Críticas
 
 

A poesia contra o pó

Em O amor e depois, Mariana Ianelli explora temas como paixão, tempo e morte com linguagem que ostenta lirismo e perícia

Alberto Bresciani
Correio Braziliense – janeiro de 2013

Mariana Ianelli lançou, em dezembro último, O amor e depois (Editora Iluminuras). A jovem poeta paulistana prossegue onde muitos ainda estão começando ou nem sequer começaram. Este é o sétimo livro de uma carreira inaugurada aos 20 anos, com Trajetória do antes (1999), e solidificada pela sucessão de trabalhos destacados. Mariana é mestre em literatura e crítica literária, veiculando seus textos em periódicos especializados.

Nos dias que correm, as palavras, sem alçar voo, são apreendidas pela internet, pelas redes sociais, e atravessam muitas vezes a Terra antes que um canto de ave se esgote. Essa é a velocidade que abre espaço, mesmo em poesia, a diferentes expressões, todas aceitas e legítimas dentro de um padrão contemporâneo. Mariana Ianelli detém, com determinação e perícia, uma dessas vozes. E não receia explorar o idioma para dizer – a seu modo — o que percebe e sente neste mundo que nos acolhe ou aprisiona, sem ceder à quase incomunicabilidade da metalinguagem extrema, a modelos fugazmente consagrados por grupos ou a esquisitices provisórias do universo literário.

Em O amor e depois, volta à cena o confronto entre eros, chronos e thanatos. O amor, o tempo e, com eles, a morte, essa permanente e soberana ameaça que a poesia combate. Utilizando as armas da linguagem, e sem temer a ocupação dos territórios poéticos que almeja, Mariana entra em campo e, ao longo dos 41 poemas reunidos, oferece seu lirismo com a firmeza dos que acreditam na comoção e no homem enquanto destinatário único da poesia.

Já em “Neste lugar”, o primeiro dos poemas do livro, apresentam-se as personagens: o amor (“um jardim entregue”), o tempo (“Nenhum traço de delicadeza, / Só palavras ávidas / E o tempo”), a morte (“um despenhadeiro, o céu / E uma queda”).
A luz recai sobre o amor idealizado (“A chance de tocar um mundo novo / Como dois azuis se podem tocar / Sem pecado”, em “Descobrimento”) e também sobre o amor que vai à carne (“Ou talvez um dilúvio / A voragem do estupro”, em “Nesta hora”). Habitando “corpo adolescente” ou “violentas tempestades”, Mariana grita seu espanto: “Como se não arrastasse / Cada corpo uma penumbra, / Como se fosse possível / Em vida a paz dos mortos.” (“O amor e depois”).

Este, o protesto contra o inevitável: a morte representando o extermínio até dos amantes perdidos em tempos que nunca lhes pertencerão. A poeta não receia o enfrentamento das coisas como chegam ao real. Encara-as intensamente, a ponto de evocar “(...) aqueles / Que nunca mais retornam, / Os que merecem desta vez / O tempo presente” (“Tigres brancos”).

Com orelha assinada pela escritora Adriana Lisboa e posfácio do poeta Contador Borges, para além do mergulho em seus focos de investigação, a poesia de Mariana Ianelli, em O amor e depois, desvela “Um mundo e a claridade do desejo / De alguém que muito longe e muito antes, / (...) / Tentado a desistir, não desistiu”. A poeta sabe erguer-se contra o pó e, longe de se aferrar a vias de conformação ou a respostas pretensamente definitivas, deixa, com arte, com ritmo, o legado de “um sol além do medo”.