VOILÀ MON COEUR

Adriano Pedrosa

 

"Voilà mon coeur" (Here is my heart), c. 1989
Bordado e cristais sobre feltro (embroidery and crystals on felt), 22 x 30 cm
Col. Adriano Pedrosa
Foto Rômulo Fialdini

 

____Pensar e agora escrever este ensaio me fez e me faz retornar às condições de produção do texto crítico. Vejamos: a postura crítica tradicional, bem se sabe, exige imparcialidade, objetividade e racionalidade do escritor. Para tanto, são imprescindíveis um distanciamento do sujeito crítico em relação a seu objeto de consideração - o que implica uma suspensão do sujeito emotivo - e a utilização de critérios razoáveis, claros e universais. Rigorosa, a crítica tradicional quer transmitir seu entendimento mediante um texto límpido e cristalino; crê portanto na transparência da (sua) linguagem. Possuído por espírito iluminista, o bom crítico lançará novas luzes sob seu objeto de consideração, estabelecendo interpretações e, em instância última, juízo. Subjacente a essa postura crítica está a crença na verdade e no que talvez seja a tarefa-síntese da modernidade: a organização (da natureza, da cultura).

____Já há muito vem-se questionando várias dessas noções; não cabe a mim portanto ora fazê-lo. Vale chamar atenção, no entanto, para os riscos que se correm ao se debruçar sobre a obra de um artista que, além de ter merecido até agora esparsa atenção da crítica, agora é morto. Aqui, a hermenêutica, a sistematização e a organização são modos sedutores e perigosos que devem ser a todo custo evitados.

____Nesse sentido, advirto logo o leitor: se há um momento em que restam claros os limites (diria mesmo impossibilidade) de se fazer crítica, esse momento é agora (escrevo este texto em meados do mês de maio de 1995). Se há uma obra da qual não posso me afastar, estabelecer segura distância que me permita analisá-la com rigor e imparcialidade, objetividade e razão, essa obra é a do Leonilson. Não apenas porque a obra mesma resiste a uma tal postura (e se o leitor crítico deseja aqui voltar às palavras do autor já morto: "Os trabalhos são todos ambíguos. Eles não entregam uma verdade diretamente, mas mostram uma visão aberta." ), mas ainda porque não posso (nem tampouco desejo) escapar de meu profundo envolvimento com essa e com seu autor, de quem, um tanto incestuosamente neste contexto, possuo larga coleção. Sou parcial, não creio na transparência deste meio, suspeito dos juízos e de seus critérios universais, e, como o próprio Leo, das razões e das verdades.

____Se talvez o debruçar-me sobre essa obra evoca sujeito possuído não por espírito iluminista, mas por aquele dos années soixante, num contra-gesto, respeito aqui a vontade do autor - meu ponto de partida é sua palavra. Não é à toa que o próprio título deste ensaio é tomado de um trabalho do Leonilson, provavelmente feito em 1989, ano em que o conheci. O pequeno Voilà mon coeur mede 22 x 30cm e consiste num pedaço de lona pintada de tinta acrílica dourada, com uma fina tira horizontal de feltro acinzentado em sua borda superior. Bordados na lona com linha azul clara, há vinte e seis pingentes de cristal lapidado, sobras de um candelabro quebrado. Sem chassis, o trabalho tem três furos na borda de feltro - um no canto esquerdo, outro no canto direito e um terceiro ao centro - que permitem seu proprietário pendurá-lo por pregos numa parede.

____Voilà mon coeur foi exposto na Galeria Luisa Strina, em São Paulo, numa individual do Leonilson em 1989. Após ver o trabalho, conversamos justamente sobre essa ato de se expor ao público, dilema que parece perseguir o artista de espírito romântico. O expor o coração remete a Klee, que "você olha, é uma aquarelinha, mas ele tirou do coração e pôs na parede," ou ainda a Jesus Cristo, que "tirou o coração, deu para São João Batista e falou: 'Aqui está meu coração, faça dele o que você quiser.'" Entretanto, expor o coração é ato doloroso, sobretudo em tempos de cinismo e ceticismo, trazendo consigo e com frequencia ambiguidade e contradição.

____Na arte, então, a mercantilização desse coração não se dá livre de problemáticos desdobramentos. Não somos (tão) ingênuos: a arte é mercadoria. No outono de 1989, Voilà mon coeur havia sido vendido, pequeno ponto vermelho à esquerda de seu título na lista de obras expostas na Galeria Luisa Strina. Como suporta o artista, aquele que expõe seu íntimo, tal mercantilização? "É seu coração que está lá na parede," disse ao Leo um tanto impiedosa e ingenuamente, "você o pôs à venda." Não tinha eu na época consciência de que na realidade todos seus trabalhos quando não metáforas de seu coração, são metonímias de seu próprio corpo. Voltei ao Rio de Janeiro e dias depois recebi, pelo correio, um pacote de SEDEX. Dentro dele um pequeno trabalho de ouro e cristal; no verso li: "Voilà mon coeur, il vous apartien [sic], ouro de artista amar bastante."

