Los Hermanos continuam o Baile de Carnaval.
A charanga ainda ecoa sobre o batuque secular do samba se espremendo
entre marchas-rancho, chá-chá-chás e boleros para chegar à massa.
Mas a celebração da alta noite aos poucos vai cedendo ao cansaço
físico e a festa vai esmorecendo. Não estamos mais no meio de 250
mil compradores de disco berrando o refrão "Ô Anna Júliaaaaa" no
meio de uma seqüência acelerada de neo-boleros pós-pagode que transformarama
tradicional festa brasileira numa máquina registradora trabalhando
emritmo industrial. O porre vai virando ressaca, a boca vai ressecando,
acabou-se o que era doce. Mas, como a banda das quatro noites, o
grupo carioca segue tocando. Masreduzem a marcha, literalmente.
O frenesi frevo/axé/baião da eletricidade rock fica em segundo plano.
É acessório, cosmético. Não adianta forçar o público para pular
- olhe para eles, derrubados uns por cima dos outros.
Estamos
entrando na quarta e última fase de qualquer boa noite de carnaval,aquela
enunciada pelas emblemáticas Bandeira Branca e Máscara Negra. O
trombone assume uma função tão importante quanto a guitarra no primeiro
disco e o tom azul-madrugada do instrumento toma conta do segundo
disco do Los Hermanos.
Bloco
do Eu Sozinho canta o fim do baile, o nascer do dia, as pessoas
acordando ainda meio bêbadas, entre fantasias rasgadas, garrafas
derrubadas pelo chão, confete e serpentina desbotados pela mistura
indecifrável de líquidos espalhados pelo chão. Canta para os vários
solitários que atravessaram a noite inteira entre flertes e sorrisos
e acabaram sem par como vieram. Mas agora eles estão amarrotados,
suados, usados, borrados. O final de um baile de carnaval sempre
vem mostrar para cada um de nós quem realmente somos. A fantasia
cai tão pesada quanto a realidade que, indefectivelmente, é triste.
O
grupo sente isso, sempre sentiu. Mesmo nos momentos mais eufóricos
de seu primeiro disco, a felicidade vinha apenas como um raio de
sol no horizonte.
Contemplativo
e cético, o vocalista e guitarrista Marcelo Camelo caía na triste
constatação dos poetas românticos, de que a melancolia é o estado
natural do ser humano. Pintava-se de palhaço para fazer os outros
rirem, enquanto, por dentro, estava chorando. Assim o conjunto se
sentia em meio ao turbilhão Anna Júlia, o hit jovem guarda que catapultou
o grupo de suas raízes underground ao panteão de plástico do mercadão
pop. Enquanto todos cantavam sorrindo a plenos pulmões, o grupo
se sentia preso à uma música que não representava o todo de seu
trabalho, numa encruzilhada clássica na história da música popular:
ser ídolos de multidões ou queridos de poucos. Entre um caminho
e outro, o grupo preferiu trilhar seu próprio rumo, abrindo a terceira
via à foice. Para isso, se reuniram em um sítio no interior do Rio
de Janeiro, onde começaram a calibrar o que se tornaria o disco
que está saindo. A saída do baixista Patrick Laplan foi suprimida
pela participação especial do amigo Kassin (do Acabou La Tequila,
influência confessa do grupo) e a produção ficou por conta do cobra
Chico Neves. Curtindo o disco como pinga de alambique, retrocederam
a um tempo em que a bossa nova não havia transformado o samba em
ritmo pré-programado de teclado. E voltaram para o ano 2001 como
uma banda de samba. Como se o rótulo "MPB" não existisse, como se
fazer samba fosse tão natural a qualquer brasileiro, independente
de sua faixa etária, classe social ou formação acadêmica. É um exercício
de recriação da genealogia do rock brasileiro: Noel Rosa é o nosso
Robert Johnson, Chico Buarque nosso Bob Dylan, Cartola nosso Muddy
Waters, Beth Carvalho uma Aretha Franklin, Jair Rodrigues um James
Brown e por aí vai?
Sim,
Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante (voz e guitarra), Bruno Medina
(teclados) e Rodrigo Barba (bateria) formam uma banda de samba,
apesar de virem da classe média, do curso superior, da pele branca
e da formação baixo-teclado-guitarra-e-bateria. Em seu segundo álbum,
eles mergulham ainda mais fundo no fundo de quintal, temperando
o sambão com doses de hardcore,rock alternativo, levadas latinas,
um microponto de psicodelia beatle e compassos mutantes. Deixam
de lado o astral Red Hot Chili Peppers/Mr. Bungle que o primeiro
disco transparecia e se devotam à melodia, cantando o fim da festa
incessante que eles mesmos eram até então.
Mas
se o tom do disco remete à quarta-feira de cinzas, ele também vê
o nascer do novo século como um fim de carnaval. Mas em vez de correr
atrás de recursos tecnológicos e futurísticos para falar sobre a
aurora do novo tempo, eles voltam ao começo do século 20, usando
elementos das primeiras décadas dos anos 1900 como fantasia. Há
referências de modernismo, vaudeville, citações em francês, bailes
de máscaras, maxixe, atenção aos detalhes, literatura, eles colocam
o Bloco do Eu Sozinho na rua em busca da mesma ingenuidade frívola
dos primeiros anos do século passado. Procuram,assim, fugir da ironia
que tentou, de todo jeito, encaixar o grupo em rótulos esdrúxulos
e diferentes comportamentos.
O
excesso de referências musicais deixou de ser um simples problema
de arranjos. Quase todas as faixas do disco atravessam várias fases,
a estrutura das canções (mais complexas que as do primeiro disco,
hoje vistas pela banda como "um rascunho") alcança diferentes pontos
de vista, sem dificuldade ou forçar a barra. Como o Clash fez no
clássico London Calling, eles contam a sua versão da história transformando
tudo em samba(enquanto o grupo inglês pulverizava tudo em punk)
a citação (incidental?)que o trombone faz no primeiro som ouvido
no disco remete imediatamente à introdução instrumental da faixa-título
do disco de 1979. Seja qual for o território musical, a linguagem
melancólica e o batuque do samba estão ali, onipresentes. Não é
à toa que a editora de músicas do grupo seja chamada Zé Pereira.
Mas
por baixo das letras tristes e contemplativas, os Hermanos aproveitam
para espetar quem os incomoda. Os "vocês" espalhados pelo belíssimo
encarte podem se referir ao fã, à crítica, ao mercado, a certas
publicações (há citações ainda mais explícitas, embora maquiadas
como letra de música), ao público que comprou o grupo só por causa
de Anna Júlia, ao seguidor fiel dos tempos do underground carioca.
A letra de Cadê teu Suin-?, uma brincadeira com sílabas, contém
desde a rixa não declarada entre Tom Zé e Caetano Veloso, cobranças
de diretores artísticos, desculpas esfarrapadas, críticas à dita
"nova MPB", o peso do refrão exigido? O grupo passa adiante "Eu
que controlo o meu guidon" sem dar ouvidos a quem ladra. O disco
termina convicto de que eles fizeram o melhor que podiam ao não
repetir o primeiro álbum. "Quero não saber de cor, também", canta
Camelo entre as cordas e um surdo de escola de samba, "pra que minha
vida siga adiante".
Alexandre
Matias
Julho/2001
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