Veja/
Os Sentidos Digitais
©
Veja, 1993
Se você
já estava cansado de tanta zoeira eletrônica,
prepare-se. Vem aí uma nova confusão dos sentidos.
Dizem que é inevitável. E toda vez que a História
coloca o homem diante de uma nova revolução
tecnológica, é batata: acabamos fazendo papel
de palhaço. Basta lembrar da correria do público
diante do trem que aparecia na tela das primeiras salas de
cinema. Ou, das poses e tombos patéticos dos homens
com suas primeiras máquinas voadoras. Fingimos que
já somos civilizados, mas ainda hoje estamos muito
próximos de nossos primos distantes, os macacos. Não
é difícil admitir que a alegria primitiva de
um homem das cavernas com o seu novo tacape é bem parecida
com o deslumbramento infantil com que, hoje, um executivo
saracoteia pelos restaurantes da moda com o seu novo telefone
celular.
A palavra
mágica da nova era é “digital”.
Se você ainda não sabe o que é, não
dê vexame: finja que sabe! Provavelmente, nem sua namorada
ou seu amigo mais ligado saberão. A excitação
com as recentes novidades tecnológicas é tão
grande que, rapidamente, todos se solidarizam na ignorância
para não perder o trem-bala da História. É
fácil participar. Basta pegar uma palavra velha qualquer,
colocar “digital” ao lado e pronto. Com “digital”
ao lado, qualquer expressão ganha credibilidade, admiração
e rigor científico. Olha só: som digital, controle
remoto digital, binóculo digital, livro digital, cabelo
digital, esparadrapo digital...
Novamente,
o passo é maior que nossas pernas. Só que desta
vez não se trata da invenção de um novo
eletrodoméstico para congestionar ainda mais os “benjamins”
das tomadas da sala. Dizem que desta vez, a mudança
é radical. Mais radical que a queda do muro de Berlim
ou o desaparecimento da União Soviética. Uma
mudança que está sendo comparada à substituição
da propulsão à vapor pelos motores à
explosão, que gerou entre outros monstrinhos, o automóvel.
Preparem-se leitores, o mundo muda do sistema analógico
para o sistema digital!
A primeira
providência a tomar é abrir o Aurélio
e ver o que isso significa. Pronto, começou. Quem “abrir”
o Aurélio já pode se considerar uma pessoa antiga,
analógica. Neste caso, teve que ir até a estante
e pegar aquele dicionário grossão e pesadíssimo.
Depois, foi obrigado a folhear demoradamente as páginas
do livro, procurando pela palavra enquanto repetia mentalmente
as letras em ordem alfabética. Agora, se você
já é uma pessoa moderna, digital, basta clicar
no seu micro, e pimba! Tem todo o Aurélio a seus pés.
Ou melhor, na tela do seu computador.
O “digital”
do computador, não vem de dedo, e sim de dígito.
Mais especificamente do dígito binário, o bit-
uma dupla formada pelo dígito zero e o dígito
um. A tendência é que todas as mídias,
conhecidas e desconhecidas, falem a partir de agora nesta
língua. Uma língua simples, que só tem
duas letras. Ou melhor, dois dígitos: o zero e o um.
A vantagem deste entendimento entre equipamentos, e até
objetos, é a de que as mídias comecem a se acasalar
muito facilmente. O livro tem um caso com a aparelhagem de
som, a TV flerta com o jornal, o cinema com o satélite,
o telefone com o vídeo cassete... Todos abençoados
pelo computador, que é o sacerdote supremo desta promiscuidade
cibernética, a multimídia. Está aí
o exemplo do Aurélio, que era aquele livrão
passivo e respeitoso, que passou décadas perfilado
impávido na estante. E agora, mergulhou lá de
cima para dentro de um computador se transformando numa farofa
de zeros e uns que giram aleatoriamente dentro de um disco
rígido. Em tempo, dígito vem de dedo.
E aí
começa a confusão dos sentidos. Pelos livros.
