Críticas
 
 

Fervor, sombra e alegria

Ana Guadalupe
Estado de S. Paulo – janeiro de 2013

Um dos temas mais explorados pela poesia universal ressuscita mais uma vez - agora sob os cuidados da jovem poeta paulistana Mariana Ianelli (1979), em seu sétimo livro,
O Amor e Depois. Longe do que pode sugerir o título, o amor aqui não é suspiro ou divertimento: a poesia de Mariana é uma espécie de procissão sombria e violenta. Arrasta corpos de amores mortos e convoca aos gritos futuros amantes, parentes e vizinhos, dor e memória, flora e fauna, estátuas e casas inteiras. 

O fervor que sustenta os 41 poemas aparece já no aviso dos primeiros versos: "Nenhum traço de delicadeza / Só palavras ávidas / E o tempo, / A devoração do tempo. / Um jardim entregue / Às chuvas e aos ventos". Assim o leitor já sabe que é preciso abandonar-se com a mesma firmeza para trilhar esses "caminhos de sangue", "sem alívio ou esquecimento".

Deixando de lado imagens corriqueiras da vida sentimental de qualquer época, Mariana
faz escolhas que não são comuns na poesia de alguns de seus contemporâneos. Busca cenários eternos feitos de água e pedra, grandes bosques e abismos para representar o movimentado mundo interior daquele que vive o amor até a morte.

Tal movimento fica por conta das idas e vindas da lembrança (em que "uma tarde é pasto da memória"), da imaginação sofrida de outros destinos ("Assim eu revelaria / O teu amor aos assassinos") e da redenção que parece residir na consciência das próprias feridas ("o mórbido prazer do gosto amargo"). A escolha de palavras também rejeita o descanso: as emoções são arrancadas, agarradas, se debatem, têm espasmos e fazem atrocidades.

A variedade de paisagens e posições não impede o crescimento de um elemento central: a sombra, a treva, a escuridão. Está em todo lugar e volta religiosamente à página, massacrando com certa facilidade a alvura, o divino e a pureza que também aparecem aqui e ali. Há momentos em que o eu lírico parece perder a fé e se render ao "lado gótico da vida", e a decisão de se entregar é do leitor.

No "fim do dia", para a alegria de seus fiéis e ainda que sem perder seu lado feio, o amor volta à vida - como um pássaro sobre ruínas e como Lázaro, o personagem bíblico (em Herança). É aí que o livro de Mariana Ianelli, rejeitando as ilusões do amor sem nunca perdê-lo, encontra o "regozijo da sombra / Passado o terror das guerras".