Críticas
 
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As feridas de um leitor

O poema nos acusa. A poesia – e Mariana Ianelli sabe disso – se aproxima do desumano

José Castello

O Globo – Prosa&Verso - junho de 2010

Visito um amigo que é advogado. Meu amigo anda triste, por circunstâncias que não vêm ao caso. “Não quero falar do que me faz sofrer”, ele me pede. Distrai-se folheando um exemplar de Treva alvorada, o novo livro de Mariana Ianelli, que carrego comigo.

“Quem é?”, ele pergunta. Vou dizer logo, embora tenham me alertado para não escrever isso: ganhei-o de presente da própria Mariana, com uma dedicatória que, com delicadeza, resume sua poesia: “O meu abraço nesta longa madrugada”. Meu amigo é cruel: “Por que poetas estão sempre deprimidos?”.

Comentei com uma sobrinha, que é professora de português, que, nesta crônica que agora escrevo, falaria da dedicatória de Mariana. “Não faça isso”, ela me aconselhou. “Dirão que você só gostou do livro porque são amigos”. Pois me arrisco a afirmar o contrário: que gostei do livro apesar de nossa amizade.

Não é fácil ler os versos de alguém que conhecemos. Nem bem começamos e já estamos carregados de ideias, de preconceitos e de intenções. A leitura exige certa frieza e desnudamento, enquanto a amizade nos aquece e agasalha. É o que se diz. Será mesmo?

Queremos tudo de um amigo. Mas uma pessoa só dá o que tem, se é que é possível dar o que se tem. Muitas vezes desejamos ser sinceros e, no entanto, somos grosseiros. Em outras, queremos proteger mas, em vez disso, sufocamos. Ninguém dá o que tem, ou acha que tem. Cada um dá o que pode, o que é bem diferente.

Volto ao escritório de meu amigo. “Você está sempre cercado de poetas”, ele diz. “Isso não deve fazer bem”. Meu amigo, que é advogado criminalista, zela por meu equilíbrio interior. “Prefiro as mentes dos engenheiros, eles sim sabem pensar. Mas os poetas – eles não o confundem?”.

Ainda admite, com restrições, a leitura dos poetas clássicos, que escreviam “com clareza, sabendo o que queriam dizer”. A partir do simbolismo, acredita, a poesia se transformou em turvação. Observa melhor o livro de Mariana. “Treva alvorada”, ele lê o título em voz alta. “Como se pode pensar na alvorada, que é luz, e ao mesmo tempo nas trevas?”

Peço que pense, por exemplo, em seus casos criminais. Que outra coisa eles são, senão charadas, que nunca se resolvem? Mesmo depois do julgamento, e da condenação, quem sabe o que se passa na alma de um assassino? Mesmo depois do veredicto, qual história está completa? “Não importa”, meu amigo diz. “Para isso existem as sentenças: para impor a claridade ali onde a escuridão venceria”.

Recordo que meu pai sempre reclamava que era impossível discutir comigo. “Você tem sempre muitos argumentos”, me dizia. “Devia se tornar advogado”. Agora meu amigo confirma suas palavras. Peço que ele se sente, esqueça um pouco de seus processos, e ouça o que vou ler. Leio, então, “Dias e noites”, poema que trabalha justamente com o esforço humano da clareza – doloroso, comovente – que, no entanto, desemboca, sempre, em novas sombras.

Um homem retorna da guerra. Lutou por uma ideia, por uma causa, por um amor. Por algo que imaginava existir fora de si. “Sujo de guerra / Eu voltei”. Voltou porque quis, fez a escolha dolorosa da derrota. “Ninguém me fez retornar / Eu retornei sem razão / Um demente”. Volta para casa “cheirando a medo” e sem saber o que faz. Traz o sabor de ferro na boca, mas o pior tormento é a consciência do que perdeu.

Mariana escreve: “Manhã, alma, deslumbre, / Todas perdi para o frio, / Viscoso olho / De onde falava a angústia”. Talvez tenha desistido, simplesmente, de viver. Nas águas enganadoras da guerra, vitória e derrota se assemelham. “Volto a mim e não me acuso”. Um soldado já não sabe o que faz. Mariana arremata, com coragem: “E isso é tudo”.

Quando termino de ler, meu amigo pergunta: “Agora me explique: o que essa mulher quis dizer?” Talvez espere que o poema traga uma súmula, ou briefing. Um poema desprovido de uma explicação seria como um eletrodoméstico sem o folheto de instruções. Como usar um poema?

Desde a infância, nossa amizade se marca pela divergência. A separação é o que nos une. Que estranho elo nos prende, se divergimos tanto? O que é nossa amizade, se quase tudo nos afasta?

Leio outro poema de Mariana: “Desencontro”. Ele começa de modo devastador: “Dá-me um acontecimento / E eu nada direi sobre isso. / O crime perfeito / Será meu segredo / Fechado por dentro / Em silêncio / Como um vício”.

Noto que os versos o afetam, porque seu olhos parecem perdidos. “Pára com isso, vamos tomar uma cerveja”, sugere. Avanço um pouco mais: “Há de me salvar / A vida rotineira / Entre mil outras tão parecidas”. Entendo que é disso, de uma rotina salvadora, que o poema nos desloca. Não é que eu suporte: não suporto também. Mas, pelo menos, sei ver a beleza onde meu amigo só encontra o desespero.

Ele me pede cinco minutos para dar um telefonema. Enquanto espero, continuo a ler. Chego a “Pacto”: “De madrugada se misturam / Como os cães da montanha quando uivam. / Escondidas covardias se misturam”. O poema nos acusa. A cerveja (a leveza) será nosso pacto. Já a poesia – e Mariana sabe disso – se aproxima do desumano.

As primeiras luzes já se apagam quando o garçom nos traz a conta. “E ali, misturados na noite, / No fosso da noite, dão de existir”, os versos de Mariana continuam a nos perseguir. A poesia como sombra, de que não se larga. Saímos os dois, não elevados pela poesia, mas massacrados por ela.

Encontro de novo minha sobrinha professora. Ela lê o rascunho desta crônica. Depois diz: “Você não aguentou o livro”. Ainda acrescenta: “Para se livrar do que leu, passou para seu amigo advogado o papel de crítico”. Minha sobrinha equipara a crítica literária ao veredicto. Devia se tornar criminalista, ou, quem sabe, legista.

Não se pode esgotar um livro. A poesia não aceita reduções, ou deixa de ser poesia. Tudo o que um leitor (crítico, ou não) pode fazer é rondar o livro que lê. Leio um poema e me pergunto: em que ele me afeta? De que maneira ele me fere? Encerrada a leitura, um leitor sempre examina as feridas que o livro lhe deixou. Lê essas feridas, e não o livro. Não se livrará mais delas.