Marcelo Tas, o multimidiático
Engenheiro, jornalista multimídia, pai do irreverente Ernesto Varela, apresentador do Vitrine, roteirista do Rá-Tim-Bum e do Telecurso 2000, etc, etc, etc...

Entrevista : Tão Gomes Pinto, Mariana Menezes,
Pedro Paulo Venceslau e Rodrigo Manzano
Fotos : Vargas


As novas tecnologias de informação, e o Jornalismo

"A humanidade teve acesso a uma incrível variedade de fontes, de informação, de velocidade de acesso e de democratização da informação. A gente nunca viveu isso. O trabalho do jornalista ficou muito mais interessante, muito mais rico."

AS NOVAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO, E O JORNALISMO

IMPRENSA – Podíamos começar com um fato que você viveu, a notícia do plágio do discurso do ACM, que foi veiculada no Vitrine, e que era uma “informação sem dono”. De repente, a Internet permitiu isso. A informação saiu no blog Catarro Verde, depois no Palíndromo e, depois do seu programa, virou chamada de capa dos jornais.

Marcelo Tas – Esse fato mostra o quanto a gente vive um momento caótico e rico ao mesmo tempo. Essa informação que o ACM plagiou, que até no seu último discurso ele cometeu uma tremenda barbeiragem, eu encontrei numa lista de discussão que freqüento. Lista de discussão é uma coisa muito nova para mim e, acredito, para a maioria das pessoas. Numa lista, você encontra a sua turma virtual, assina a lista e fica o tempo inteiro conversando sobre um assunto que te interessa. No início, eu assinei um monte delas, mas aí você enlouquece, porque não dá para ficar falando sobre tudo o tempo todo. Atualmente, eu assino umas quatro. Uma delas é a Palíndromo, baseada em Recife, que discute justamente a famigerada cybercultura. E, numa discussão, surge então a informação. É muito curioso que ninguém tenha dado muita importância para o fato. Aí, eu pensei “Isso é uma informação incrível!”, e fui desatando os nós eletrônicos da história. Fui primeiro atrás do cara que botou isso no Palíndromo, que é o Charles Pilger, e depois fui atrás do Catarro Verde, do Sérgio Faria. Para nosso espanto, essa informação estava no site do Senado. Não só a informação-texto, como também o áudio original do Afonso Arinos estava no site do Senado. O Senado lançou livros de discursos históricos acompanhados de CDs. A pessoa que faz a abertura do livro é o senador Antônio Carlos Magalhães. Porra, eu acho que realmente estamos na Era de Aquário. Aí, nós preparamos uma matéria especial para o programa e divulgamos isso. É o que eu chamo de fricção das mídias. A gente nunca viveu algo assim. O que vemos hoje é uma fricção, em várias camadas, desde os leitores, e essa fricção chega num nível em que o Sérgio Faria, que tem um weblog, que é um diário na Internet, consegue colocar uma notícia que, 24 horas depois, vai sair nos quatro principais jornais do país.

IMPRENSA – É a tal da tecnologia a serviço da informação.

Marcelo – A transformação é tão grande. Você vê uma figura pública como o Antônio Carlos Magalhães se despedir da vida pública de uma maneira tão patética. Tem um viés que eu fiquei observando nas coisas que aconteceram com ele. Todos os elementos que desencadearam a renúncia dele estão relacionados com tecnologia. É a ignorância aliada ao autoritarismo. As pessoas acham que não vão ser pegas e que “ninguém vai ouvir, ninguém vai falar, eu sou dono deste pedaço de fazenda”. Se você observar, a primeira matéria da IstoÉ só foi possível porque havia um microgravador em um bolso de paletó. A outra falha trágica é que o computador para eles é ainda um objeto bastante estranho. O cara não sabe que qualquer manipulação deixa um rastro eletrônico que um técnico pode detectar. E o desenlace é que o ACM não foi capaz de imaginar que um internauta seria capaz de descobrir um plágio.

IMPRENSA – Você naturalmente sabe que ainda hoje existe jornalista que se recusa a usar computador.

