Marcelo
Tas, o multimidiático
Engenheiro,
jornalista multimídia, pai do irreverente Ernesto Varela,
apresentador do Vitrine, roteirista do Rá-Tim-Bum e
do Telecurso 2000, etc, etc, etc...
Entrevista
: Tão Gomes Pinto, Mariana Menezes,
Pedro Paulo Venceslau e Rodrigo Manzano
Fotos : Vargas
As novas tecnologias de informação,
e o Jornalismo
"A
humanidade teve acesso a uma incrível variedade de
fontes, de informação, de velocidade de acesso
e de democratização da informação.
A gente nunca viveu isso. O trabalho do jornalista ficou muito
mais interessante, muito mais rico."
AS
NOVAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO, E O JORNALISMO
IMPRENSA
– Podíamos começar com um fato que você
viveu, a notícia do plágio do discurso do ACM,
que foi veiculada no Vitrine, e que era uma “informação
sem dono”. De repente, a Internet permitiu isso. A informação
saiu no blog Catarro Verde, depois no Palíndromo e,
depois do seu programa, virou chamada de capa dos jornais.
Marcelo
Tas – Esse fato mostra o quanto a gente vive
um momento caótico e rico ao mesmo tempo. Essa informação
que o ACM plagiou, que até no seu último discurso
ele cometeu uma tremenda barbeiragem, eu encontrei numa lista
de discussão que freqüento. Lista de discussão
é uma coisa muito nova para mim e, acredito, para a
maioria das pessoas. Numa lista, você encontra a sua
turma virtual, assina a lista e fica o tempo inteiro conversando
sobre um assunto que te interessa. No início, eu assinei
um monte delas, mas aí você enlouquece, porque
não dá para ficar falando sobre tudo o tempo
todo. Atualmente, eu assino umas quatro. Uma delas é
a Palíndromo, baseada em Recife, que discute justamente
a famigerada cybercultura. E, numa discussão, surge
então a informação. É muito curioso
que ninguém tenha dado muita importância para
o fato. Aí, eu pensei “Isso é uma informação
incrível!”, e fui desatando os nós eletrônicos
da história. Fui primeiro atrás do cara que
botou isso no Palíndromo, que é o Charles Pilger,
e depois fui atrás do Catarro Verde, do Sérgio
Faria. Para nosso espanto, essa informação estava
no site do Senado. Não só a informação-texto,
como também o áudio original do Afonso Arinos
estava no site do Senado. O Senado lançou livros de
discursos históricos acompanhados de CDs. A pessoa
que faz a abertura do livro é o senador Antônio
Carlos Magalhães. Porra, eu acho que realmente estamos
na Era de Aquário. Aí, nós preparamos
uma matéria especial para o programa e divulgamos isso.
É o que eu chamo de fricção das mídias.
A gente nunca viveu algo assim. O que vemos hoje é
uma fricção, em várias camadas, desde
os leitores, e essa fricção chega num nível
em que o Sérgio Faria, que tem um weblog, que é
um diário na Internet, consegue colocar uma notícia
que, 24 horas depois, vai sair nos quatro principais jornais
do país.
IMPRENSA
– É a tal da tecnologia a serviço da informação.
Marcelo
– A transformação é tão
grande. Você vê uma figura pública como
o Antônio Carlos Magalhães se despedir da vida
pública de uma maneira tão patética.
Tem um viés que eu fiquei observando nas coisas que
aconteceram com ele. Todos os elementos que desencadearam
a renúncia dele estão relacionados com tecnologia.
É a ignorância aliada ao autoritarismo. As pessoas
acham que não vão ser pegas e que “ninguém
vai ouvir, ninguém vai falar, eu sou dono deste pedaço
de fazenda”. Se você observar, a primeira matéria
da IstoÉ só foi possível porque havia
um microgravador em um bolso de paletó. A outra falha
trágica é que o computador para eles é
ainda um objeto bastante estranho. O cara não sabe
que qualquer manipulação deixa um rastro eletrônico
que um técnico pode detectar. E o desenlace é
que o ACM não foi capaz de imaginar que um internauta
seria capaz de descobrir um plágio.
IMPRENSA
– Você naturalmente sabe que ainda hoje existe
jornalista que se recusa a usar computador.
Marcelo
– Eu me lembro de uma discussão nas redações,
se o cara usava Olivetti ou computador. “Você
vai usar sua máquina de escrever ou o computador?”
