Marcelo Nova Por ... Luis Augusto Conde

Era 1983 e um amigo chamou-me em sua casa para ouvir o que ele afirmava ser o melhor disco do ano. A banda chamava-se "Camisa de Vênus", fazia um som veloz, cru e sem muita técnica, embora impactante. Mas as letras... as letras diziam tudo que eu sempre quis ouvir, tudo que eu sentia, mas não conseguia expressar. O que eu não pude imaginar foi que aquela capacidade de transformar angustia, coragem, medo raiva, prazer, anseios e sarcasmo em poesia bruta, era apenas o início da carreira de Marcelo Nova.O diamante talvez ainda não estivesse lapidado, mas já dava para ver o quilate da pedra... Em 85, o álbum ‘Batalhões de Estranhos’ trazia além do grande Hit ‘Eu Não Matei Joana D’Arc’, canções com letras do calibre de ‘Rosto e Aeroportos’, e ‘Correndo Por Nossas Vidas’, evidenciando o talento desse baiano avesso a malemolência, ao carnaval, a cultura do acarajé, que nem freqüentava a corte dos gurus da baianidade nem se deslumbrava com a modernidade do"sul maravilha." Em 86, a censura proíbe a vendagem do álbum "Viva" onde Marcelo utilizando pela primeira vez o uso do palavrão na música brasileira insere à exemplo do que Plínio Marcos havia feito no teatro, uma verdadeira ‘Navalha na Carne’ da nossa hipocrisia social. Mesmo com a censura, o disco ultrapassa a marca das cento e trinta mil cópias vendidas. Ainda em 86 vem "Correndo O Risco" o álbum de platina que definitivamente consagrou o Camisa de Vênus como banda e Marcelo Nova como extraordinário compositor. Quem não conhece "Simca Chambord", "Só o Fim" e o épico "A Ferro e Fogo", um dos melhores textos já colocados em forma de canção na música brasileira? Marcelo dedicava-se cada vez mais às suas letras, sua poesia, e em 87 após o lançamento do álbum "Duplo Sentido" que contém ‘Muita Estrela, Pouca Constelação", musica que marca o início da parceria com Raul Seixas, ele surpreende os fãs dando uma parada com o Camisa de Vênus e lançando o seu primeiro álbum solo chamado "Marcelo Nova e a Envergadura Moral", um disco sereno cuja sonoridade mais elaborada e não tão pesada, acaba evidenciando ainda mais a qualidade dos textos. Após ouvir o disco, Raul rompe um silencio de quase 5 anos e sobe ao palco com Marcelo numa apresentação em Salvador, marcando aí o início de uma tournee de 50 shows que viria a culminar com o álbum "A Panela do Diabo", mais um disco de ouro na carreira de ambos e hoje um clássico do rock brasileiro.O trabalho dos dois juntos no entanto, se encerraria com o prematuro falecimento de Raul, em agosto de 89. Marcelo só voltou a gravar em 90 e o fez em grande estilo com o "Blackout" o primeiro "Unplugged" do rock não só no Brasil mas no mundo, pois até hoje não há registro de nenhum outro feito anteriormente com uma banda completa. Com " Blackout", Nova expande os horizontes de um trabalho acústico. Remetendo a própria origem do rock and roll a partir da sua instrumentação básica, ele constrói uma textura sonora harmônica e ao mesmo tempo pesada, obtendo um resultado de surpreendente atemporalidade. Radical em seu solitário antro rocker de resistência e dependendo apenas de si mesmo, desafia outra vez as leis da pasteurização, saindo incólume e com uma obra prima. Crônicas do cotidiano vividas por um verdadeiro outsider e textos repletos de eloqüência poética , realismo e imaginação. Em 94, solta o petardo, "A Sessão sem Fim" provavelmente o disco mais cru e virulento dentre todos os que fez, mas que não tendo uma boa distribuição, tornou-se um verdadeiro item de colecionador. Em 95, o Camisa de Vênus se reúne outra vez para uma serie de shows e o resultado disto é o conseqüente álbum, "Plugado", alusão irônica aos "Unpluggeds", à essa altura um modismo que involuntariamente o próprio Marcelo havia ajudado a criar. Em 96, "Quem é Você", o primeiro álbum com musicas inéditas do Camisa de Vênus em praticamente 10 anos. O disco foi mixado em Los Angeles e co-produzido por uma das maiores expressões do rock’n’roll de todos os tempos – Eric Burdon, que ainda divide os vocais com Marcelo na fabulosa versão de "Don’t Let Me Be Misunderstood." A música "O Ponteiro Tá Subindo" torna-se um hit instantâneo e em 97 a banda faz uma tournee nacional. Em 98, Marcelo entra no estúdio para gravar "Eu Vi O Futuro Baby, Ele É Passado" acompanhado apenas pelo multi instrumentista Johnny Boy. Fazendo uma reeleitura da sua própria obra, obtem como resultado um disco forte, extraordinariamente instigante, mais do que nunca de cunho autoral. Nas palavras do próprio Marcelo – "Uma dose do meu próprio veneno." O disco traz canções da carreira solo da parceria com Raul Seixas e do Camisa de Vênus, todas radicalmente rearranjadas evidenciando uma quase necessidade do Nova de recriar constantemente suas próprias canções. –"Canções como lava, canções como gelo, que mudam o sabor e a temperatura, alterando e tendo alterada sua própria consistência e forma..." Marcelo agora está preparando o seu próximo álbum ainda sem titulo, mas com "canções interligadas de cunho existencialista". Perguntei-lhe se poderia adiantar algo mais e ele falou: "Ainda não é a hora..." Marcelo Nova é um artista inquieto. Inquieto como Glauber, Dylan, Dali, Raul, Hendrix, Oscar Wilde, Iggy , Bunuel, Rimbaud, Lou Reed, Patti Smith, Baudelaire, Jim Jarmusch, Plínio Marcos e outros, que através da sua obra, contesta o que a maioria acredita, sugerindo diferentes hipóteses, indicando novas possibilidades, alterando nossa forma de ver o mundo. Penso que o hábito de ouvir o trabalho de Marcelo Nova durante todos esses anos, tenha me transformado num homem mais atento, quiçá mais inteligente, sem dúvida mais sensível.

Luis Augusto Conde