Marcelo – Eu me lembro de uma discussão nas redações, se o cara usava Olivetti ou computador. “Você vai usar sua máquina de escrever ou o computador?” (engrossando a voz). “Não, vou ficar com a minha máquina”. Durante muito tempo, os jornalistas viveram esse falso dilema shakespereano de entrar ou não entrar no mundo do computador. E a discussão não é essa, a discussão é que a gente vive uma mudança radical, histórica. A humanidade teve acesso a uma incrível variedade de fontes, de informação, de velocidade de acesso e de democratização da informação. A gente nunca viveu isso. O trabalho do jornalista ficou muito mais interessante, muito mais rico. Ele tem que se preparar muito mais, tem que se tornar um contador de histórias muito mais inteligente, em vez de simplesmente ficar ali restrito à verdade, à realidade e, portanto, respondendo ao que foi perguntado. A checagem de fontes é muito mais complexa. Você não pode sair correndo atrás de qualquer barulho porque o barulho agora é permanente. O ruído é permanente.


“O jornalista, no meio dessa geleca, tem que se preparar, tem que ser um contador de histórias e precisa ter credibilidade para contá-las, em vez de ficar simplesmente restrito à realidade”


IMPRENSA – Você acha que o furo vai acabar?

Marcelo – Eu tive até uma certa dificuldade para explicar, no Vitrine, de onde veio essa informação. Ela é muito fluida. Estamos falando de uma geleca eletrônica que você cutucou de um lado, mas não é possível saber exatamente de onde saiu. Na minha opinião, atualmente não basta você ter o monopólio da informação, ter a primazia da informação. É preciso ter credibilidade e talento para contar esta notícia. Tem uma forma de contar a notícia, e você depende de um histórico do veículo em que trabalha e da sua credibilidade pessoal para poder imprimir no cara que está do outro lado o impacto daquela notícia. A credibilidade começa a valer muito nessa nova era. E também o talento de contador de histórias.

IMPRENSA – Você acredita em um cyberjornalista do futuro, que encarnaria a informação, apertaria determinados botões e seria praticamente auto-suficiente?

Marcelo – Mas eu acho que os grandes jornalistas sempre foram cyberjornalistas. Você pega o Paulo Francis. Ele era uma cyberjornalista, auto-suficiente. Em vez de clicar, ia nos livros, ia ao telefone. Se você pegar um grande jornalista, ele é esta figura completa, é um editor, é um cara que dialoga com a empresa onde está. Para ficar nos atuais, veja o caso do Elio Gaspari. Ele tem um site dentro do jornal, um jornal dentro do jornal, chamado Elio Gaspari.

IMPRENSA – A tecnologia, afinal, facilitou ou complicou o trabalho do jornalista?

Marcelo – As duas coisas. A tecnologia tornou o trabalho mais complexo, o jornalista vai ter que trabalhar mais. Aliás, ele já está trabalhando mais e ganhando a mesma coisa de antes... A facilidade gerou uma hipercompetição. Para se sobressair, você tem que ter mais talento, tem que ralar mais, tem que ser um contador de histórias. Por que eu vou ler o jornal, ouvir o programa de rádio se eu posso ter informações de graça caindo na minha cara o dia inteiro? Todo mundo começa a ficar interligado. É uma grande suruba cibernética (risos).

IMPRENSA – Este cenário pode ser considerado como o fim do jornalismo enquanto instituição poderosa, que reinou durante séculos?

Marcelo – Eu não tenho essa visão. Pelo contrário. Acho que as empresas estão ficando cada vez mais fortes. As grandes empresas, donas dos veículos pré-cibernéticos, são as mesmas que estão entrando no mundo digital.

IMPRENSA – Então, por trás de toda a produção de conteúdo vai ter sempre o capital?