(engrossando a voz). “Não, vou ficar com a minha
máquina”. Durante muito tempo, os jornalistas
viveram esse falso dilema shakespereano de entrar ou não
entrar no mundo do computador. E a discussão não
é essa, a discussão é que a gente vive
uma mudança radical, histórica. A humanidade
teve acesso a uma incrível variedade de fontes, de
informação, de velocidade de acesso e de democratização
da informação. A gente nunca viveu isso. O trabalho
do jornalista ficou muito mais interessante, muito mais rico.
Ele tem que se preparar muito mais, tem que se tornar um contador
de histórias muito mais inteligente, em vez de simplesmente
ficar ali restrito à verdade, à realidade e,
portanto, respondendo ao que foi perguntado. A checagem de
fontes é muito mais complexa. Você não
pode sair correndo atrás de qualquer barulho porque
o barulho agora é permanente. O ruído é
permanente.
“O jornalista, no meio dessa geleca, tem
que se preparar, tem que ser um contador de histórias
e precisa ter credibilidade para contá-las, em vez
de ficar simplesmente restrito à realidade”
IMPRENSA – Você acha que o furo vai acabar?
Marcelo
– Eu tive até uma certa dificuldade para explicar,
no Vitrine, de onde veio essa informação. Ela
é muito fluida. Estamos falando de uma geleca eletrônica
que você cutucou de um lado, mas não é
possível saber exatamente de onde saiu. Na minha opinião,
atualmente não basta você ter o monopólio
da informação, ter a primazia da informação.
É preciso ter credibilidade e talento para contar esta
notícia. Tem uma forma de contar a notícia,
e você depende de um histórico do veículo
em que trabalha e da sua credibilidade pessoal para poder
imprimir no cara que está do outro lado o impacto daquela
notícia. A credibilidade começa a valer muito
nessa nova era. E também o talento de contador de histórias.
IMPRENSA
– Você acredita em um cyberjornalista do futuro,
que encarnaria a informação, apertaria determinados
botões e seria praticamente auto-suficiente?
Marcelo
– Mas eu acho que os grandes jornalistas sempre foram
cyberjornalistas. Você pega o Paulo Francis. Ele era
uma cyberjornalista, auto-suficiente. Em vez de clicar, ia
nos livros, ia ao telefone. Se você pegar um grande
jornalista, ele é esta figura completa, é um
editor, é um cara que dialoga com a empresa onde está.
Para ficar nos atuais, veja o caso do Elio Gaspari. Ele tem
um site dentro do jornal, um jornal dentro do jornal, chamado
Elio Gaspari.
IMPRENSA
– A tecnologia, afinal, facilitou ou complicou o trabalho
do jornalista?
Marcelo
– As duas coisas. A tecnologia tornou o trabalho mais
complexo, o jornalista vai ter que trabalhar mais. Aliás,
ele já está trabalhando mais e ganhando a mesma
coisa de antes... A facilidade gerou uma hipercompetição.
Para se sobressair, você tem que ter mais talento, tem
que ralar mais, tem que ser um contador de histórias.
Por que eu vou ler o jornal, ouvir o programa de rádio
se eu posso ter informações de graça
caindo na minha cara o dia inteiro? Todo mundo começa
a ficar interligado. É uma grande suruba cibernética
(risos).
IMPRENSA
– Este cenário pode ser considerado como o fim
do jornalismo enquanto instituição poderosa,
que reinou durante séculos?
Marcelo
– Eu não tenho essa visão. Pelo contrário.
Acho que as empresas estão ficando cada vez mais fortes.
As grandes empresas, donas dos veículos pré-cibernéticos,
são as mesmas que estão entrando no mundo digital.
IMPRENSA
– Então, por trás de toda a produção
de conteúdo vai ter sempre o capital?
Marcelo
– Com certeza. É aquela história da geleca.
A geleca começa a andar para cá, o capital sabe
disso e começa a se preparar. Agora, o que é
interessante é que, como o movimento é muito
radical, isso abre possibilidades para o talento individual
aparecer. É uma coisa que aconteceu, em uma outra escala,
quando eu comecei a fazer televisão. No início
dos anos 80, as primeiras câmeras portáteis de
vídeo foram para as mãos de quem não
estava dentro das emissoras. A gente começou a fazer
uma espécie de camada paralela dentro da televisão
com o Olhar Eletrônico e surgiu uma série de
novas formas de fazer televisão naquela época.
