COLOCANDO DOBRADIÇAS NA ARTE CONTEMPORÂNEA

Tadeu Chiarelli

 

 

'Se você sonha com as nuvens", 1991
Bordado sobre voile, 46 x 36 cm
Acervo Museu da Arte Moderna de São Paulo
Foto Eduardo Brandão

 


É possível caracterizar uma parte sigificativa da produção artística internacional desde o final da II Grande Guerra pelo progressivo afastamento da subjetividade e da expressão do eu do artista, rumo a uma persistente apropriação de uma lógica produtiva artificial e anônima, típica das sociedades industriais e pós-industriais, e a seus signos mais evidentes. O uso de elementos modulares, o caráter serial e a impessoalidade das peças e imagens transformadas em ícones são a marca registrada dessas produções. Esse processo pode ser acompanhado mediante certas tendências surgidas e/ou desenvolvidas nos Estados Unidos e depois internacionalizadas. Querendo romper com a noção de arte como maneira de recriar o mundo a partir da auto-expressão e das regras tradicionais da composição, esses artistas conceberam seus trabalhos a partir da própria estrutura sugerida pela gestalt dos módulos que usavam. A abstração pós-pictórica, a pop art, a minimal (e seus herdeiros mais recentes) possuem como ponto em comum justamente a apropriação de uma lógica serial e modular. Assim, listas de cores justapostas equivalem a uma imagem fotográfica de Marilyn Monroe repetida indefinidamente que, por sua vez, possui o mesmo raciocínio básico de uma peça que consiste de um tijolo, colocado ao lado do outro, ou a um aspirador de pó colocado ao lado do outro.

Como oposição e, ao mesmo tempo, desinência dessa vertente, desenvolveu-se uma produção que buscava enfatizar as propriedades físicas e/ou químicas da matéria natural ou semi-industrializada com mínima ou nenhuma intervenção do artista. A corda, a borracha, o chumbo, o vidro foram investigados em suas capacidades de resistência no espaço e no tempo. Rasgar, romper, torcer, jogar - ações precisas e determinadas sobre ou contra a matéria - era o imperativo dessa tendência.

Tanto naquelas primeiras vertentes (que, por comodidade, poderiam ser aglutinadas sob a denominação "minimalista") como na última ("pós-minimalista"), a autoria da obra é subjugada a uma ação que, embora assumida pelo artista, não foi criada por ele. Quem dá a tônica para a estrutura da obra é o módulo ou, no caso do pós-minimalismo, a própria matéria.

II

Refletindo sobre uma parcela significativa da produção artística brasileira contemporânea, percebe-se que a lógica que lhe dá base não é a mesma que estrutura essa produção norte-americana e internacional, descrita acima. Se nos Estados Unidos, na Europa e no Japão é a sociedade industrial quem dá as bases à ação do artista sobre o mundo, nesse segmento da produção brasileira são justamente os elementos de uma lógica pré-industrial que assumem uma importância preponderante.

Se as peças de Carl Andre ou Jeff Koons explicitam uma inteligência exterior a si mesmas, da qual elas apenas se apropriam em uma operação que recupera, em última análise, o conceito de ready-made de Duchamp - Luiz Hermano, Efrain Almeida, Shirley Paes Leme, Edith Derdyk vivenciam aquela inteligência artesanal que está por trás de suas produções. Se Andre e Donald Judd posicionam um módulo ao lado do outro, se Richard Serra enrola ou vinca, dobra ou acumula, torce ou corta a matéria, Maria Clara Fernandes, Jac Leirner, Mônica Nador, Leda Catunda, José Leonilson...vão ligando um módulo ao outro, vão tramando, amarrando, costurando...

Agindo mais no mundo e com o mundo do que propriamente sobre o mundo, esses artistas igualmente estão se apropriando de uma inteligência ou de uma racionalidade que é anterior a eles, e da qual não apenas se apropriam, mas a ela se integram. Suas produções incorporam à arte brasileira contemporânea justamente uma tradição artesanal não-erudita existente no país, uma tradição ainda não extinta, apesar (ou por causa) do processo de industrialização descontínuo e cheio de vácuos pelo qual vem passando o Brasil há décadas.

III

Apesar de estruturalmente tão distantes da produção internacional citada, é interessante como os trabalhos desses artistas possuem uma característica bastante semelhante às obras internacionais ligadas à minimal e ao pós-minimalismo. Como essas últimas, eles tendem igualmente a obliterar a expressão do eu do artista, chegando em muitos casos quase a romper com o próprio conceito de autoria, uma vez que repetem procedimentos exteriores aos seus autores. Só que não pela lógica do processo industrial mas justamente pelo seu oposto: mediante inteligência artesanal que historicamente antecede aquele processo, mas que no Brasil lhe é concomitante. Esse caráter contemporâneo, conseguido pela negação de uma das bases principais da arte contemporânea internacional, é o que torna tão significativa a produção desses artistas que se inscrevem em uma espécie de tradição brasileira que se desenvolve já faz algumas décadas (não se deve esquecer que em seus "Bichos", Lygia Clark já usou uma lógica muito próxima a desses artistas).