Marcelo – Com certeza. É aquela história da geleca. A geleca começa a andar para cá, o capital sabe disso e começa a se preparar. Agora, o que é interessante é que, como o movimento é muito radical, isso abre possibilidades para o talento individual aparecer. É uma coisa que aconteceu, em uma outra escala, quando eu comecei a fazer televisão. No início dos anos 80, as primeiras câmeras portáteis de vídeo foram para as mãos de quem não estava dentro das emissoras. A gente começou a fazer uma espécie de camada paralela dentro da televisão com o Olhar Eletrônico e surgiu uma série de novas formas de fazer televisão naquela época. Eu acho que toda mudança tecnológica propicia esse surgimento de talento. Se você voltar mais atrás ainda, na época em que o cinema surgiu, apareceram uma série de novos talentos, Chaplin, Buster Keaton, um monte de gente. A mudança tecnológica obriga uma nova gramática na forma de contar uma história. Na verdade, há sempre uma história sendo contada, só muda o suporte de como você conta esta história.

O "Vitrine", o IBOPE e elogios à Ratinho

"O programa do Ratinho tem conteúdo, é sofisticado, é um grande circo eletrônico que expressa o que você ouve na janela dos conjuntos habitacionais aqui em São Paulo. Ratinho é um grande Nélson Rodrigues."

IMPRENSA – Já que você falou em televisão e o seu patrão é o Padre Anchieta, o que é fazer TV pública?

Marcelo – Eu diria que é um privilégio. É um presente. Primeiro, porque o conceito de TV pública é muito recente no Brasil, e até hoje as pessoas ainda não entenderam. A gente não consegue ter uma memória em perspectiva para lembrar que há 15 anos o Orestes Quércia mandava uma equipe da TV Cultura cobrir ao vivo a inauguração de um viaduto e ela ia. Hoje, você vê o que representa a TV Cultura, os programas que já foram criados, os prêmios, a audiência altíssima, que muita gente ainda considera baixa. É uma revolução de que muitos ainda não se deram conta. E o conceito de TV pública é novo em muitos países. O Brasil é um dos primeiros países a se dar conta disso.

IMPRENSA – Você teve uma experiência frustrada na Rede Globo. Como foi isso?

Marcelo – Eu tive um piloto recusado pela Globo. Até fiz um retrospecto desse assunto uma vez em uma universidade. Com a história do piloto recusado, as pessoas sempre tendem a colocar a Globo como vilã. “A Globo proibiu!”. Em todos os veículos em que trabalhei, eu já tive este tipo de situação. A primeira entrevista bombástica do Varela com o Maluf, eu tive que conversar com a Abril Vídeo. Houve essa conversa, uma espécie de aprovação daquele material para ir ao ar. O que é interessante é ver as empresas que têm inteligência o suficiente para captar que aquilo é uma coisa valiosa e que o público vai ter inteligência para entender aquele tipo de ousadia e veicular. Acreditar que o público é inteligente.

IMPRENSA – Nisso tudo pesa muito o chamado mercado? Você pode acreditar que o público é inteligente. Mas e se a empresa não concordar com isso?

Marcelo – Esta é, sem dúvida, uma decisão empresarial, uma opção do veículo. E você que está dentro dele ou aceita este tipo de negociação ou cai fora. É por esse movito que eu não considero como censura o que aconteceu com a Globo, mas, sim, como uma opção da empresa, de não querer veicular aquele tipo de programa.

IMPRENSA – Existe uma espécie de “ideologia rasa”, vamos chamar assim, que classifica os veículos comerciais como vilões políticos. Você acha que os veículos agem de má fé?

Marcelo – Para responder a isso, é preciso dar um passo atrás e olhar um pouco mais de longe. Eu acho errado você começar uma frase dizendo “A Globo é assim... a Folha é assim... a Veja é assim...”. É impossível usar esse sujeito porque não existe “a Globo”, existe uma coisa complexa. É uma empresa, com vários diretores, vários departamentos.

IMPRENSA – A sua proposta era mostrar o que acontece por trás das câmeras, era mais ou menos isso?

Marcelo – O programa se chamava “Fora do Ar” e mostrava coisas que acontecem fora do ar, quando as câmeras de televisão não estão gravando. É um projeto pelo qual eu tenho o maior carinho, fiquei anos trabalhando nele, e me surpreendi muito como ficou famoso. Ele circula nas faculdades, tem gente até escrevendo tese sobre este programa na Unicamp, na PUC, no Paraná, no Rio Grande do Sul. O Gilberto Dimenstein é outro que botou esta fita debaixo do braço e dá palestras para empresários usando o “Fora do Ar” para falar da realidade. Isso mostra a força que tem produtos cuja proposta é tentar explicar para o espectador o que está por trás disso tudo que está acontecendo.


