Críticas
 
 
Recuperar a densidade do tempo
Jornal O Globo (RJ), agosto de 2007

Rachel Bertol

Enquanto escrevia seu mais novo livro, Mariana Ianelli procurava uma palavra que, intuía, daria título à obra. Nas suas buscas, em geral varando madrugadas em intensas leituras, a poeta de 27 anos deparou-se com 'almádena', Mais do que o minarete com vista para a cidade, de onde se conclamam os muçulmanos às orações, almádena, diz ela, 'concentra toda a dimensão do lugar de onde a poesia fala'. O encontro com a palavra, presente na obra do Padre Antônio Vieira, de cujos sermões pinçou epígrafes para seus poemas, fez Mariana desatar um dos nós que faltavam para concluir seu quinto livro, recém-lançado pela Iluminuras.

'Almádena' chegou às livrarias com duas orelhas de apresentação, algo raro - uma do poeta Marco Lucchesi e outra do crítico, poeta e imortal Antonio Carlos Secchin. Como acontecia desde sua estréia - 'Trajetória de antes' (1999), também pela Iluminuras, sua editora desde então - são orelhas com entusiasmados elogios. Para Lucchesi, é uma 'poesia de uma riqueza, de uma densidade, de uma riquíssima percepção das coisas
que nos cercam'. E Secchin observa que há nela 'uma rara conjugação entre um registro discursivo de extração clássica e uma inquietação subjacente que tensiona o clássico
e o desestabiliza por meio de alta voltagem metafórica'.

Leitura dos Sermões, de Vieira, foi fulminante
Mariana trilha um caminho incomum hoje no cenário da poesia brasileira, especialmente entre os jovens como ela. Seus textos não são urbanos, tampouco fragmentários ou minimalistas. 'Almádena' reúne 12 poemas de fôlego que remetem o leitor a tempos imemoriais, bíblicos, com uma urgência lírica, de ritmo febril. Um lirismo cuja tensão,
na literatura brasileira, não deixa de lembrar a prosa poética de Raduan Nassar em 'Lavoura arcaica'.

- O fogo da universalidade queima nos versos de Mariana. Na sua vontade de abrangência, ela não podia mesmo ter deixado de navegar nas águas de Vieira, autor vastísimo - afirma Lucchesi, que aprecia o fato de os poemas não se anunciarem como contemporâneos. - Não precisamos de um apriorismo contemporâneo, até porque somos condenados a sermos contemporâneos. Muitas vezes, vive-se na literatura a ilusão de que, para ser moderno e contemporâneo, é preciso haver um esquecimento do passado. Isso é absurdo, mas recorrente. Mariana tem personalidade para dialogar com o passado, estando profundamente inserida no contexto atual. E é melhor ser contemporâneo do
que moderno, porque o moderno costuma acabar em cinco anos...

Em conversa telefônica de São Paulo, onde mora, a poeta conta que descobriu Vieira enquanto escrevia o livro –
- Os poemas foram escritos antes da leitura dos Sermões. Determinadas passagens foram fulminantes para mim. Esse encontro redimensionou meu ponto de vista. O livro (conduzido pelas epígrafes de Vieira) não partiu de projeto racionalmente preestabelecido, mas da lógica do milagre, de maneira espantosa para mim. E, na verdade, nem tão espantosa assim se pensarmos em como a poesia acontece, com seu fator de indeterminabilidade, das coisas intangíveis.

Dos minimalismos contemporâneos, a poeta admite certo receio -
- O silêncio, esse espaço em branco, não pode ser um recurso, ele precisa ser conquistado. Às vezes, um poema com três ou cinco páginas é mais expressivo do que um poema de meia página. Mas é preciso trabalhar, e muito. Não como o ourives preocupado com o artifício e o lapidar da linguagem que, sem destino, perde de vista a própria matéria humana. Mas como o minerador que vai fundo, desce e, com sua picareta, extrai a pedra bruta, em busca da beleza das coisas, como a própria natureza, com envolvimento total.

O lugar do minerador-poeta também é o de almádena, que, em espanhol ou italiano, significa o utensílio usado, justamente, para quebrar pedras. Em português, na mesma linhagem, tem-se almofariz, palavra que, lembra Lucchesi, encontra-se em Drummond
'o sempre citado', diz Mariana ao listar preferências literárias.

Entre os poetas brasileiros de hoje, Mariana cita dois com que se identifica - Alberto Pucheu e, inevitavelmente, Lucchesi – 'a quem eu não poderia deixar de lembrar, não porque escreveu a orelha de meu livro, mas por sua fidelidade à palavra e à vivência da palavra'.

Outros autores de que gosta muito são Octavio Paz, Yeats, Auden, Paul Celan, René Char, Marguerite Duras, Hilda Hilst - além de Pessoa, de quem cita, durante a conversa, o verso de Ricardo Reis ('Põe quanto és no mínimo que fazes'); Mário Faustino, tema de sua tese de mestrado; e Calvino, a quem faz referência na capa de 'Almádena'.

- A imagem da capa é um quadro do meu tio (o artista plástico Rubens Vaz Ianelli) que
faz parte da 'Série das cidades perdidas', na verdade cidades imaginárias, como em Calvino. Elas se tornam existentes quando materializadas na leitura, no contato com o leitor. Da mesma forma, não há voz masculina ou feminina na poesia e sim uma voz anônima, que se individualiza com o leitor - afirma a poeta. - Eu vejo a poesia assim,
como um encontro a dois. O lugar das multidões e das impessoalidades não me atrai.

Poesia como o lugar da desmedida, da liberdade
Foi ao cultivar ,o contato com os leitores que Mariana conheceu, quando lançou seu primeiro livro, aos 20 anos, um fã que virou seu namorado e, há dois anos, seu marido.
Ela gosta de escrever e estudar à noite, das oito horas até umas três da manhã. Embora Samuel Leon, seu editor (também seu fã), afirme que Mariana tem leitores cativos, cujo número aumenta a cada obra, não é da poesia que vive. Escreve textos para diferentes lugares e trabalha na catalogação da obra de seu avô, o artista plástico Arcangelo lanelli.
A poeta acha um perigo a profissionalização do escritor.

- Existe uma ânsia da produtividade, como se houvesse um caráter industrial na literatura. Não vejo ai o lugar da poesia. Ao contrário, a poesia não se veste desse tipo de limite.
É o lugar da desmedida, da liberdade, do diálogo, do afeto, de tudo que é imponderável. Na tirania da produtividade, perde-se o que é essencial, o que não é negociável.
A contingência da vida – 'todo dia é o nosso último dia', diz - faz parte da experiência da escrita – O poema é legado da vida, do que se viveu, pensou, sentiu. Também é vestígio, registro de vestígio.

De sua almádena, Mariana quer recuperar o silêncio, não só para o poema –
- Mas como atitude, como vivência da literatura, recuperar a densidade das coisas e do tempo. Não se vive à toa, nem se escreve inconseqüentemente.