e Nova York) tornam-se constitutivas
da obra, imprimindo-lhe um caráter nômade. Através
do deslocamento, Leonilson investe na busca de um conhecimento polissêmico
- donde uma linguagem marcada por uma lógica da ambigüidade.
___Incapaz
de se identificar exclusivamente na figura do artista irônico
que mira a arte, Leonilson se emancipa das obrigações
históricas, passando a se qualificar de "curioso" - uma afirmação
que reencontra a atitude de seus dois maiores modelos de "antiartista",
Lygia Clark e Arthur Bispo do Rosário. Leonilson pertence
a uma tradição de artistas que atuaram na relação
do corpo com a linguagem, na união entre eros e logos.
___Cada
peça de Leonilson foi rigorosamente construída como
uma carta que se insere dentro de uma narrativa íntima, gênero
semelhante ao diário. Discípulo de um ideal romântico
malogrado, Leonilson foi movido pela compulsão de registrar
sua interioridade a fim de dedicá-la aos objetos do desejo.
Este legado reavalia a noção de subjetividade após
as experiências conceituais. Longe de emitir reflexões
céticas acerca da função da arte contemporânea,
o trabalho de Leonilson se coloca no projeto da modernidade ao questionar
o destino do sujeito, mais precisamente a tomada de consciência
de um tempo presente e fugaz apreendido na sua passagem.
___Este
romantismo, porém, muda de inflexão com o aparecimento
dos sintomas da Aids. Embora nunca se constitua como um argumento,
a doença acelera os mecanismos de ambição.
Uma vez amputada de seu futuro, a obra se volta para as características
da linguagem mítica. A consciência refugia-se nas experiências
passadas. A urgência da chamada "Geração 80",
esse movimento antes alegre, de cores sem compromisso, tornou-se
um fardo trágico no qual urgência agora é sinônimo
de morte. A tarefa do artista consiste em traduzir a ruína
de "sua" doença para uma dimensão do discurso universal.
Demanda, sabe-se, sem resposta.
___Leonilson
distingue-se por uma travessia efetuada sob o estigma do registro
íntimo, em busca do que seria sua "voz interior". Neste momento,
a linguagem se desenvolve longe dos modelos iniciais da "Geração
80", passando a oferecer características de um "diário
pessoal". Ano após ano, o universo gráfico se torna
mais sintético com a repetição sistemática
dos mesmos signos. Ao economizá-los, o artista trabalha a
substância do símbolo.
___Nessa
trajetória de Leonilson podem ser destacados três núcleos
formativos:
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PINTURA
COMO PRAZER (1983-1988)
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___Os
primeiros anos buscam uma definição estética:
o artista se lança na feitura de pinturas sobre lona de grandes
dimensões, com a marca da ilustração pop, livre
dos ardis realistas. Até 1986, aproximadamente, o traço
do desenho consiste em envolver as formas de um contorno mais escuro.
Já neste período, surgem representações
de mesas altas, mapas e globos. Os fogos e os rios são recorrentes.
Alguns elementos serão desenvolvidos até o final de
sua vida: o livro aberto, a torre, o radar, o transformador de energia,
o rio, o átomo, a esfera celeste, a escada, o coração,
a montanha e o vulcão, a espiral, o relógio e a bússola
e, principalmente, a ampulheta que se funde ao símbolo do
infinito;
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ROMANTISMO:
ANOTAÇÕES DE VIAGENS (1989-1991)
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___A
obra se consolida quando o artista expõe o que denomina "anotações
de viagem", um conjunto de trabalhos feitos com botões, pedras
semipreciosas e bordados (Galeria Luisa Strina, 1989, São
Paulo). Mais que uma simples assemblagem de materiais, estas peças
introduzem um procedimento fundamental no percurso de Leonilson:
a costura, de linha ou de cobre - momento em que o artista descobre
um novo corpo para a superfície pictórica e recorre
às palavras com mais freqüência. A inclinação
para os valores românticos, o "abandono do sujeito amoroso",
marcará o discurso deste período;
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ALEGORIA
DA DOENÇA (1991-1993)
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___O
tema da sexualidade surge de forma persistente a partir de 1991.
Os bordados da última fase (realizados entre o final de 1992
e os primeiros meses de 1993) precisam ser vistos como "auto-retratos".
A figura não é mais figura, o corpo se esvai, cada
dia mais leve. Desfeita agora a relação antropomórfica,
eles têm uma aparência "abstrata", pois o artista parece
ter deixado de se reconhecer na sua própria imagem. Um bolso
com as iniciais do nome próprio ("J.L.B.D.") e um saquinho
com a idade ("J.L. 35") são os relicários que guardam
a imagem remanescente após a morte.
___Investidos
do mesmo valor que o ex-voto, exploram a identificação
entre imagem e doente. Subvertem a noção tradicional
do retrato e se tornam objetos genealógicos, voltados para
a identidade do artista. No trabalho "El Puerto" (1992), Leonilson
usa um retalho de uma camisa bordada com informações
biográficas (nome, idade, peso, altura) para cobrir um espelho:
"Leo, 35, 60, 179". O grau máximo de autenticidade está
recuperado e, neste gesto de ocultar a figura, o artista aproxima-se
do sublime. A atitude implica um ativismo cultural que aponta para
uma dimensão política do "uso dos prazeres" nesse
final de século, questionando paradigmas médicos e
religiosos.
Lisette
Lagnado
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