____Talvez mais do que o corpo, o coração seja o motivo dominante e recorrente da obra. O coração como órgão muscular, bombadeor de sangue através de veias e artérias; o coração como centro vital das emoções e sensibilidades do sujeito, repositório de seus sentimentos mais sinceros, profundos e íntimos. Abismos, águas, ampulhetas, âncoras, asas, átomos, crucifixos, desertos, escadas, espadas, espelhos, espirais, facas, flores, fogos, globos, homens, ilhas, labirintos, livros, mapas, matemáticos, montanhas, oceanos, olhos, órgãos, pedras, pérolas, poesias, pontes, portos, radares, relâmpagos, relógios, rios, ruínas, tempestades, templos, vulcões - tudo remete ao coração (do artista), seja atravessando-o, seja por seu intermédio, seja a partir dele. Volto às pretensões e condições de produção do texto crítico: aqui, lançar-se num projeto de estabelecimento de nexos de significação me parece tarefa quando não supérflua, ao menos fadada ao fracasso. Se, por um lado, nomear mesmo já é tarefa árdua - Tempestade no coração, abismos, fendas e relâmpagos, que nome estranho dão a isso? -, por outro, os vocábulos do vasto léxico do Leo lutam ferozmente contra a dicionarização.

____De fato, ambiguidade é palavra-chave na fala do Leo, e a perseguem problematizações e dilemas. O artista de espírito amoroso talvez resista a ter seu íntimo exposto ao público. Talvez não. Porém certamente irá, num momento ou noutro, enfrentar os dilemas de sua mercantilização. Lembro Rothko que, após concluir uma série de pinturas para o restaurante Four Seasons em Nova York, negou-se a entregá-las - estão hoje na Tate Gallery, em Londres. Lembro Rothko, mais ainda, porque Leonilson e sua obra têm algo do ethos expressionista-abstrato: o desejo de marcar a expressão subjetiva. A distinção fundamental refere-se à escala heróica e majestosa daqueles mestres modernos, em oposição à intimista e singela do Leo (como Pollock, Leonilson estendia sua tela horizontalmente enquanto pintava, pendurando-a na vertical apenas após tê-la concluído. De modo distinto de so pintor norte americano no entanto, suas telas não se estendiam no chão, mas em sua mesa de trabalho, e suas dimensões eram então limitadas pelo tamanho do tampo de madeira). Mais ainda, ao rejeitar a pureza e ordem formalista, o Leo se posiciona com ceticismo em relação ao projeto abstracionista do modernismo tardio - nem figurativos nem abstratos, essas classificações não dão conta de seus trabalhos. Sobretudo, entre o Rothko dos anos quarenta e cinquenta e o Leonilson dos oitenta e noventa, há um divisor crucial: as desrazões do pensamento dos années soixante e todas as mortes que então se anunciavam.

____Escrita a morte do sujeito e a do autor (algo que na produção artística só encontrará reflexos cabais nos anos oitenta), o que resta ao espírito amoroso? A resposta do Leonilson atravessa e leva consigo o coração - o ouro do artista é, afinal, amar bastante -, com toda a ambiguidade que lhe é tão cara. Em Voilà mon coeur, ele (autor-coração-trabalho) é oferecido não somente a seu proprietário, mas ao espectador também: "eis meu coração," anuncia o título. Mas numa sutil dialética que convida e nega revelação e descobrimento, é só no verso do trabalho que, por aguda ironia do artista, repousa a informação: "ele lhe pertence." Pequeno objeto de cristal e ouro, frágil e precioso, o espectador pode mesmo estilhaçá-lo, e aí residem os perigos do expor-se ao público. Aqui, o irracional espírito amoroso persiste e, ainda que por detrás de finos ardis, termina por se entregar. Entre a servidão voluntária e a perversa inocência, ele afirma: O que você quiser, o que você desejar, eu estarei aqui, pronto para servi-lo. Por fim, o coração, como todas as outras coisas no mundo, aponta para a morte. Esse pode ser o leitmotiv da obra, mas na cadeia infinita de metáforas, a morte é sempre o significante último.

 

 

NOTAS

1 Leonilson, em entrevista conduzida por Lisette Lagnado.

2 Leonilson, em trabalho de1988, escreve: "São tantas as verdades", e em título de trabalho de 1991: Para quem comprou a verdade.

3 Leonilson, em entrevista conduzida por Lisette Lagnado neste São tantas as verdades.

4 Leonilson, em título de trabalho de 1991

5 Leonilson, em entrevista conduzida por Lisette Lagnado, menciona "ambigüidade" umas oito vezes.

6 Leonilson, em título de trabalho de 1992: Perversos inocentes.

7 Leonilson, em título de trabalho de1991.

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