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____Pensar
e agora escrever este ensaio me fez e me faz retornar às
condições de produção do texto crítico.
Vejamos: a postura crítica tradicional, bem se sabe, exige
imparcialidade, objetividade e racionalidade do escritor. Para tanto,
são imprescindíveis um distanciamento do sujeito crítico
em relação a seu objeto de consideração
- o que implica uma suspensão do sujeito emotivo - e a utilização
de critérios razoáveis, claros e universais. Rigorosa,
a crítica tradicional quer transmitir seu entendimento mediante
um texto límpido e cristalino; crê portanto na transparência
da (sua) linguagem. Possuído por espírito iluminista,
o bom crítico lançará novas luzes sob seu objeto
de consideração, estabelecendo interpretações
e, em instância última, juízo. Subjacente a
essa postura crítica está a crença na verdade
e no que talvez seja a tarefa-síntese da modernidade: a organização
(da natureza, da cultura).
____Já
há muito vem-se questionando várias dessas noções;
não cabe a mim portanto ora fazê-lo. Vale chamar atenção,
no entanto, para os riscos que se correm ao se debruçar sobre
a obra de um artista que, além de ter merecido até
agora esparsa atenção da crítica, agora é
morto. Aqui, a hermenêutica, a sistematização
e a organização são modos sedutores e perigosos
que devem ser a todo custo evitados.
____Nesse
sentido, advirto logo o leitor: se há um momento em que restam
claros os limites (diria mesmo impossibilidade) de se fazer crítica,
esse momento é agora (escrevo este texto em meados do mês
de maio de 1995). Se há uma obra da qual não posso
me afastar, estabelecer segura distância que me permita analisá-la
com rigor e imparcialidade, objetividade e razão, essa obra
é a do Leonilson. Não apenas porque a obra mesma resiste
a uma tal postura (e se o leitor crítico deseja aqui voltar
às palavras do autor já morto: "Os trabalhos são
todos ambíguos. Eles não entregam uma verdade diretamente,
mas mostram uma visão aberta." ), mas ainda porque não
posso (nem tampouco desejo) escapar de meu profundo envolvimento
com essa e com seu autor, de quem, um tanto incestuosamente neste
contexto, possuo larga coleção. Sou parcial, não
creio na transparência deste meio, suspeito dos juízos
e de seus critérios universais, e, como o próprio
Leo, das razões e das verdades.
____Se
talvez o debruçar-me sobre essa obra evoca sujeito possuído
não por espírito iluminista, mas por aquele dos années
soixante, num contra-gesto, respeito aqui a vontade do autor - meu
ponto de partida é sua palavra. Não é à
toa que o próprio título deste ensaio é tomado
de um trabalho do Leonilson, provavelmente feito em 1989, ano em
que o conheci. O pequeno Voilà mon coeur mede 22 x 30cm e
consiste num pedaço de lona pintada de tinta acrílica
dourada, com uma fina tira horizontal de feltro acinzentado em sua
borda superior. Bordados na lona com linha azul clara, há
vinte e seis pingentes de cristal lapidado, sobras de um candelabro
quebrado. Sem chassis, o trabalho tem três furos na borda
de feltro - um no canto esquerdo, outro no canto direito e um terceiro
ao centro - que permitem seu proprietário pendurá-lo
por pregos numa parede.
____Voilà
mon coeur foi exposto na Galeria Luisa Strina, em São Paulo,
numa individual do Leonilson em 1989. Após ver o trabalho,
conversamos justamente sobre essa ato de se expor ao público,
dilema que parece perseguir o artista de espírito romântico.
O expor o coração remete a Klee, que "você olha,
é uma aquarelinha, mas ele tirou do coração
e pôs na parede," ou ainda a Jesus Cristo, que "tirou o coração,
deu para São João Batista e falou: 'Aqui está
meu coração, faça dele o que você quiser.'"
Entretanto, expor o coração é ato doloroso,
sobretudo em tempos de cinismo e ceticismo, trazendo consigo e com
frequencia ambiguidade e contradição.
____Na
arte, então, a mercantilização desse coração
não se dá livre de problemáticos desdobramentos.
Não somos (tão) ingênuos: a arte é mercadoria.
No outono de 1989, Voilà mon coeur havia sido vendido, pequeno
ponto vermelho à esquerda de seu título na lista de
obras expostas na Galeria Luisa Strina. Como suporta o artista,
aquele que expõe seu íntimo, tal mercantilização?
