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É possível caracterizar uma parte sigificativa da
produção artística internacional desde o final
da II Grande Guerra pelo progressivo afastamento da subjetividade
e da expressão do eu do artista, rumo a uma persistente apropriação
de uma lógica produtiva artificial e anônima, típica
das sociedades industriais e pós-industriais, e a seus signos
mais evidentes. O uso de elementos modulares, o caráter serial
e a impessoalidade das peças e imagens transformadas em ícones
são a marca registrada dessas produções. Esse
processo pode ser acompanhado mediante certas tendências surgidas
e/ou desenvolvidas nos Estados Unidos e depois internacionalizadas.
Querendo romper com a noção de arte como maneira de
recriar o mundo a partir da auto-expressão e das regras tradicionais
da composição, esses artistas conceberam seus trabalhos
a partir da própria estrutura sugerida pela gestalt dos módulos
que usavam. A abstração pós-pictórica,
a pop art, a minimal (e seus herdeiros mais recentes) possuem como
ponto em comum justamente a apropriação de uma lógica
serial e modular. Assim, listas de cores justapostas equivalem a
uma imagem fotográfica de Marilyn Monroe repetida indefinidamente
que, por sua vez, possui o mesmo raciocínio básico
de uma peça que consiste de um tijolo, colocado ao lado do
outro, ou a um aspirador de pó colocado ao lado do outro.
Como
oposição e, ao mesmo tempo, desinência dessa
vertente, desenvolveu-se uma produção que buscava
enfatizar as propriedades físicas e/ou químicas da
matéria natural ou semi-industrializada com mínima
ou nenhuma intervenção do artista. A corda, a borracha,
o chumbo, o vidro foram investigados em suas capacidades de resistência
no espaço e no tempo. Rasgar, romper, torcer, jogar - ações
precisas e determinadas sobre ou contra a matéria - era o
imperativo dessa tendência.
Tanto
naquelas primeiras vertentes (que, por comodidade, poderiam ser
aglutinadas sob a denominação "minimalista")
como na última ("pós-minimalista"), a autoria
da obra é subjugada a uma ação que, embora
assumida pelo artista, não foi criada por ele. Quem dá
a tônica para a estrutura da obra é o módulo
ou, no caso do pós-minimalismo, a própria matéria.
II
Refletindo
sobre uma parcela significativa da produção artística
brasileira contemporânea, percebe-se que a lógica que
lhe dá base não é a mesma que estrutura essa
produção norte-americana e internacional, descrita
acima. Se nos Estados Unidos, na Europa e no Japão é
a sociedade industrial quem dá as bases à ação
do artista sobre o mundo, nesse segmento da produção
brasileira são justamente os elementos de uma lógica
pré-industrial que assumem uma importância preponderante.
Se
as peças de Carl Andre ou Jeff Koons explicitam uma inteligência
exterior a si mesmas, da qual elas apenas se apropriam em uma operação
que recupera, em última análise, o conceito de ready-made
de Duchamp - Luiz Hermano, Efrain Almeida, Shirley Paes Leme, Edith
Derdyk vivenciam aquela inteligência artesanal que está
por trás de suas produções. Se Andre e Donald
Judd posicionam um módulo ao lado do outro, se Richard Serra
enrola ou vinca, dobra ou acumula, torce ou corta a matéria,
Maria Clara Fernandes, Jac Leirner, Mônica Nador, Leda Catunda,
José Leonilson...vão ligando um módulo ao outro,
vão tramando, amarrando, costurando...
Agindo
mais no mundo e com o mundo do que propriamente sobre o mundo, esses
artistas igualmente estão se apropriando de uma inteligência
ou de uma racionalidade que é anterior a eles, e da qual
não apenas se apropriam, mas a ela se integram. Suas produções
incorporam à arte brasileira contemporânea justamente
uma tradição artesanal não-erudita existente
no país, uma tradição ainda não extinta,
apesar (ou por causa) do processo de industrialização
descontínuo e cheio de vácuos pelo qual vem passando
o Brasil há décadas.
III
Apesar
de estruturalmente tão distantes da produção
internacional citada, é interessante como os trabalhos desses
artistas possuem uma característica bastante semelhante às
obras internacionais ligadas à minimal e ao pós-minimalismo.
Como essas últimas, eles tendem igualmente a obliterar a
expressão do eu do artista, chegando em muitos casos quase
a romper com o próprio conceito de autoria, uma vez que repetem
procedimentos exteriores aos seus autores. Só que não
pela lógica do processo industrial mas justamente pelo seu
oposto: mediante inteligência artesanal que historicamente
antecede aquele processo, mas que no Brasil lhe é concomitante.
