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Dez mil pessoas acompanham enterro de Gonzagão em Exu

Folha da Tarde - 5/8/89

o corpo do cantor, compositor e, sanfoneiro pernambucano, Luiz Gonzaga, 76, que morreu na quarta-feira no Recife (PE) em decorrência de pneumonia e parada cardíaca, foi enterrado ontem às 16h na cidade de Exu, a 732 km do Recife, no alto do sertão do Araripe. Cerca de 10 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre pelas ruas da cidade, segundo cálculos do comando da Polícia Militar. As cerimonias funébres tiveram início no Recife, na quarta-feira à tarde, com velório no plenário da Assembléia Legislativa. O corpo deixou a capital na quinta-feira pela manhã, seguindo de avião para Juazeiro do norte (CE) e para o Crato (CE), onde percorreu algumas ruas das duas cidades sobre caminhão do corpo de bombeiros, sendo saudado por centenas de pessoas. Ontem esteve exposto na igreja-matriz de Bom Jesus dos Aflitos, em Exu.

Desde a madrugada centenas de pessoas chegaram à pequena Exu, com apenas 48km de área, incrustada em 1.125km2 de município, onde vivem cerca de 55 mil pessoas. Longas ruas se formaram, com gente simples, vinda da zona rural de Exu de municípios vizinhos, como Cabrobó, Trindade, Salgueiro, Ouricuri. Homens, mulheres, jovens e crianças passaram pelo caixão, coberto com a bandeira de Exu e o gibão (casaco) e chapéu de couro usados pelo "Gonzagão" durante sua carreira artística, iniciada em 1941.

As últimas homenagens foram a realização de missa de corpo presente, quando cerca de mil pessoas mais coral Santa Cecília entoaram juntas as estrofes de "Asa Branca", uma das mais conhecidas composições de Luis Gonzaga. O sanfoneiro Dominguinhos, amigo de "Gonzagão", tocou e cantou junto "Asa Branca bateu asa e avoou", emocionando-se ao repetir "Eu te asseguro, não chore não, eu voltarei, viu, pro meu sertão". Dominguinhos cantou ainda "Canta Luiz, canta Luiz, tua sanfona me faz feliz, quero dormir e acordar com tua voz".

Grandes faixas brancas se abriram então na pequena igreja-matriz de Exu. "A Asa Branca Voou", "os mandacarus hoje não choram mais", e "agora só é saudade". Do lado de fora da matriz, centenas de pessoas aguardavam a saída do caixão. A multidão aplaudia a saída do caixão, que foi transportado para o cemitério em cima de um carro do Corpo de Bombeiros.

EXU, O CANTINHO DE LUA

A pequena cidade de Exu, a 735 km do Recife (Pernambuco), no meio de seus 1.251 km2 de área e 55 mil habitantes, foi fundada em 1826 e emancipada politicamente em 1907. Exu, ao contrário do que se poderia imaginar, não é originário de nomes de orixás, mas uma corruptela de nome de tribo indígena "Ançu", que vivia na região. Exu passou a ser conhecida nacionalmente nas décadas de 50 e 60, em decorrência de sua política regional, forte e autoritária, entre a disputa entre quatro famílias - Alencar, Sampaio, Peixoto e Saraiva -, que resultou em dezenas de mortos.

Atualmente Exu é uma cidade pacata, onde a política parece que atingiu um patamar de apatia, deixando as emoções e rancores do passado de lado. Localizado no sopé da Serra do Araripe, quase divisa com a Ceará, o município representa 1,27% do Estado, sendo que sua sede tem apenas 48 km2 de área.

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