"É seu coração que está lá na
parede," disse ao Leo um tanto impiedosa e ingenuamente, "você
o pôs à venda." Não tinha eu na época
consciência de que na realidade todos seus trabalhos quando
não metáforas de seu coração, são
metonímias de seu próprio corpo. Voltei ao Rio de
Janeiro e dias depois recebi, pelo correio, um pacote de SEDEX.
Dentro dele um pequeno trabalho de ouro e cristal; no verso li:
"Voilà mon coeur, il vous apartien [sic], ouro de artista
é amar bastante."
____Talvez
mais do que o corpo, o coração seja o motivo dominante
e recorrente da obra. O coração como órgão
muscular, bombadeor de sangue através de veias e artérias;
o coração como centro vital das emoções
e sensibilidades do sujeito, repositório de seus sentimentos
mais sinceros, profundos e íntimos. Abismos, águas,
ampulhetas, âncoras, asas, átomos, crucifixos, desertos,
escadas, espadas, espelhos, espirais, facas, flores, fogos, globos,
homens, ilhas, labirintos, livros, mapas, matemáticos, montanhas,
oceanos, olhos, órgãos, pedras, pérolas, poesias,
pontes, portos, radares, relâmpagos, relógios, rios,
ruínas, tempestades, templos, vulcões - tudo remete
ao coração (do artista), seja atravessando-o, seja
por seu intermédio, seja a partir dele. Volto às pretensões
e condições de produção do texto crítico:
aqui, lançar-se num projeto de estabelecimento de nexos de
significação me parece tarefa quando não supérflua,
ao menos fadada ao fracasso. Se, por um lado, nomear mesmo já
é tarefa árdua - Tempestade no coração,
abismos, fendas e relâmpagos, que nome estranho dão
a isso? -, por outro, os vocábulos do vasto léxico
do Leo lutam ferozmente contra a dicionarização.
____De
fato, ambiguidade é palavra-chave na fala do Leo, e a perseguem
problematizações e dilemas. O artista de espírito
amoroso talvez resista a ter seu íntimo exposto ao público.
Talvez não. Porém certamente irá, num momento
ou noutro, enfrentar os dilemas de sua mercantilização.
Lembro Rothko que, após concluir uma série de pinturas
para o restaurante Four Seasons em Nova York, negou-se a entregá-las
- estão hoje na Tate Gallery, em Londres. Lembro Rothko,
mais ainda, porque Leonilson e sua obra têm algo do ethos
expressionista-abstrato: o desejo de marcar a expressão subjetiva.
A distinção fundamental refere-se à escala
heróica e majestosa daqueles mestres modernos, em oposição
à intimista e singela do Leo (como Pollock, Leonilson estendia
sua tela horizontalmente enquanto pintava, pendurando-a na vertical
apenas após tê-la concluído. De modo distinto
de so pintor norte americano no entanto, suas telas não se
estendiam no chão, mas em sua mesa de trabalho, e suas dimensões
eram então limitadas pelo tamanho do tampo de madeira). Mais
ainda, ao rejeitar a pureza e ordem formalista, o Leo se posiciona
com ceticismo em relação ao projeto abstracionista
do modernismo tardio - nem figurativos nem abstratos, essas classificações
não dão conta de seus trabalhos. Sobretudo, entre
o Rothko dos anos quarenta e cinquenta e o Leonilson dos oitenta
e noventa, há um divisor crucial: as desrazões do
pensamento dos années soixante e todas as mortes que então
se anunciavam.
____Escrita
a morte do sujeito e a do autor (algo que na produção
artística só encontrará reflexos cabais nos
anos oitenta), o que resta ao espírito amoroso? A resposta
do Leonilson atravessa e leva consigo o coração -
o ouro do artista é, afinal, amar bastante -, com toda a
ambiguidade que lhe é tão cara. Em Voilà mon
coeur, ele (autor-coração-trabalho) é oferecido
não somente a seu proprietário, mas ao espectador
também: "eis meu coração," anuncia o título.
Mas numa sutil dialética que convida e nega revelação
e descobrimento, é só no verso do trabalho que, por
aguda ironia do artista, repousa a informação: "ele
lhe pertence." Pequeno objeto de cristal e ouro, frágil e
precioso, o espectador pode mesmo estilhaçá-lo, e
aí residem os perigos do expor-se ao público. Aqui,
o irracional espírito amoroso persiste e, ainda que por detrás
de finos ardis, termina por se entregar. Entre a servidão
voluntária e a perversa inocência, ele afirma: O que
você quiser, o que você desejar, eu estarei aqui, pronto
para servi-lo. Por fim, o coração, como todas as outras
coisas no mundo, aponta para a morte. Esse pode ser o leitmotiv
da obra, mas na cadeia infinita de metáforas, a morte é
sempre o significante último.
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