Hermano, Paes Leme, Derdyk, Fernandes Maiolino, Nador, Leirner e os outros, quando constroem seus objetos, pinturas ou esculturas, obedecem a padrões e à inteligência interna de certas técnicas preexistentes como a tecelagem, a cestaria, a pintura ornamental e outros procedimentos imemoriais. Apenas em um país como o Brasil, onde a industrialização não rompeu com o modo de produção que em outras nações a antecedeu, seria pertinente encontrar artistas que, ao operar com materiais industrializados e/ou naturais (não importa), resgatam com tanta intensidade e com tamanha propriedade práticas artesanais antiquíssimas.

IV

Dentro deste quadro de manutenção/ampliação das possibilidades de apropriação da lógica artesanal em trabalhos de arte contemporânea, existe um outro grupo de artistas que, apesar das conexões irremovíveis com os trabalhos daqueles citados acima, conseguem um outro tipo de singularidade. Fernando Lucchesi e Emmanuel Nassar, por exemplo, além da recuperação dos procedimentos pré-industriais de fatura, repropõem igualmente a própria gestalt de certos objetos e/ou imagens oriundas da cultura popular de suas regiões de origem. Nassar refaz as engenhocas tão visíveis na paisagem urbana paraense, ligando seus elementos constitutivos por meio de gambiarras e improvisações muito próximas da criatividade popular brasileira. Lucchesi, por sua vez, reconduz à cena artística atual a volúpia do barroco mineiro revitalizado por uma angústia contemporânea, na qual a matéria agressiva do metal não se conforma submissa à imposição do espírito ornamental de suas peças, releituras de antigos oratórios e outros objetos do cotidiano mineiro.

O gosto pelo ornamental, pelo arranjo e pela beleza boa de se ver é outra característica do trabalho desses artistas, ligando produções aparentemente tão distintas como as de Regina Johas e Luiz Hermano. Se a primeira contesta a racionalidade masculina que estrutura sua produção - operando com brocados e dourados tão femininos, sensuais e opulentos - , o segundo, na sua humildade estrutural de artesão, leva às últimas consequências o gosto de um ourives enlouquecido que amplia a beleza de seus adornos para serem melhor vivenciados pelo público.

V

Ainda cumpre ressaltar que, no interior dessa produção que repete procedimentos anônimos, ligados a tradições revelhas porém ativas em diversas regiões do país, muitas vezes a ânsia autoral sobrepõe-se a esses procedimentos, ora pela escolha dos materiais e processos escolhidos pelos artistas, ora pelo conteúdo explicitamente autobiográfico presentes em seus trabalhos. Nas tramas dos bordados e costuras de José Leonilson, nas pinturas de Montez Magno (cujos campos de cor remetem à arquitetura popular do Nordeste), nas montagens de Jac Leirner explicitam-se os desejos de auto-expressão desses artistas, em uma síntese perfeita - e aparentemente paradoxal - entre anônimo e autoral. Nas esculturas de Shirley Paes Leme, respira a natureza do Brasil Central, assim como nas peças de Maria Clara Fernandes, a vegetação do interior da Ilha de Florianópolis e o lixo urbano são transformados pela artista. Nos trabalhos de Edith Derdyk, nos de Jac Leirner e naqueles de Lia Menna Barreto, a cultura material de São Paulo e de outras grandes cidades é reproposta como processo de gestação que se dá no tempo e no espaço. Nas peças de Ana Maria Maiolino, a paisagem da memória milenar do trabalho da mulher é revista via uma apropriação afetiva do gesto de modelar o pão e/ou a argila...

À racionalidade puritana, afirmativa e quase sempre autoritária da arte internacional, esses 15 artistas brasileiros opõem uma lógica construtiva pautada no automatismo da fazer, no gosto pelo ornamental, na memória "imemorial", no interesse pela possibilidade de manipulação. Suas obras quase sempre não aspiram a dimensões ingentes, não se impõem ao observador mas, pelo contrário, querem agradar e participar da transformação da vida de quem as vê, ou melhor, as vivencia.

Em vez de enrolar, vincar, torcer, cortar, esses artistas vêm costurando, bordando, ligando, colocando dobradiças entre a visualidade não-erudita brasileira e algumas das grandes questões da arte internacional das últimas décadas.

Agenda Projeto Artista Biografia Galeria Cronologia Textos Vídeos Bibliografia Contato Equipe Menu