|
Crítica da Folha de São
Paulo publicada em 16/10/2004: Autor exalta maniqueísmo escrachado SERGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA NA peça "Quarta
Costela", um funcionário exemplar, após ser demitido injustamente
e surpreender a mulher com o cunhado, sobe até um quarto de motel para,
da janela, "cuspir na humanidade". Em outra fábula, "Viva
Olegário", Diogênio, um burocrata padrão que por acaso entra em um
botequim, é confundido pelos freqüentadores com Olegário, um malandro
inesquecível que sumiu misteriosamente até ser convencido das vantagens
de se tornar Olegário. Assim é o teatro de Luiz
Carlos Cardoso: variações em torno de uma situação dramática única, sustentadas
por um diálogo ágil, que têm o grande mérito de expor personagens de classe
média - essa classe que por muito tempo esteve ausente do teatro brasileiro,
banida pela esquerda, que denunciava a condição dos miseráveis, e pela
direita, que adulava os pecados da elite. Publicadas essas peças,
junto a outras três, o universo de Cardoso pode atrair a atenção que merece.
"Chefes e Poetas", seu título geral, dá uma boa idéia do seu
bem-humorado maniqueísmo, de um escracho enternecido, por essa fauna de
repartição pública que tenta escapar ao tédio da burocracia por um erotismo
obsessivo, quase adolescente, e que renuncia a Marx em troca de uma promoção. Partindo do realismo,
chega-se ao delírio por um acelerado acúmulo de qüiproquós, segundo a
receita de Feydeau. Seus personagens lutam para superar a condição de
bonecos - e Dionísio/Olegário, inesquecível quando representado por Sérgio
Mamberti em 1977, na versão para televisão de Antunes Filho, atinge uma
força poética equivalente a de Segismundo, o protagonista de "A Vida
É Sonho", de Calderón de la Barca. Flertando com Nelson
Rodrigues e Pirandello, na introdução do volume Cardoso reivindica o estatuto
de literatura para o texto teatral. A posição é defensável quando se trata
de "Viva Olegário", que, só tendo conhecido duas encenações,
em 1977 e 1978, merece muitas outras releituras em cena. Deploravelmente,
o que garantiu visibilidade a seu autor foi justamente seu texto mais
fraco, "Swing", grande sucesso de bilheteria graças a Juca de
Oliveira, mas que resvala para a vulgaridade caça-níquel, o que acaba
contagiando suas peças seguintes. Com a publicação de "Chefes
e Poetas", em tempos de uma nova geração de dramaturgos, como Gero
Camilo e Newton Moreno, tomara que Luiz Carlos Cardoso volte a ser celebrado
pelo que tem de melhor. Para
comprar o livro Chefes e Poetas - O Teatro de Luiz Carlos Cardoso
, acesse FNAC – clique
aqui Livraria Cultura – clique
aqui |