Críticas
 
 

Poesia e teimosia

José Castello
Prosa & Verso (O Globo) – janeiro de 2013

Na dedicatória do exemplar autografado que me enviou de seu novo livro, O Amor e Depois (Iluminuras), a poeta Mariana Ianelli resume, sem meias palavras, seu próprio trabalho:
“a esperança que aprendi com as ruínas”. É doloroso, mas a corajosa Mariana está correta. É quase sempre de algum destroço, de algum resto de ideal, de alguma sobra quase inútil que os melhores poetas arrancam seus versos.

Em “Dueto”, numa difícil definição do amor, ela escreve: “Nosso segredo de câmara/ (como o de tantos casais)/ seria o acordo de calar um morticínio”. Não só para escrever poesia, como também para amar, muita dor deve ser suportada. É preciso sustentar um pouco, como ela nos diz ainda, uma “farsa consentida/ uma legião de demônios/ a cada gesto vagamente ambíguo”. A poesia exige um acordo de alto risco entre a vida e a palavra. Também no laço amoroso, se digo “eu te amo”, muita coisa ainda assim escapa, e um tanto de deformação (de mentira?) toma o seu lugar.

Mariana não adoça as coisas, não ameniza. Não escreve para enfeitar o mundo, mas
para apontar suas feridas, seus buracos, seus defeitos e, até, suas partes inaceitáveis.
A poesia (como o amor) é também perseguição. Está em “Instinto”, com todas as terríveis letras: “Porque um dia te chamei/ para sempre me persegues”. Vê o amor como um remanso que nos toma aos poucos, mas à força, ameaçando chegar à boca – beijo que
é, ao mesmo tempo, afogamento. Também o poeta se afoga das palavras que ousa escrever. Elas estão, sempre, muito além dele e de suas forças. Elas o ultrapassam e,
em um ricochete, retornam para feri-lo. “Infinitamente mais escuro/ e raptor, teu beijo é ósculo”. Ele pode ser, de igual modo, uma carícia traiçoeira.

Todo poema (como todo grande amor), acrescenta Mariana em “Fantasia”, costuma vir “depois da grande decepção”. Há uma depressão anterior – como um longo deserto em declive, que devemos atravessar, sozinhos e oprimidos – até que se chega, enfim, ao verso. Até que se chega àquilo que vem depois da paixão: o amor que merece esse nome. Muito mais fácil é a fantasia da paixão, com seus cumes envoltos em névoa (cegueira) e em deslumbramento (perfídia). Dessas alturas, porém, se chega à retórica, não se faz poesia. O poema (o amor) só surge depois da experiência da descida, “mesmo que te doendo como a um animal/ perdido, arremessado no vazio de um campo”.

Os poetas “da linguagem”, que colocam à frente do sentido o jogo de palavras e a manipulação vazia dos sons, são incapazes de chegar ao ponto desde onde Mariana Ianelli parte. Não sustentam a travessia – preferem ficar com os malabarismos.
O problema da poesia, como o do amor, é o “depois”. É a direção – o sentido, mais
uma vez. A lógica do sentido é flutuante, não se deixa capturar, não se fixa em palavras.
A esperança, inútil fantasia, sugere Mariana ainda no mesmo poema, é que “pudesse vingar pura a criança”. Criança que habita um tempo anterior à linguagem – nossa
grande arte, mas, ao mesmo tempo, nossa condenação. Pureza que não há, pelo menos em nós, seres falantes.

Um poema como “Potsdamer Platz”, inspirado em Asas do Desejo, o filme inesquecível
de Wim Wenders, abre com uma significativa citação do cineasta: “Não desisto enquanto não encontrar a Postdamer Platz”. A busca da “claridade do desejo” simbolizada pela
praça localizada no coração de Berlim. Mas terá essa busca uma solução? A busca feita por alguém (o poeta) “tentado a desistir”, mas que ainda assim “não desistiu”. Não chegar, porém, não significa que não se deva ir. Não encontrar não significa que não se deva procurar. Ao contrário: é só porque não encontramos que prosseguimos na busca. Encontrássemos, e o tédio nos tragaria. Sabedoria do poeta: perseverar na perseguição do sentido, mesmo com a consciência de que ele é inacessível. Se é que ele existe – porque o mais provável é que tenha que ser inventado.

Poetas lidam com o pouco e precisam se contentar com ele. Com o quase nada. Diz-nos Mariana no belo “Carta de Chankay”: “Esse pouco roubado de uma urna/ é quanto basta”. Tem que bastar, ou nada se escreve. Poetas trabalham com esse “restante de partes desencontradas”. Quem busca o compacto e o total não escreve poesia, pois ela se faz
do frouxo e do desencontro. Poemas são “fragmentos revolvidos, misturados/ ao prazer
de ver nascer uma verdade”. Que verdade? “A verdade de uma carta/ que escamoteia um século”. Uma verdade que, em vez de acrescentar e fechar, rouba e subtrai. O poema nos leva à verdade incompleta, que o poeta (como uma chave torta) tenta lacrar, sem sucesso. Mas seu ruído (seu som) nos fica. Eis a lírica, que nada tem de suave, ou de reconfortante, mas que range e incomoda.

O poema deve persistir como “um lamento mais potente do que a mágoa”. Um lamento, um canto: a lírica da dor. Assim escreve Mariana Ianelli: com a postura de quem resiste. Escrever poesia é resistir aos aduladores da verdade. É colocar-se em posição de risco.
É clamar: vem verdade, mas eu duvido do que você anuncia. Por isso, para escrever poesia é preciso mais que coragem: a da persistência. Persistir na busca do sentido inexistente, agarrar-se a essa busca, fazer da palavra seu caminho. Assim se afere um poeta: por sua teimosia. E Mariana é teimosa. Seus versos escorrem feito a água, que teima em pingar mesmo ali onde, com a cola mais grossa, o mundo se veda. Aquilo que insiste, apesar de: eis o poema.

Mariana Ianelli sabe disso. Escreve não “apesar disso”, mas “justamente por isso”. Resiste ao grande encanto da beleza fácil, que hoje desfila nas passarelas, outdoors e vídeos. Veja-se sua fotografia no fecho do livro: ela nos encara com um sorriso furioso. Não de deboche, não de ironia, mas de coragem. Traz no rosto a insistência de seus poemas. Faz da poesia a sua face. Está em “Mirada”: “Não ficou uma só alma atrás da porta/ nem as portas ficaram/ (...)/ A vida agora acontece em outra parte”. Que lugar é esse, senão o poema que, em um mundo que se desvanece, sustenta e ama aquilo que, por desistência e arrogância, já não conseguimos viver?