PARA COMEÇAR A FALAR EM LÖIC (1)

Leonilson

 


Desenho extraído do catálogo "Ouverture Brésilienne",
CREDAC, Paris, 1987/88

 

Para começar a falar em Löic preciso tornar atrás

um tempo e ver o quanto passamos naquele lugar quen

te e úmido onde ele construía seu iglú

Löic devia apresentar mais um projeto para a banca

examinadora ( eu também para a minha ) e nós tratá

vamos de continuar brincando de engenheiros mirins

apesar da falsa seriedade do caso

As bancas eram fictícias assim como o cérebro dos

jurados e o que mais atrapalhava era a seguran

ça destinada a nos atender

eu o havia conhecido no meio de uma festa de artis

tas ou num dos escritórios da banca que nos havia

convidado a preencher aquele espaço com 1000 dóla

res de nossas ingenuidades ( casuais )

nos mantivemos firmes eu com meu piano e Löic com

seu iglú, ele não era bretão nem desenhava menires

no ar enquanto assoviava

mas sabia subir rápido uma escada e havia me ensina

do a andar de cabeça para baixo e a recortar mol

des de gelo para o iglú , esse ficava no meio de

uma planície perto da jamaica talvez , seus vizi

nhos viviam numa horrenda construção preta quente

e inabitável

Löic havia ganho também uma espécie de terreno mura

do como o meu mas quadrado , não havia lugar para

fazer fogo por isso usava um grosso pullover

não tinha nenhum rio e lá longe podia ver-se o lago

O chão era duro como cimento e uma grande coluna

branca servia para deixar seu cavalo mas dificulta

va a escolha do lugar para o porto e a nave naufra

gada

 

Foi ele quem me mostrou o que fazer com o meio da

espiral , foi ele quem fechou o piano e me fazia

dormir cedo esquecendo a maioria das festas a que

éramos convidados

vários sacerdotes e carrascos nos viam juntos o que

gerava uma certa inveja neles e nos deixava muito

felizes , parávamos e comíamos nozes ou pedaços de

provolone

Quando meu terreno já estava plantado resolvi mudar

para sua terra , no começo fiquei pelos cantos até

que ele deixou que eu o ajudasse . O porto já tinha

seu lugar fixo e as bases de uma nave estranha ( mu

ndo ponte navio ) já estava ao largo do estuário

seco .

No meio deste tempo conhecemos uma pequena duende

japonesa que riscava paredes chamando de aspirado

res elefantes ou dinossauros àquilo que fazia

gastamos 15 dias na construçãso do iglú

os vulcões não foram acesos e meus livros foram

roubados

Como éramos gente do deserto , Löic e eu resolve

mos subir até a montanha na cidade das casas anti

gas , mais um quarto comprido e fino , nessa tarde

achamos um patinho de vidro provavelmente de se

colocar na frente de uma carro americano .

 

Agora estou de volta nesse continente estranho

cada cidade me mostra sua espécie de crise

desde aquela com pilares no rio e seu novo gover

no socialista . Passei também por aquela cidade luz

onde o rio tem várias pontes e vários palácios che

ios de guardas bravos que tem medo das bombas que

seus superiores mandam colocar para espantar seus

súditos e criar neles um espectro de racismo .

 

passei pelas termas de uma civilização romana e

cheguei até o lugar onde as pessoas põem o dinheiro

em contas secretas , no meio de bêbados reacioná

rios , vendedores de cobras de vidro e moedas

estrangeiras, encontrei uma América do Sul com

vulcões de lamparinas ( era um sinal , Löic est

va ali ) e pela segunda vez íamos nos encontrar ,

eu tinha a missão de dizer a ele que seu caminho

nessa terra tinha gerado frutos vermelhos e ouro

e aos depositantes isso lhes aprazia e ele devia

manter-se de olhos abertos para que algum maluco

não acabasse vendendo as pontas das unhas que ele

acabasse de cortar .

Mas , meu amigo Löic , tu és teu bom dono e sabes

manejar bem teu caiaque .

e eu que só sei de meu piccolo pianoforte que te

posso dizer? acho que deveria sim , dizer aos

mais habituados que nós somos hippies e que gosta

mos de garagens , nos custa suor fazer esses peque

nos mundinhos e nos

dão o prazer suficiente para aguentar vê-los troca

dos por dólares ou cruzados de prata ou quem sabe

dizer que somos cínicos ou ingênuos o bastante

para manejar os arcos e chamar o falcão que nossos

pais adestraram e fazem a nosso vigília .

Mas se sairmos do campo da representação sabemos

que os habituados também tem o seu ponto certo e

talvez já tenham cruzado o ar mais que nós

mas te digo também ( como Lawrence ) que

nós vamos cruzar esse deserto e chegar a Akaba , lá

começa a luta , a mais sangrenta .

Será que mataremos também como loucos ou veremos e

deixaremos os xerifes executarem os raptores das

belas sabinas .

 

volto para o Löic e lembro do riso que me deu

assim que desci do trem .

tínhamos palavras semelhantes para dizer e mais

uma vez estávamos sobre a mesma ponte ou sob ela

no mesmo rio , por isso não cumpri a missão de

fazer dele um bom manager .

Resolvemos esquecer que estávamos no concurso

e fomos à praia construir um vulcão de areia .

 

Löic era cristão tinha uma família e um aparta

mento no meio de uma cidade barroca , era especiali

sta em iglús e pontes metálicas , acho que rezava

todos os dias e também sabia o nome de alguns san

tos

fizemos alguns passeios e ele sabia o vocabulário

das árvores e das lojas de brinquedos

falava com os tambores as focas e os aviões , me

ensinou a língua dos aeromodelos e eu o ensinei

a tocar piano e a gostar de comida árabe

alguns podiam achar que era um moralista , mas

nem todos podiam entender que um cara podia gostar

apenas de fazer seus iglús e deixar que alguns

sonhadores tratem de comercializar isto ou aquilo que

ele deixou escapar

 

 

o transatlântico

blue

blue way

take me from here

oh my baby

I'm sure

 

(1) Texto transcrito respeitando a diagramação, pontuação e ortografia do original datilografado.

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