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A construção poética do silêncio na trajetória de Mariana Ianelli
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A construção poética na trajetória de Mariana Ianelli
Site Observdor Cultural - 5/9/2006

Beatriz Helena Ramos Amaral

É na camada mais densa de sua contínua reflexão sobre a vertigem do homem contemporâneo, exilado nas angústias no tempo, que a poeta Mariana Ianelli encontra o instrumento do silêncio e, convicta, na singularidade de sua maturação estética, desenvolve viagens de imagens, revisita dores-valores, reconhece dobras de memórias, e investiga, com sutileza e devoção, as páginas e setas de um provável futuro. É desta camada prenhe de figuras, rica de temporais e agonias que Mariana extrai o silêncio e dele faz a beleza de sua palavra poética. Um paradoxo? Sim, como convém à multifacetada experiência de nosso tempo. Mas a fertilidade resultante deste diálogo de asperezas e regatos não poderia trazer melhor resposta que este seu quarto livro, “FAZER SILÊNCIO” (Iluminuras, São Paulo, 2005).

O silêncio da sombra na voz que se ergue, expandindo e projetando o espaço de resistência, se faz instrumento e alcança a coloração das lutas que se metaforizam e se alargam, semanticamente, no desmedido modo de ser fala. As labaredas que nos fustigam movem algo de fogo-palavra, algo de fogo-silêncio, apresentando uma passagem perdida, um procedimento quase irreal, um destino movediço para a busca do encanto.
Escreve Mariana:
Nosso encontro todavia eu sinto:

Não o primeiro de uma seqüência,,
Mas o precursor, germe da esperança,
O tesouro confidencial

Perscrutar o instante de encontro entre o sonoro e o inaudível, entre o germe de todos os planos e a paz dos tesouros é, também, uma espécie de vertigem. Não fácil, não imediata, e jamais óbvia. Mas reveladora dos abismos que trazemos em nosso tear de culpas, em nossa tênue esperança de respostas. A poeta traz à cena sua viagem jamais prevista, o roteiro inaudível de sua luta, o confronto entre as experiências, passagens, chagas, transmutações que compuseram seu percurso e esculpe sua brasa acesa, irremediavelmente poética.

Ao conhecer a poesia de Mariana Ianelli, há exatamente quatro anos atrás, e admirar a singularidade já presente na segunda obra publicada, “Duas Chagas” (Iluminuras, 2002), percebi que estava diante de uma voz diferenciada, e que representava uma experiência ímpar em nossa literatura, embora a autora contasse pouco mais de vinte anos de idade. Minha constatação se renovou na leitura de “Passagens”, terceiro livro de Mariana (Iluminuras, 2003) e se reitera, agora, na infinitude de leituras proporcionadas pelo texto de “FAZER SILÊNCIO”. O título da obra pertence a um poema inspirado em tela de Ianelli. Deste encontro de talentos, na casa de palavras e formas, na esquina de cores e modulações, brota a delicadeza de um movimento que anseia por novos tesouros.

Na música de absurdos, no contracanto dos prismas, na cartografia de recusas e ardências, no caos de inverdades e suas inversões, revela-se a experiência abismal do ser. Navegar como construir um tempo. Passar como medi-lo e perdê-lo. No retorno de maiores naufrágios, existe um silêncio, de quem já escrevera, anteriormente:

“ Aconteceu-me este fogo”

Sim, no acaso de um incêndio, a busca da palavra será sempre orgânica e trará a vitalidade das vísceras, o entrelaçamento das estações, a renovação de todas as paisagens.

Não há como não lembrar e registrar o ensinamento de Otavio Paz, segundo o qual
“o poema é mediação: graças a ele, o tempo original, pai dos tempos, encarna-se num momento. A sucessão se conver te em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmu ta o homem (.....) Pois o poema é via de acesso ao tempo puso, imer-
São as águas originais da existência” (O Arco e a Lira).

Dilacerar o uno, decompor o íntegro, urdir a tessitura do novo oceano, eis uma vontade poética e sua realização. Consciente de cada um dos belos acontecimentos de seu percurso, segue a voz serena, reflexiva e límpida de Mariana Ianelli, na construção do invisível que se aproxima do primeiro som-palavra, a anacruse suspensa e disposta a tecer poesia num timbre especial, devastando com toques de fogo o âmago do silêncio.


(BEATRIZ AMARAL, Poeta e ensaísta, é Mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP) e autora de oito livros, entre os quais “Planagem” a “Alquimia dos Círculos”. Acaba de receber o Prêmio Internazionale di Poesia Francesco de Michelle, Itália, 2006)