“Ratinho é um grande Nélson Rodrigues. Fala da periferia de um modo que nenhum programa de televisão conseguiu falar. Ele é um cara muito inteligente e um excelente comunicador”


IMPRENSA – Os meios de comunicação acham que mostrar isso pode ser ruim?

Marcelo – Pelo contrário. Os exemplos mais óbvios são os programas de entretenimento. O Vídeo Show é um exemplo disso. Aliás, eu fui apresentador do Vídeo Show na década de 80.

IMPRENSA – Por que alguns enlatados muito ruins da TV comercial continuam tendo audiências exorbitantes?

Marcelo – Vamos falar desse assunto que eu acho maravilhoso. O que é uma audiência exorbitante para você? Eu acho que a imprensa está usando o poder de falar sobre este assunto de uma forma muito equivocada. Fala-se muito em Ibope e fala-se muito pouco do que ele significa. A gente teve essa semana aqui em São Paulo um encontro com as TVs públicas do mundo todo. O pessoal da França, da Inglaterra, dos Estados Unidos ficou impressionado com os índices de audiência da TV Cultura. São altíssimos para uma TV pública. Talvez um dos maiores do mundo em termos proporcionais. A TV pública dos Estados Unidos tem menos audiência do que a do Brasil. E aqui no Brasil se repete, como um mantra, que a TV Cultura tem pouca audiência. O Vitrine dá um ou dois pontos de audiência. Isso só em São Paulo corresponde a 160 mil residências. Isso não é uma audiência baixa. Você tem 160 mil casas interessadas em um assunto que é muito novo para todo mundo. É mais do que todas as TVs por assinaturas juntas. É mais do que a CNN, é mais do que todos os canais de assinatura, que dão muita mídia. É mais do que a MTV, que tem pouca audiência, mas que dá muita mídia. Adriane Galisteu dá dois pontos, o mesmo do Vitrine. Se você falar com um desses caras que escrevem sobre programas de TV, ele vai achar que a audiência dela é... qual foi a palavra que você usou?

IMPRENSA – Exorbitante.
Marcelo – Exorbitante. E não é! É a mesma da TV pública, que tem um documentário sobre ecologia no domingo, que é o Repórter Eco, que dá audiência de três, quatro. Outra coisa apagada da memória das pessoas foram dois projetos de que participei na TV Cultura, que são o Rá-Tim- Bum e o Castelo Rá-Tim-Bum. O Rá-Tim-Bum é de 1990 e o conceito de TV pública no Brasil estava acabando de ser instalado pelo Roberto Muylaert. Nós criamos um projeto totalmente não-linear, esquisitão, ousado para criança, e em três meses no ar empatamos com a Xuxa. E continuamos empatando com a Xuxa, e o programa dela saiu da programação da Globo e o Rá-Tim-Bum é reprisado até hoje com índices de audiência altíssimos. Aí, eu te pergunto: o que é audiência exorbitante?

IMPRENSA – O anunciante não percebeu essa noção de audiência?

Marcelo – Por ignorância. Para mim, está evidente que a qualidade é o que mais vende na televisão. Ao contrário do que prega o pessoal da audiência exorbitante. Eles acham que, quanto mais baixaria um programa tem, mais audiência ele consegue. A minha tese é o contrário disso. Quanto mais sofisticado, quanto mais inteligente, quanto mais qualidade tem um programa, mais audiência ele consegue. Às vezes, não em termos numéricos, mas em termos de durabilidade e de retorno financeiro. Essa é uma fórmula comercial. Não é uma fórmula benevolente, de fazer caridade.

IMPRENSA – O Ratinho também reclamou, no Congresso da Abert, que os mídias ainda não descobriram o valor que ele tem.

Marcelo – Mas o Ratinho tem algumas qualidades. Agora, se você pegar programas meramente apelativos, eles desapareceram da televisão. O mais antigo de que eu me lembro é “O Povo na TV”, um projeto meramente apelativo no SBT, que deu uma audiência exorbitante. Aí, eu pergunto: se baixaria dá audiência, por que a líder de audiência, que é a TV Globo, investe no talento? É a emissora que mais investe em talento e em ousadia. Isso é uma justiça que deve se fazer à Globo.