Eu acho que toda mudança tecnológica propicia
esse surgimento de talento. Se você voltar mais atrás
ainda, na época em que o cinema surgiu, apareceram
uma série de novos talentos, Chaplin, Buster Keaton,
um monte de gente. A mudança tecnológica obriga
uma nova gramática na forma de contar uma história.
Na verdade, há sempre uma história sendo contada,
só muda o suporte de como você conta esta história.
O
"Vitrine", o IBOPE e elogios à Ratinho
"O
programa do Ratinho tem conteúdo, é sofisticado,
é um grande circo eletrônico que expressa o que
você ouve na janela dos conjuntos habitacionais aqui
em São Paulo. Ratinho é um grande Nélson
Rodrigues."
IMPRENSA
– Já que você falou em televisão
e o seu patrão é o Padre Anchieta, o que é
fazer TV pública?
Marcelo
– Eu diria que é um privilégio. É
um presente. Primeiro, porque o conceito de TV pública
é muito recente no Brasil, e até hoje as pessoas
ainda não entenderam. A gente não consegue ter
uma memória em perspectiva para lembrar que há
15 anos o Orestes Quércia mandava uma equipe da TV
Cultura cobrir ao vivo a inauguração de um viaduto
e ela ia. Hoje, você vê o que representa a TV
Cultura, os programas que já foram criados, os prêmios,
a audiência altíssima, que muita gente ainda
considera baixa. É uma revolução de que
muitos ainda não se deram conta. E o conceito de TV
pública é novo em muitos países. O Brasil
é um dos primeiros países a se dar conta disso.
IMPRENSA
– Você teve uma experiência frustrada na
Rede Globo. Como foi isso?
Marcelo
– Eu tive um piloto recusado pela Globo. Até
fiz um retrospecto desse assunto uma vez em uma universidade.
Com a história do piloto recusado, as pessoas sempre
tendem a colocar a Globo como vilã. “A Globo
proibiu!”. Em todos os veículos em que trabalhei,
eu já tive este tipo de situação. A primeira
entrevista bombástica do Varela com o Maluf, eu tive
que conversar com a Abril Vídeo. Houve essa conversa,
uma espécie de aprovação daquele material
para ir ao ar. O que é interessante é ver as
empresas que têm inteligência o suficiente para
captar que aquilo é uma coisa valiosa e que o público
vai ter inteligência para entender aquele tipo de ousadia
e veicular. Acreditar que o público é inteligente.
IMPRENSA
– Nisso tudo pesa muito o chamado mercado? Você
pode acreditar que o público é inteligente.
Mas e se a empresa não concordar com isso?
Marcelo
– Esta é, sem dúvida, uma decisão
empresarial, uma opção do veículo. E
você que está dentro dele ou aceita este tipo
de negociação ou cai fora. É por esse
movito que eu não considero como censura o que aconteceu
com a Globo, mas, sim, como uma opção da empresa,
de não querer veicular aquele tipo de programa.
IMPRENSA – Existe uma espécie de “ideologia
rasa”, vamos chamar assim, que classifica os veículos
comerciais como vilões políticos. Você
acha que os veículos agem de má fé?
Marcelo
– Para responder a isso, é preciso dar um passo
atrás e olhar um pouco mais de longe. Eu acho errado
você começar uma frase dizendo “A Globo
é assim... a Folha é assim... a Veja é
assim...”. É impossível usar esse sujeito
porque não existe “a Globo”, existe uma
coisa complexa. É uma empresa, com vários diretores,
vários departamentos.
IMPRENSA
– A sua proposta era mostrar o que acontece por trás
das câmeras, era mais ou menos isso?
Marcelo
– O programa se chamava “Fora do Ar” e mostrava
coisas que acontecem fora do ar, quando as câmeras de
televisão não estão gravando. É
um projeto pelo qual eu tenho o maior carinho, fiquei anos
trabalhando nele, e me surpreendi muito como ficou famoso.
Ele circula nas faculdades, tem gente até escrevendo
tese sobre este programa na Unicamp, na PUC, no Paraná,
no Rio Grande do Sul. O Gilberto Dimenstein é outro
que botou esta fita debaixo do braço e dá palestras
para empresários usando o “Fora do Ar”
para falar da realidade. Isso mostra a força que tem
produtos cuja proposta é tentar explicar para o espectador
o que está por trás disso tudo que está
acontecendo.