Esse caráter contemporâneo, conseguido pela negação
de uma das bases principais da arte contemporânea internacional,
é o que torna tão significativa a produção
desses artistas que se inscrevem em uma espécie de tradição
brasileira que se desenvolve já faz algumas décadas
(não se deve esquecer que em seus "Bichos", Lygia
Clark já usou uma lógica muito próxima a desses
artistas).
Hermano,
Paes Leme, Derdyk, Fernandes Maiolino, Nador, Leirner e os outros,
quando constroem seus objetos, pinturas ou esculturas, obedecem
a padrões e à inteligência interna de certas
técnicas preexistentes como a tecelagem, a cestaria, a pintura
ornamental e outros procedimentos imemoriais. Apenas em um país
como o Brasil, onde a industrialização não
rompeu com o modo de produção que em outras nações
a antecedeu, seria pertinente encontrar artistas que, ao operar
com materiais industrializados e/ou naturais (não importa),
resgatam com tanta intensidade e com tamanha propriedade práticas
artesanais antiquíssimas.
IV
Dentro
deste quadro de manutenção/ampliação
das possibilidades de apropriação da lógica
artesanal em trabalhos de arte contemporânea, existe um outro
grupo de artistas que, apesar das conexões irremovíveis
com os trabalhos daqueles citados acima, conseguem um outro tipo
de singularidade. Fernando Lucchesi e Emmanuel Nassar, por exemplo,
além da recuperação dos procedimentos pré-industriais
de fatura, repropõem igualmente a própria gestalt
de certos objetos e/ou imagens oriundas da cultura popular de suas
regiões de origem. Nassar refaz as engenhocas tão
visíveis na paisagem urbana paraense, ligando seus elementos
constitutivos por meio de gambiarras e improvisações
muito próximas da criatividade popular brasileira. Lucchesi,
por sua vez, reconduz à cena artística atual a volúpia
do barroco mineiro revitalizado por uma angústia contemporânea,
na qual a matéria agressiva do metal não se conforma
submissa à imposição do espírito ornamental
de suas peças, releituras de antigos oratórios e outros
objetos do cotidiano mineiro.
O
gosto pelo ornamental, pelo arranjo e pela beleza boa de se ver
é outra característica do trabalho desses artistas,
ligando produções aparentemente tão distintas
como as de Regina Johas e Luiz Hermano. Se a primeira contesta a
racionalidade masculina que estrutura sua produção
- operando com brocados e dourados tão femininos, sensuais
e opulentos - , o segundo, na sua humildade estrutural de artesão,
leva às últimas consequências o gosto de um
ourives enlouquecido que amplia a beleza de seus adornos para serem
melhor vivenciados pelo público.
V
Ainda
cumpre ressaltar que, no interior dessa produção que
repete procedimentos anônimos, ligados a tradições
revelhas porém ativas em diversas regiões do país,
muitas vezes a ânsia autoral sobrepõe-se a esses procedimentos,
ora pela escolha dos materiais e processos escolhidos pelos artistas,
ora pelo conteúdo explicitamente autobiográfico presentes
em seus trabalhos. Nas tramas dos bordados e costuras de José
Leonilson, nas pinturas de Montez Magno (cujos campos de cor remetem
à arquitetura popular do Nordeste), nas montagens de Jac
Leirner explicitam-se os desejos de auto-expressão desses
artistas, em uma síntese perfeita - e aparentemente paradoxal
- entre anônimo e autoral. Nas esculturas de Shirley Paes
Leme, respira a natureza do Brasil Central, assim como nas peças
de Maria Clara Fernandes, a vegetação do interior
da Ilha de Florianópolis e o lixo urbano são transformados
pela artista. Nos trabalhos de Edith Derdyk, nos de Jac Leirner
e naqueles de Lia Menna Barreto, a cultura material de São
Paulo e de outras grandes cidades é reproposta como processo
de gestação que se dá no tempo e no espaço.
Nas peças de Ana Maria Maiolino, a paisagem da memória
milenar do trabalho da mulher é revista via uma apropriação
afetiva do gesto de modelar o pão e/ou a argila...
À
racionalidade puritana, afirmativa e quase sempre autoritária
da arte internacional, esses 15 artistas brasileiros opõem
uma lógica construtiva pautada no automatismo da fazer, no
gosto pelo ornamental, na memória "imemorial",
no interesse pela possibilidade de manipulação. Suas
obras quase sempre não aspiram a dimensões ingentes,
não se impõem ao observador mas, pelo contrário,
querem agradar e participar da transformação da vida
de quem as vê, ou melhor, as vivencia.
Em
vez de enrolar, vincar, torcer, cortar, esses artistas vêm
costurando, bordando, ligando, colocando dobradiças entre
a visualidade não-erudita brasileira e algumas das grandes
questões da arte internacional das últimas décadas.
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