IMPRENSA – Mesmo uma ousadia que dura nove semanas, por exemplo, como no “Sociedade Anônima”, do Cazé?

Marcelo – Mesmo pagando esse preço. É um bom exemplo. Eles contratam porque há uma certeza de que, com ousadia, você tem retorno de audiência e retorno comercial. Não é à toa que o núcleo Guel Arraes está na Globo, e não no SBT ou em qualquer outra emissora.

IMPRENSA – Você disse que o Ratinho tem qualidades?

Marcelo – Ratinho é um exemplo interessante. Ele é um cara muito inteligente e um excelente comunicador. Ou seja, o programa do Ratinho tem conteúdo, é sofisticado. Por isso, ele cai dentro da minha tese de que sofisticação dá audiência.

IMPRENSA – Você considera o Ratinho sofisticado?

Marcelo – Sim. Eu acho que ele consegue, melhor do que ninguém no Brasil, traduzir o drama popular. Eu tenho absoluta certeza disso. A qualidade do Ratinho foi perceber que, se ficasse na baixaria, a vida dele ia ser curta como foi a vida de outros que o antecederam. Ele transformou o programa dele em um grande circo eletrônico que expressa o que você ouve na janela dos conjuntos habitacionais aqui em São Paulo, as brigas de vizinha. Ratinho é um grande Nélson Rodrigues. Ele fala da periferia de um jeito que nenhum programa de televisão conseguiu falar.

IMPRENSA – E ele é capaz de tomar posições políticas ao vivo, no ar.

Marcelo – Isso significa credibilidade. Fala mal de todo o espectro político brasileiro, da esquerda à direita. Ele entrevista o Lula, o ACM, todo mundo, do mesmo jeito. É aí que entra a credibilidade. Estamos num mundo tão maluco que, quando a gente identifica credibilidade, aquela pessoa vira alguém importante na vida daquele coitado que está do outro lado ouvindo esse barulhão todo e não sabe em quem acreditar. Está todo mundo tentando vender tudo, barbatana de tubarão, a salvação do mundo, a reencarnação. Em quem eu acredito? Em que advogado eu devo confiar? Quando alguém aparece e valoriza a figura do advogado, valoriza a ciência através do exame do DNA, valoriza o direito de reivindicação. Ele mostra pessoas que conseguiram na justiça uma grana do seu patrão, ou do seu ex-marido. E, para terminar minha ode ao Ratinho, eu queria acrescentar uma outra qualidade nele que é o non sense, o humor. A realidade brasileira tem que ser entendida pelo non sense. O que eu vejo na imprensa em geral é que todo mundo tem o monopólio da razão. Monopólio do bom senso. A maioria dos colunistas importantes de jornal tem monopólio do bom senso.

Fernando Henrique, a esquerda e a Imprensa Brasileira

"Eu considero o nosso presidente não o melhor que o Brasil já teve, mas o melhor do mundo. São poucos os países que têm a sorte de ter um cara como o FHC no poder."

IMPRENSA – O que você acha do Casseta & Planeta?

Marcelo – É uma ilha de non sense no meio de gente que se leva a sério. Por isso, o Congresso se importa com o Casseta, e não com os colunistas de jornal. Os nossos jornais andam muito caretas.

IMPRENSA – De modo geral, como você avalia o humor na televisão brasileira?

Marcelo – O humor é o produto mais caro que existe na televisão. É o que exige mais inteligência, mais talento, mais independência. Não é fácil você juntar isso tudo. Eu acho que temos na TV brasileira um excelente nível de humor. Mais uma vez, é aquela velha história: assim como os argentinos têm complexo de superioridade, nós temos o de inferioridade. A gente sempre se acha uma merda, acha que o nosso país é um país de merda, que o nosso presidente é uma merda e não está fazendo nada. Na Argentina, o presidente vende arma, é traficante, casa com uma chilena que bota a bandeira da Argentina no peito e todo mundo dá valor. Aqui, a gente tem um cara que é honesto, ético, bacana, que é o Fernando Henrique, e que só leva cacetada. Parece que ele é o maior vilão da história do Brasil e todo mundo trata ele como se fosse o Sarney. E o Sarney agora virou um ídolo dos intelectuais.