“Ratinho é um grande Nélson
Rodrigues. Fala da periferia de um modo que nenhum programa
de televisão conseguiu falar. Ele é um cara
muito inteligente e um excelente comunicador”
IMPRENSA – Os meios de comunicação
acham que mostrar isso pode ser ruim?
Marcelo
– Pelo contrário. Os exemplos mais óbvios
são os programas de entretenimento. O Vídeo
Show é um exemplo disso. Aliás, eu fui apresentador
do Vídeo Show na década de 80.
IMPRENSA
– Por que alguns enlatados muito ruins da TV comercial
continuam tendo audiências exorbitantes?
Marcelo
– Vamos falar desse assunto que eu acho maravilhoso.
O que é uma audiência exorbitante para você?
Eu acho que a imprensa está usando o poder de falar
sobre este assunto de uma forma muito equivocada. Fala-se
muito em Ibope e fala-se muito pouco do que ele significa.
A gente teve essa semana aqui em São Paulo um encontro
com as TVs públicas do mundo todo. O pessoal da França,
da Inglaterra, dos Estados Unidos ficou impressionado com
os índices de audiência da TV Cultura. São
altíssimos para uma TV pública. Talvez um dos
maiores do mundo em termos proporcionais. A TV pública
dos Estados Unidos tem menos audiência do que a do Brasil.
E aqui no Brasil se repete, como um mantra, que a TV Cultura
tem pouca audiência. O Vitrine dá um ou dois
pontos de audiência. Isso só em São Paulo
corresponde a 160 mil residências. Isso não é
uma audiência baixa. Você tem 160 mil casas interessadas
em um assunto que é muito novo para todo mundo. É
mais do que todas as TVs por assinaturas juntas. É
mais do que a CNN, é mais do que todos os canais de
assinatura, que dão muita mídia. É mais
do que a MTV, que tem pouca audiência, mas que dá
muita mídia. Adriane Galisteu dá dois pontos,
o mesmo do Vitrine. Se você falar com um desses caras
que escrevem sobre programas de TV, ele vai achar que a audiência
dela é... qual foi a palavra que você usou?
IMPRENSA
– Exorbitante.
Marcelo – Exorbitante. E não é! É
a mesma da TV pública, que tem um documentário
sobre ecologia no domingo, que é o Repórter
Eco, que dá audiência de três, quatro.
Outra coisa apagada da memória das pessoas foram dois
projetos de que participei na TV Cultura, que são o
Rá-Tim- Bum e o Castelo Rá-Tim-Bum. O Rá-Tim-Bum
é de 1990 e o conceito de TV pública no Brasil
estava acabando de ser instalado pelo Roberto Muylaert. Nós
criamos um projeto totalmente não-linear, esquisitão,
ousado para criança, e em três meses no ar empatamos
com a Xuxa. E continuamos empatando com a Xuxa, e o programa
dela saiu da programação da Globo e o Rá-Tim-Bum
é reprisado até hoje com índices de audiência
altíssimos. Aí, eu te pergunto: o que é
audiência exorbitante?
IMPRENSA
– O anunciante não percebeu essa noção
de audiência?
Marcelo
– Por ignorância. Para mim, está evidente
que a qualidade é o que mais vende na televisão.
Ao contrário do que prega o pessoal da audiência
exorbitante. Eles acham que, quanto mais baixaria um programa
tem, mais audiência ele consegue. A minha tese é
o contrário disso. Quanto mais sofisticado, quanto
mais inteligente, quanto mais qualidade tem um programa, mais
audiência ele consegue. Às vezes, não
em termos numéricos, mas em termos de durabilidade
e de retorno financeiro. Essa é uma fórmula
comercial. Não é uma fórmula benevolente,
de fazer caridade.
IMPRENSA
– O Ratinho também reclamou, no Congresso da
Abert, que os mídias ainda não descobriram o
valor que ele tem.
Marcelo
– Mas o Ratinho tem algumas qualidades. Agora, se você
pegar programas meramente apelativos, eles desapareceram da
televisão. O mais antigo de que eu me lembro é
“O Povo na TV”, um projeto meramente apelativo
no SBT, que deu uma audiência exorbitante. Aí,
eu pergunto: se baixaria dá audiência, por que
a líder de audiência, que é a TV Globo,
investe no talento? É a emissora que mais investe em
talento e em ousadia. Isso é uma justiça que
deve se fazer à Globo.