Dentro da nova ordem digital, o nome para livro é expanded
book, livro expandido. Dizem que, como no caso do velho Aurélio,
a literatura mundial vai ser reduzida a pó, de zeros
e uns. Ao invés do dedo virando as páginas,
dedo clicando o mouse. Será possível que um
dia vamos olhar para um livro com a mesma indiferença
com que hoje olhamos para um LP empoeirado dos Beatles? Se
depender do estágio atual dos expanded books, Machado
de Assis pode dormir tranqüilo em sua tumba. Ler um livro
no computador é muito chato. Os expanded books, ou
livros expandidos, talvez só se tornem atraentes na
medida em que surjam os primeiros autores igualmente “expandidos”.
Que vão fazer a gente navegar num texto onde cada palavra
traga armadilhas que levem a outros mundos, de sons e imagens,
com desdobramentos inimagináveis sobre uma folha de
papel. Este novo texto, chamado de hipertexto, promete ser
uma forma de expressão mais próxima do passeio
mental que percorremos quando pensamos. Saltitando de uma
idéia para outra sem os grampos rígidos da linearidade
e da lógica das palavras e frases. Mas, por enquanto,
ler um romance “antigo” num expanded book é
como embarcar no ônibus espacial só para viajar
o trecho Rio-S. Paulo. Perde-se em prazer e funcionalidade.
Sem falar que para ler um expanded book na cama (para leitura
e sexo ainda não foi inventado lugar mais apropriado),
a pessoa tem que levar o computador junto. O que, convenhamos,
não é nada elegante.
Quem não
teme o ridículo e está afoito para mergulhar
logo de cabeça no futuro, deve esquecer o expanded
book e começar logo pela Realidade Virtual. Porém,
atenção redobrada! Assim como “digital”,
o termo “virtual” está se desmoralizando
vertiginosamente pelo uso indiscriminado. Nos laboratórios
da NEC em Tóquio, já se estuda o franchising
do esqui na neve “virtual”, fala-se em revistas
de sexo “virtual” e até o “Fantástico”
não deixa um domingo terminar sem deixar algo “virtual”
no ar. Há muita fumaça e pouco fogo. Em 1991,
num coquetel de um congresso de computação gráfica,
conheci um pesquisador de realidade virtual da Marinha norte-americana
que era a cara do Enéas- nosso bravo candidato barbudo
à presidência. Depois de alguns drinques, ele
me confidenciou que nem ele, nem a Marinha americana tinham
clareza dos objetivos específicos de seus esforços.
Depois de torrar alguns milhões de dólares,
o “Enéas norte-americano” havia conseguido
até ali, comandar o posicionamento de um ícone
numa tela através do olhar. Como na Marinha, não
existem deficientes físicos, ele tentava convencer
o pessoal do alto comando a continuar patrocinando seus estudos
alegando que um dia a descoberta ainda seria útil caso
um piloto estivesse com ambas as mãos ocupadas bem
hora de detonar o míssil. Ainda hoje, me dá
arrepios em pensar onde, e o quê, estará fazendo
o “Enéas Virtual” neste momento? Ou, quantos
“Enéas Virtuais” estarão agora bolando
maluquices do gênero ao redor deste pequeno globo?
Pelo jeito,
as boas notícias chegaram primeiro para roqueiros e
videomakers. Depois do boom da MTV dez anos atrás,
devemos assistir agora ao aparecimento de uma espécie
de Desktop MTV. Segundo a revista “Wired”, Peter
Gabriel, o pole-position das novidades vai lançar,
em Outubro, “Explora”- o primeiro CD-ROM de rock
interativo. Além das músicas, o ouvinte (ou
telespectador?, leitor?) vai poder navegar pelo CD-ROM e ver-ouvir-ler
informações sobre a própria confecção
do álbum, apresentadas diretamente por Gabriel. O CD
vai poder “tocar” em qualquer computador da família
Macintosh. Mas, uma versão Windows para a enorme manada
de PCs também deve ser lançada posteriormente.
Tio David Bowie também retoca sua maquiagem com bits.
Lança um CD-ROM, onde o fã vai poder recriar,
no computador, um vídeo com o mesmo material bruto
produzido para o clip “oficial” do disco. Assim,
a música pop consegue ampliar seu horizonte audio-visual
que já se supunha esgotado pelo vídeo e TV.