IMPRENSA – Você não está brincando, não?

Marcelo – Eu considero o nosso presidente não o melhor que o Brasil já teve, mas o melhor do mundo. São poucos os países que têm a sorte de ter um cara como o FHC no poder.

IMPRENSA – Politicamente, você se considera mais de esquerda ou de direita?

Marcelo – Eu nunca participei de campanha de nenhum partido. Fui convidado por todos os partidos, já recebi propostas “exorbitantes” para fazer campanha política. Isso é uma das coisas de que tenho orgulho. Eu não cedi a essa tentação, não me sinto à vontade. O que não me impede de ter as minhas posições políticas. Atualmente os meus amigos me consideram um homem de direita porque eu tenho profundo respeito pelo governo que está aí.

IMPRENSA – E o que você acha da esquerda brasileira?

Marcelo – Eu acho a esquerda brasileira muito ignorante. Essa que é a minha bronca da esquerda. É lógico que eu tenho extrema simpatia por algumas figuras da esquerda, mas o que mais me irrita é que, justamente por serem as pessoas com as quais eu tenho maior afinidade ética, eles desperdiçam a oportunidade de elevar o nível da conversa no país. Depois de tanta luta por democracia, eles usam os mesmos recursos da direita mais ultrapassada do país. Eles jogam muito baixo. O diálogo é muito precário. Não se pode ter hoje esse jogo de bem e mal. “O Fernando Henrique é um ladrão, é como o Collor”, não pode! Tem muita gente praticando um humorismo amador...

IMPRENSA – A imprensa continua sendo denuncista demais?

Marcelo – Totalmente. A imprensa continua agindo como se a gente estivesse na época da ditadura, do Sarney, dos militares. A imprensa só sabe falar do que acontece em Brasília. A pauta ainda é feita por Brasília. Ninguém fala do que está acontecendo no resto do Brasil. Estão acontecendo coisas fantásticas em muitas das nossas cidades. E não precisa ir muito longe, estão acontecendo coisas fantásticas aqui na esquina, aqui no centro de São Paulo. Em lugares onde antigamente tinha um monte de pornoshop, agora tem escolas de computação para classe D. Será que não está acontecendo nada neste lugar? Por preguiça, a imprensa age de maneira repetitiva, com essas picuinhas...


“A Folha é o jornal mais perdido dentro da nova realidade do mundo. É paradoxal, porque é também o jornal mais moderno. Ela perde uma chance histórica de fazer uma nova revolução”


IMPRENSA – Que jornais você lê diariamente?

Marcelo – Eu leio todos, leio bastante. Eu sou um viciado. Assino a Folha de S.Paulo, até por uma questão masoquista. A Folha é o jornal que está mais perdido dentro da nova realidade do mundo, e é paradoxal porque é o jornal mais moderno. Existe uma preguiça de tentar entender o mundo que está em evolução. Mas é ainda o jornal que mais me instiga, é onde vejo que tem pluralidade. Eu só acho que a Folha perde uma chance histórica de fazer uma nova revolução, como já fizeram antes.

IMPRENSA – Como você vê a figura do Jô Soares?

Marcelo – É um privilégio ter o Jô Soares. Eu me orgulho de ser brasileiro por causa do Jô Soares.

IMPRENSA – Ele não caiu muito indo para a Globo?