IMPRENSA
– Mesmo uma ousadia que dura nove semanas, por exemplo,
como no “Sociedade Anônima”, do Cazé?
Marcelo
– Mesmo pagando esse preço. É um bom exemplo.
Eles contratam porque há uma certeza de que, com ousadia,
você tem retorno de audiência e retorno comercial.
Não é à toa que o núcleo Guel
Arraes está na Globo, e não no SBT ou em qualquer
outra emissora.
IMPRENSA
– Você disse que o Ratinho tem qualidades?
Marcelo
– Ratinho é um exemplo interessante. Ele é
um cara muito inteligente e um excelente comunicador. Ou seja,
o programa do Ratinho tem conteúdo, é sofisticado.
Por isso, ele cai dentro da minha tese de que sofisticação
dá audiência.
IMPRENSA – Você considera o Ratinho sofisticado?
Marcelo
– Sim. Eu acho que ele consegue, melhor do que ninguém
no Brasil, traduzir o drama popular. Eu tenho absoluta certeza
disso. A qualidade do Ratinho foi perceber que, se ficasse
na baixaria, a vida dele ia ser curta como foi a vida de outros
que o antecederam. Ele transformou o programa dele em um grande
circo eletrônico que expressa o que você ouve
na janela dos conjuntos habitacionais aqui em São Paulo,
as brigas de vizinha. Ratinho é um grande Nélson
Rodrigues. Ele fala da periferia de um jeito que nenhum programa
de televisão conseguiu falar.
IMPRENSA
– E ele é capaz de tomar posições
políticas ao vivo, no ar.
Marcelo
– Isso significa credibilidade. Fala mal de todo o espectro
político brasileiro, da esquerda à direita.
Ele entrevista o Lula, o ACM, todo mundo, do mesmo jeito.
É aí que entra a credibilidade. Estamos num
mundo tão maluco que, quando a gente identifica credibilidade,
aquela pessoa vira alguém importante na vida daquele
coitado que está do outro lado ouvindo esse barulhão
todo e não sabe em quem acreditar. Está todo
mundo tentando vender tudo, barbatana de tubarão, a
salvação do mundo, a reencarnação.
Em quem eu acredito? Em que advogado eu devo confiar? Quando
alguém aparece e valoriza a figura do advogado, valoriza
a ciência através do exame do DNA, valoriza o
direito de reivindicação. Ele mostra pessoas
que conseguiram na justiça uma grana do seu patrão,
ou do seu ex-marido. E, para terminar minha ode ao Ratinho,
eu queria acrescentar uma outra qualidade nele que é
o non sense, o humor. A realidade brasileira tem que ser entendida
pelo non sense. O que eu vejo na imprensa em geral é
que todo mundo tem o monopólio da razão. Monopólio
do bom senso. A maioria dos colunistas importantes de jornal
tem monopólio do bom senso.
Fernando
Henrique, a esquerda e a Imprensa Brasileira
"Eu
considero o nosso presidente não o melhor que o Brasil
já teve, mas o melhor do mundo. São poucos os
países que têm a sorte de ter um cara como o
FHC no poder."
IMPRENSA
– O que você acha do Casseta & Planeta?
Marcelo
– É uma ilha de non sense no meio de gente que
se leva a sério. Por isso, o Congresso se importa com
o Casseta, e não com os colunistas de jornal. Os nossos
jornais andam muito caretas.
IMPRENSA
– De modo geral, como você avalia o humor na televisão
brasileira?
Marcelo
– O humor é o produto mais caro que existe na
televisão. É o que exige mais inteligência,
mais talento, mais independência. Não é
fácil você juntar isso tudo. Eu acho que temos
na TV brasileira um excelente nível de humor. Mais
uma vez, é aquela velha história: assim como
os argentinos têm complexo de superioridade, nós
temos o de inferioridade. A gente sempre se acha uma merda,
acha que o nosso país é um país de merda,
que o nosso presidente é uma merda e não está
fazendo nada. Na Argentina, o presidente vende arma, é
traficante, casa com uma chilena que bota a bandeira da Argentina
no peito e todo mundo dá valor. Aqui, a gente tem um
cara que é honesto, ético, bacana, que é
o Fernando Henrique, e que só leva cacetada. Parece
que ele é o maior vilão da história do
Brasil e todo mundo trata ele como se fosse o Sarney. E o
Sarney agora virou um ídolo dos intelectuais.
