Críticas
 
 
Por trás da banalidade das coisas

Eduardo Lanius
Jornal do Comércio – Literatura
2005

Na poesia contemporânea brasileira, os versos de Mariana Ianelli ocupam um lugar à parte das tendências mais fecundas, tão contrários à concisão descarnada de uns e do derramamento lírico de outros. É cedo para estabelecer o alcance de uma poética de dicção peculiar que começa a ter desdobramentos e recém permite uma leitura de conjunto, embora a exigência artesanal e o gosto pronunciado pelo vôo metafísico sejam sinais distintivos que vêm de Trajetória de Antes (1999), prosseguem em Duas Chagas (2001) e Passagens (2003) e cristalizam-se no recente Fazer Silêncio .O lançamento não representa, portanto, uma mudança abrupta de roteiro e nem se distingue, em linhas gerais, do que os leitores já entreviam desde a estréia da autora paulistana em volume, há seis anos. Ao contrário: a consciência de depuração, o amparo no tecido mítico da cultura ocidental e a tentativa de passar “do prosaico ao sacro” - definida com propriedade, na apresentação, pelo colega de ofício Fabrício Carpinejar - recebem reforços substanciais na quarta coletânea da autora.

A poesia a que Mariana Ianelli se filia alinha-se a uma vertente mental de raros praticantes entre nós (e de largo fôlego entre alemães, ingleses e norte-americanos). Debaixo da persona que se exercita é possível enxergar, por trás da aparente banalidade das coisas, uma ordem mais rarefeita, universal, que atribui outros significados aos gestos ritualizados do cotidiano, de uma transcendência tão perseguida quanto distante, no mais das vezes quase inatingível. Arqueologia Sagrada , um dos exemplares iniciais de Fazer Silêncio , encarrega-se de fixar a existência em termos de um fervor à beira do religioso, apesar das cores sombrias sob as quais a condição humana é firmada. “Estremece o fio da vida,/ Delgado fio que só nos ata pelas pontas,/ Tua solidez humana,/ Minha raiva improvável,/ O começo de uma nova década,/ Esta arqueologia sagrada:/ Nada é tão grande sob o céu/ Que possa evitar a nossa derrocada.//(...)// Uma inocência maior que o pesar/ Perdoa os nossos crimes sem registro./ A velhice é por nós abençoada/ Não porque a temos em conta/ À nossa maneira campesina/ De admirar o ciclo dos seres e das coisas/ Inteiro em si mesmo, perene em si mesmo, cristalino”. É triste, melancólico
e, contudo, sereno, apaziguador.

Na utilização de uma voz ancestral, que olha para o homem perecível sem perder de vista uma santificação de suas origens, o trivial é revestido de uma aura de liturgia (e não somente pelas ressonâncias bíblicas que se espalham em Fazer Silêncio e aparecem, timidamente ou nem tanto, em Passagens e mesmo em Trajetória de Antes e Duas Chagas ). Nessa peregrinação à procura da “alma na carne” (síntese modelar que consta de O Amor Redivivo ) há, em meio à impotência, solidão e morte, muito de quem acredita em algo que particulariza esse homem, que o projeta na direção de Deus, da perfeição ou de que ideal abstrato - o que é tipicamente humano, diga-se - se queira. Não é um percurso fácil, nem automático (“São mínimas as distrações,/ Enormes os compromissos”, condensa Pela Boca ), mas se impõe como certeiro. O sentido da comunicação se dá pela mediação da linguagem, fonte para expressar angústias e saciar fomes primitivas (que nossa luta, afinal de contas, não vai muito além disso mesmo).
Ou, em um dos versos que parecem, qual aforismos, saltar dos poemas aos quais pertencem: “Estou aqui e aqui perduro”. Uma profissão de fé na resistência que traz em
si, amalgamados, desconforto e deslumbramento, transformados em poesia de valor duradouro.