Marcelo – De maneira alguma. O Jô é um artista completo. O tipo de programa que ele faz é uma coisa de gênio. São poucas pessoas no mundo que fazem isso. Essa fórmula é difícil. Eu sou macaco de auditório do David Letterman há muitos anos. Quando morei em Nova York, eu me lembro do dia em que o Marcelo Mastroiani foi ao programa do David Letterman. A entrevista estava maravilhosa, e eles conversando sobre nada. Conversando sobre o sotaque do Marcelo Mastroiani, que não sabia falar inglês. No final da entrevista, nos elogios finais do David para o Mastroiani, o Mastroiani fez uma pausa, ficou olhando para ele e disse: “Todo mundo que está vendo a gente acha que eu é que sou um grande ator, mas fazer isso que você está fazendo são poucos atores que conseguem fazer”. É isso. Para fazer o que o Jô faz, você não tem que ser somente um ator de televisão. Você tem que ser um comediante, que é a forma de ator mais completa que existe. Só um comediante consegue fazer as tragédias. Os atores que Shakespeare usava para fazer os personagens principais das grandes tragédias eram comediantes. Para fazer papéis trágicos. É o caso do nosso José Eugênio Soares.

IMPRENSA – Qual a avaliação que você faz dos segundos cadernos dos jornais?

Marcelo – Eu acredito que a situação já esteve muito pior. Eles estão aprendendo a falar para o público brasileiro. Isso está começando a acontecer, mas ainda deixa a desejar. E por uma questão de que pouca gente fala. As empresas jornalísticas pagam mal às pessoas que trabalham nos jornais. Todo mundo ganha mal. Como você quer que um crítico de teatro, que não tem chance de viajar, faça a crítica de uma peça do Gerald Thomas? Ele não sabe que aquilo havia sido feito antes pelo Tadeus Kantor, que aquilo existe há décadas e é apenas uma derivação. Ou que o cara não conheça a Ópera de Munique, não conheça Berlim, ou o Metropolitan de Nova York. Aí, você obriga o cara a escrever sobre ópera. A imprensa tem uma pose que não corresponde à capacidade de quem está ali escrevendo. Se escrevesse dentro daquilo que conhece, seria maravilhoso. É aí que ela se comunica. E não no “Eu ouvi dizer”, “Eu li na The Face”. Você vê que o cara é um leitor de revistas que estão na redação, porque, com o salário dele, ele não consegue comprar esse tipo de revista. Se você quer que ele fale sobre coisas sofisticadas, ele tem que comprar DVD, tem que viajar. O cara é obrigado a fechar o jornal domingo, falar de teatro e cobrir o vazamento de petróleo em Campos.

IMPRENSA – Você não sentiu um certo desconforto em ter participado, como um convidado especial, do último congresso da Abert?

Marcelo – Nenhum desconforto. Eu não tenho desconforto com nenhum dono de veículo. Eu me dou muito bem com os donos, eu não me dou muito bem é com os subordinados dos donos. Lá na Abert, sou muito bem tratado. Sou convidado, inclusive, para falar e botar meu ponto de vista que eu defino como espírito-de-porco no meio de pessoas tão ilustres. Eles me colocam na mesa junto ao Ministro da Cultura, com o vice-presidente das Organizações Globo, com o secretário da Marta. Eu me sinto honrado, mas sei que a intenção é ter um olhar de espírito-de-porco sobre a realidade, que é o meu papel histórico e genético. Eu desempenho esse papel.

IMPRENSA – É possível imaginar, então, que uma virtude sua é a condescendência...

Marcelo – Não, não. Eu sou um cara da divisa de São Paulo com Minas, sou um paulista amineirado. Não sou um cara de conflito, de ruptura. Eu não entro nas empresas para criar caso. Gosto de fazer televisão. Não entro num lugar para brigar com as pessoas, eu entro para fazer projetos que me interessam e que interessam àquele veículo. Eu trabalhei em todas as emissoras do Brasil, com exceção da TV Bandeirantes, com quem já até conversei e fui convidado. Eu comecei na TV Gazeta, fui para a Abril Vídeo, depois Record, SBT e depois MTV, Globo, no programa da Regina Casé e no começo do Casseta, e agora na Cultura. Fiz alguns projetos também que não são muito famosos, como, por exemplo, o Telecurso 2000. Fiquei três anos da minha vida fazendo o projeto de educação de primeiro e segundo graus. Eu fui o coordenador de criação de todo esse projeto.

Marcelo Tas, ele próprio e Ernesto Varella

"Muita gente achava que meu nome era Ernesto Varela. Fico muito feliz com isso, porque demonstra a credibilidade de um jornalista falso como o Varela. Ele está supervivo."