IMPRENSA
– Você não está brincando, não?
Marcelo
– Eu considero o nosso presidente não o melhor
que o Brasil já teve, mas o melhor do mundo. São
poucos os países que têm a sorte de ter um cara
como o FHC no poder.
IMPRENSA
– Politicamente, você se considera mais de esquerda
ou de direita?
Marcelo
– Eu nunca participei de campanha de nenhum partido.
Fui convidado por todos os partidos, já recebi propostas
“exorbitantes” para fazer campanha política.
Isso é uma das coisas de que tenho orgulho. Eu não
cedi a essa tentação, não me sinto à
vontade. O que não me impede de ter as minhas posições
políticas. Atualmente os meus amigos me consideram
um homem de direita porque eu tenho profundo respeito pelo
governo que está aí.
IMPRENSA
– E o que você acha da esquerda brasileira?
Marcelo
– Eu acho a esquerda brasileira muito ignorante. Essa
que é a minha bronca da esquerda. É lógico
que eu tenho extrema simpatia por algumas figuras da esquerda,
mas o que mais me irrita é que, justamente por serem
as pessoas com as quais eu tenho maior afinidade ética,
eles desperdiçam a oportunidade de elevar o nível
da conversa no país. Depois de tanta luta por democracia,
eles usam os mesmos recursos da direita mais ultrapassada
do país. Eles jogam muito baixo. O diálogo é
muito precário. Não se pode ter hoje esse jogo
de bem e mal. “O Fernando Henrique é um ladrão,
é como o Collor”, não pode! Tem muita
gente praticando um humorismo amador...
IMPRENSA
– A imprensa continua sendo denuncista demais?
Marcelo
– Totalmente. A imprensa continua agindo como se a gente
estivesse na época da ditadura, do Sarney, dos militares.
A imprensa só sabe falar do que acontece em Brasília.
A pauta ainda é feita por Brasília. Ninguém
fala do que está acontecendo no resto do Brasil. Estão
acontecendo coisas fantásticas em muitas das nossas
cidades. E não precisa ir muito longe, estão
acontecendo coisas fantásticas aqui na esquina, aqui
no centro de São Paulo. Em lugares onde antigamente
tinha um monte de pornoshop, agora tem escolas de computação
para classe D. Será que não está acontecendo
nada neste lugar? Por preguiça, a imprensa age de maneira
repetitiva, com essas picuinhas...
“A Folha é o jornal mais perdido
dentro da nova realidade do mundo. É paradoxal, porque
é também o jornal mais moderno. Ela perde uma
chance histórica de fazer uma nova revolução”
IMPRENSA – Que jornais você lê diariamente?
Marcelo
– Eu leio todos, leio bastante. Eu sou um viciado. Assino
a Folha de S.Paulo, até por uma questão masoquista.
A Folha é o jornal que está mais perdido dentro
da nova realidade do mundo, e é paradoxal porque é
o jornal mais moderno. Existe uma preguiça de tentar
entender o mundo que está em evolução.
Mas é ainda o jornal que mais me instiga, é
onde vejo que tem pluralidade. Eu só acho que a Folha
perde uma chance histórica de fazer uma nova revolução,
como já fizeram antes.
IMPRENSA
– Como você vê a figura do Jô Soares?
Marcelo
– É um privilégio ter o Jô Soares.
Eu me orgulho de ser brasileiro por causa do Jô Soares.
IMPRENSA – Ele não caiu muito indo para
a Globo?
Marcelo
– De maneira alguma. O Jô é um artista
completo. O tipo de programa que ele faz é uma coisa
de gênio. São poucas pessoas no mundo que fazem
isso. Essa fórmula é difícil. Eu sou
macaco de auditório do David Letterman há muitos
anos. Quando morei em Nova York, eu me lembro do dia em que
o Marcelo Mastroiani foi ao programa do David Letterman. A
entrevista estava maravilhosa, e eles conversando sobre nada.