Colocar um CD interativo de rock para tocar torna-se uma atividade
bem diferente daquele simples e singelo ato de ouvir música.
Este último se prestava a desligar o lado esquerdo
do cérebro, o racional, para “viajarmos”
somente com a música. A música pelo CD-ROM,
ou pelo videolaser interativo, exige a atenção
dos dois lados do cérebro. Um liga e desliga que alterna
decisões racionais necessárias para se navegar
no hipertexto; e “viagens” abstratas pelos sons
e imagens. Oremos para que a qualidade da música em
si acompanhe o desenvolvimento de tão frondosa tecnologia.
Depois
disso tudo, resta no meio da sala o mais pré-histórico
dos seres eletrônicos, a televisão. Sobre ela
são lançados os olhares dos gigantes mais gulosos
da multimídia: as indústrias de telecomunicações,
informática e entretenimento. Depois do videocassete,
outros eletrodomésticos estão impacientes na
fila aguardando a hora de se plugar à TV. O pretendente
mais próximo é sem dúvida o computador.
Pela TV à cabo, um canal de mão dupla, vai deixar
você obter informações, fazer compras,
acessar uma enciclopédia, participar de pesquisas instantâneas,
ou até jogar um game se a novela estiver muito chata.
Parece ser o fim dos bocejos diante da programação
rala da telinha.
Mas ainda
é pouco comparado com o casamento do século
(XX ou XXI?): o da TV com o telefone. Na última NAB-
a maior feira de equipamentos para televisão do mundo-
foi feita a primeira demonstração experimental
de transmissão de TV pelo fio do telefone. A novidade
é que, desta vez, não foram utilizadas as caríssimas
fibras óticas. A imagem e o som trafegavam pelos velhos
fios duplos de cobre de telefone comum, vagabundos como esses
aqui do Brasil. Que já estão instalados em centenas
de milhares de casas pelo planeta. Nam June Paik, o avô
dos videomakers, por vias tortas, acertou na sua profecia.
Dizia que um dia o TV Guide- a revista que traz a programação
de televisão nos EUA- seria da mesma espessura que
a lista telefônica de Nova York. Nem mesmo Paik imaginaria
que um dia a lista telefônica e o TV Guide pudessem
vir a ser a mesma coisa. Teoricamente, isto significa que
qualquer pessoa poderá transmitir vídeo e áudio
da sua casa pelo telefone, ou do celular ou do orelhão
da esquina. Cada telefone é uma emissora de TV em potencial
com uma linha plugada no satélite. Uma democratização
da informação e comunicação pessoal
só comparada à que já existe através
do texto nas várias redes de computadores, que se interligam
através dos modens e do E-Mail, o endereço eletrônico
de seus assinantes.
E tem
mais. A TV pelo telefone foi conseguida através de
uma violenta compressão digital do sinal de televisão.
A mesma técnica que permitirá às emissoras
de TV já estabelecidas colocarem no ar, simultaneamente,
toda a programação do dia. Ou seja, você
poderá assistir a novela das oito na hora que bem entender.
Poderá ver a Lílian Witte Fibbe no horário
do Cid Moreira... O telespectador faz a programação.
Adeus Ibope e intervalos comerciais, como são conhecidos
hoje, é claro.
Todas
essas novidades do mundo “digital” que está
chegando trazem algum entusiasmo, mas exigem muito carinho
e atenção. Alguns governos, como o do Brasil,
não conseguiu até hoje legislar com sabedoria
sobre a situação passada. Imagine sobre a situação
presente e futura da mídia eletrônica. Nós,
macaquitos humanos, temos que ficar de antenas ligadas. Cada
vez mais somos parecidos com jovens pilotos de Boeing. Sabemos
fazer decolar aeronaves fantásticas, com um simples
apertar de botões e luzinhas. Mas, sabemos cada vez
menos sobre a arte de voar. Chegamos ao mundo “virtual”,
sem antes acabar com a fome do mundo real. Ou até mesmo
antes de conseguirmos, pelo menos, receber a primeira transmissão
de uma pizza “virtual” de muzzarela pelo fax.
Marcelo Tas, 33 anos, é jornalista e videomaker
E-Mail: mtas@ax.apc.org (hoje desativado)