IMPRENSA – Tudo isso, e mais o curso de engenharia?

Marcelo – Eu me formei na Escola Politécnica da USP e esta é uma história engraçada. Na Politécnica, existia um jornal que era o mais lido do campus, o Ceviu, trocadilho com civil. Era um Pasquim da USP. No primeiro ano de engenharia, eu fiquei encantado com aquilo. Um jornal ma-ravilhoso em que você podia escrever o que quisesse, com humor escrachado. No segundo ano, me tornei colaborador do jornal e, no terceiro, já era editor do jornal. Eu praticamente ia à Poli e minha profissão era ser editor do jornal. E me encantei com a comunicação e comecei a fazer à noite a ECA, Rádio e TV. Foi assim que consegui me formar em engenharia, pelo fato de eu ter me tornado o editor do jornal, um jornal anarquista, mas bancado pelo Grêmio Politécnico.

IMPRENSA – O que levou você, com uma carreira construída, a aceitar o desafio de fazer os programas para o Telecurso, da Fundação Roberto Marinho?

Marcelo – Eu sou fascinado por comunicação, em todas as suas formas. O desafio do Telecurso 2000 era tão gigantesco que nós tínhamos queproduzir 140 programas, de 15 minutos de duração, em um prazo de um ano. Isso é a produção de uma telenovela. Se você juntar os 15 minutos em 45, vai dar um capítulo por dia. E não é novela. Estamos falando de matemática, português, geografia, química, para as classes C e D. É uma coisa extremamente fascinante. Eles queriam algo ousado. E o Barreto, diretor do canal Futura e da Fundação Roberto Marinho, me convidou e me deu carta branca para criar junto com ele uma nova cara para o Telecurso 2000. A gente usou cenas de novela, de noticiário, usou as figuras da televisão, o apresentador de telejornal, a dona de casa, foi um trabalho de criação. Eu cheguei a coordenar 14 roteiristas talentosos. E vários são roteiristas, hoje, de sucesso no cinema e na televisão. A gente criou um projeto do qual eu tenho o maior orgulho de ter participado na Fundação Roberto Marinho.

IMPRENSA – E o Ernesto Varela?

Marcelo – Muita gente achava que meu nome era Ernesto Varela. Fico muito feliz com isso, porque demonstra a credibilidade de um jornalista falso como o Varela. Ele está supervivo. Estou trabalhando um projeto do Ernesto Varela que vai sair em DVD no segundo semestre. Há dois anos, fiz um teste e fui na catacumba buscar o Varela. Fiz um programa na Rádio 89, que é só a molecada que ouve, eles nem tinham nascido quando o Varela existia. Mas o programa teve uma enorme aceitação e eu comecei a receber muito e-mail porque o programa ficava disponível no site da rádio. E muita gente começou a ficar interessada no Varela. Foi quando eu constatei que o personagem pode ser adequado para o momento que vivemos. Eu estou muito estimulado a tirar ele do armário.

IMPRENSA – Aquela pergunta que você fez para o Maluf, “’É verdade que o senhor é corrupto?”, foi planejada ou saiu na hora?

Marcelo – O Varela é uma mistura de improviso com dever de casa. Isso tem a ver com a minha formação de engenheiro, eu sou CDF. O Varela é muito roterizado, mas é sempre uma mistura das duas coisas. Eu vou preparado, mas fico atento para o que acontece de inesperado. Tive a sorte de usar das duas coisas, de perguntas preparadas e de perguntas psicografadas (risos) por algum espírito-de-porco naquela hora. O Maluf é de uma extrema cara-de-pau. Ele me trata muito bem, o que eu acho uma virtude dele. Falando sério, eu acho que o Maluf é um dos poucos políticos que é transparente. Ele não faz a menor questão de esconder. Ele tem essas posições de querer asfaltar a cidade, de querer destruir totalmente qualquer possibilidade de vida saudável na cidade. Ele fala isso e os motoristas de táxi têm orgasmos! (Imitando o Maluf) “Eu vou azulejar a Marginal! Vou encanar... O fura-fila, o trem que vai levitar sobre cidade.” Ele é um grande cara-de-pau sincero. Antes, todos os políticos fossem assim.