Conversando sobre o sotaque do Marcelo Mastroiani, que não
sabia falar inglês. No final da entrevista, nos elogios
finais do David para o Mastroiani, o Mastroiani fez uma pausa,
ficou olhando para ele e disse: “Todo mundo que está
vendo a gente acha que eu é que sou um grande ator,
mas fazer isso que você está fazendo são
poucos atores que conseguem fazer”. É isso. Para
fazer o que o Jô faz, você não tem que
ser somente um ator de televisão. Você tem que
ser um comediante, que é a forma de ator mais completa
que existe. Só um comediante consegue fazer as tragédias.
Os atores que Shakespeare usava para fazer os personagens
principais das grandes tragédias eram comediantes.
Para fazer papéis trágicos. É o caso
do nosso José Eugênio Soares.
IMPRENSA
– Qual a avaliação que você faz
dos segundos cadernos dos jornais?
Marcelo
– Eu acredito que a situação já
esteve muito pior. Eles estão aprendendo a falar para
o público brasileiro. Isso está começando
a acontecer, mas ainda deixa a desejar. E por uma questão
de que pouca gente fala. As empresas jornalísticas
pagam mal às pessoas que trabalham nos jornais. Todo
mundo ganha mal. Como você quer que um crítico
de teatro, que não tem chance de viajar, faça
a crítica de uma peça do Gerald Thomas? Ele
não sabe que aquilo havia sido feito antes pelo Tadeus
Kantor, que aquilo existe há décadas e é
apenas uma derivação. Ou que o cara não
conheça a Ópera de Munique, não conheça
Berlim, ou o Metropolitan de Nova York. Aí, você
obriga o cara a escrever sobre ópera. A imprensa tem
uma pose que não corresponde à capacidade de
quem está ali escrevendo. Se escrevesse dentro daquilo
que conhece, seria maravilhoso. É aí que ela
se comunica. E não no “Eu ouvi dizer”,
“Eu li na The Face”. Você vê que o
cara é um leitor de revistas que estão na redação,
porque, com o salário dele, ele não consegue
comprar esse tipo de revista. Se você quer que ele fale
sobre coisas sofisticadas, ele tem que comprar DVD, tem que
viajar. O cara é obrigado a fechar o jornal domingo,
falar de teatro e cobrir o vazamento de petróleo em
Campos.
IMPRENSA
– Você não sentiu um certo desconforto
em ter participado, como um convidado especial, do último
congresso da Abert?
Marcelo
– Nenhum desconforto. Eu não tenho desconforto
com nenhum dono de veículo. Eu me dou muito bem com
os donos, eu não me dou muito bem é com os subordinados
dos donos. Lá na Abert, sou muito bem tratado. Sou
convidado, inclusive, para falar e botar meu ponto de vista
que eu defino como espírito-de-porco no meio de pessoas
tão ilustres. Eles me colocam na mesa junto ao Ministro
da Cultura, com o vice-presidente das Organizações
Globo, com o secretário da Marta. Eu me sinto honrado,
mas sei que a intenção é ter um olhar
de espírito-de-porco sobre a realidade, que é
o meu papel histórico e genético. Eu desempenho
esse papel.
IMPRENSA
– É possível imaginar, então, que
uma virtude sua é a condescendência...
Marcelo
– Não, não. Eu sou um cara da divisa de
São Paulo com Minas, sou um paulista amineirado. Não
sou um cara de conflito, de ruptura. Eu não entro nas
empresas para criar caso. Gosto de fazer televisão.
Não entro num lugar para brigar com as pessoas, eu
entro para fazer projetos que me interessam e que interessam
àquele veículo. Eu trabalhei em todas as emissoras
do Brasil, com exceção da TV Bandeirantes, com
quem já até conversei e fui convidado. Eu comecei
na TV Gazeta, fui para a Abril Vídeo, depois Record,
SBT e depois MTV, Globo, no programa da Regina Casé
e no começo do Casseta, e agora na Cultura. Fiz alguns
projetos também que não são muito famosos,
como, por exemplo, o Telecurso 2000. Fiquei três anos
da minha vida fazendo o projeto de educação
de primeiro e segundo graus. Eu fui o coordenador de criação
de todo esse projeto.
Marcelo
Tas, ele próprio e Ernesto Varella
"Muita
gente achava que meu nome era Ernesto Varela. Fico muito feliz
com isso, porque demonstra a credibilidade de um jornalista
falso como o Varela. Ele está supervivo."
IMPRENSA
– Tudo isso, e mais o curso de engenharia?
Marcelo
– Eu me formei na Escola Politécnica da USP e
esta é uma história engraçada. Na Politécnica,
existia um jornal que era o mais lido do campus, o Ceviu,
trocadilho com civil. Era um Pasquim da USP. No primeiro ano
de engenharia, eu fiquei encantado com aquilo. Um jornal ma-ravilhoso
em que você podia escrever o que quisesse, com humor
escrachado. No segundo ano, me tornei colaborador do jornal
e, no terceiro, já era editor do jornal. Eu praticamente
ia à Poli e minha profissão era ser editor do
jornal. E me encantei com a comunicação e comecei
a fazer à noite a ECA, Rádio e TV. Foi assim
que consegui me formar em engenharia, pelo fato de eu ter
me tornado o editor do jornal, um jornal anarquista, mas bancado
pelo Grêmio Politécnico.
IMPRENSA
– O que levou você, com uma carreira construída,
a aceitar o desafio de fazer os programas para o Telecurso,
da Fundação Roberto Marinho?
Marcelo
– Eu sou fascinado por comunicação, em
todas as suas formas. O desafio do Telecurso 2000 era tão
gigantesco que nós tínhamos queproduzir 140
programas, de 15 minutos de duração, em um prazo
de um ano. Isso é a produção de uma telenovela.
Se você juntar os 15 minutos em 45, vai dar um capítulo
por dia. E não é novela. Estamos falando de
matemática, português, geografia, química,
para as classes C e D. É uma coisa extremamente fascinante.
Eles queriam algo ousado. E o Barreto, diretor do canal Futura
e da Fundação Roberto Marinho, me convidou e
me deu carta branca para criar junto com ele uma nova cara
para o Telecurso 2000. A gente usou cenas de novela, de noticiário,
usou as figuras da televisão, o apresentador de telejornal,
a dona de casa, foi um trabalho de criação.
Eu cheguei a coordenar 14 roteiristas talentosos. E vários
são roteiristas, hoje, de sucesso no cinema e na televisão.
A gente criou um projeto do qual eu tenho o maior orgulho
de ter participado na Fundação Roberto Marinho.
IMPRENSA
– E o Ernesto Varela?
Marcelo
– Muita gente achava que meu nome era Ernesto Varela.
Fico muito feliz com isso, porque demonstra a credibilidade
de um jornalista falso como o Varela. Ele está supervivo.
Estou trabalhando um projeto do Ernesto Varela que vai sair
em DVD no segundo semestre. Há dois anos, fiz um teste
e fui na catacumba buscar o Varela. Fiz um programa na Rádio
89, que é só a molecada que ouve, eles nem tinham
nascido quando o Varela existia. Mas o programa teve uma enorme
aceitação e eu comecei a receber muito e-mail
porque o programa ficava disponível no site da rádio.
E muita gente começou a ficar interessada no Varela.
Foi quando eu constatei que o personagem pode ser adequado
para o momento que vivemos. Eu estou muito estimulado a tirar
ele do armário.
IMPRENSA
– Aquela pergunta que você fez para o Maluf, “’É
verdade que o senhor é corrupto?”, foi planejada
ou saiu na hora?
Marcelo
– O Varela é uma mistura de improviso com dever
de casa. Isso tem a ver com a minha formação
de engenheiro, eu sou CDF. O Varela é muito roterizado,
mas é sempre uma mistura das duas coisas. Eu vou preparado,
mas fico atento para o que acontece de inesperado. Tive a
sorte de usar das duas coisas, de perguntas preparadas e de
perguntas psicografadas (risos) por algum espírito-de-porco
naquela hora. O Maluf é de uma extrema cara-de-pau.
Ele me trata muito bem, o que eu acho uma virtude dele. Falando
sério, eu acho que o Maluf é um dos poucos políticos
que é transparente. Ele não faz a menor questão
de esconder. Ele tem essas posições de querer
asfaltar a cidade, de querer destruir totalmente qualquer
possibilidade de vida saudável na cidade. Ele fala
isso e os motoristas de táxi têm orgasmos! (Imitando
o Maluf) “Eu vou azulejar a Marginal! Vou encanar...
O fura-fila, o trem que vai levitar sobre cidade.” Ele
é um grande cara-de-pau sincero. Antes, todos os políticos
fossem assim.