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Pulso do Tempo-Luz na Poética de Mariana Ianelli
Resenha publicada no Jornal da UBE, O Escritor, em junho de 2004 (n° 108)

Beatriz Helena Ramos Amaral

“Contornada a margem fina
Do esquecimento,
Uma nova capital aparecerá
Sobre a antiga”
(Passagens, p.35)

Entre as camadas férteis do tempo-luz, a voz poética de Mariana Ianelli abre Passagens, prefácio de Nelly Novaes Coelho, seu terceiro livro (Iluminuras, São Paulo, 2003, 127 págs.), signo de uma trajetória ímpar, que perscruta vertigens e exílios, raízes e alicerces, desastres e delícias, plasmando sua singularidade instigante no polifônico cenário da poesia brasileira contemporânea. Somo “uma única noite em dez anos”, sua palavra densa alinhava a essência de reflexões existenciais basilares do homem, do ser-estar-
no-mundo. Logopéia, poesia que pensa a cultura, a civilização, o destino do homem, vislumbrando e reconhecendo a angústia da descrença, mas, paradoxalmente, construindo em seu vácuo um canto de busca do tempo definitivo – repouso de palavras, triunfo do silêncio. Silêncio como potencialidade, cultivado na poética de Mariana como
um dos principais vetores, a desencadear, intenso, o fluxo da linguagem.

Frente à descrença, o instrumento poético de Mariana Ianelli se depura, tocando braseiros, infâmias e dissonâncias, na tentativa de alcançar o Tempo em sua plenipalavra: “uma história de séculos parou”, “toda a hipótese de paraíso desabou”, “dimensão de um tempo sem destino em que nada se perde porque nada existe”. Poesia que tem seu ponto de partida na força do silêncio, e sua inspiração na leitura de alguns dos livros do Antigo Testamento, especialmente o Livro de Jó , mas que propicia e permite, como o admite a própria autora (Introdução, p.13), a leitura desvinculada do referencial bíblico, e, portanto, leitura ampla da grande Metáfora, em que vários universos de absurdos e agonias se entrelaçam, forjando seu pacto com a palavra.

Na verdade, a marca original desta poética já principiara a expandir-se em dois livros anteriores, também publicados pela editora Iluminuras, “Trajetória de antes” (1999)
E “Duas Chagas” (2001), igualmente pródigos em reflexão, tactilidade, sensualidade, movimento de exílio e talento para a construção de belas imagens sempre avançando
para o aparecimento da “nova capital”, figura do novo-tempo. Da viagem heideggeriana nitidamente empreendida por Mariana Ianelli, brota a mediação-transmutação, pedra alquímica, sal-palavra.

Consoante o ensinamento de Octavio Paz, “o poema é mediação: graças a ele,
o tempo original, pai dos tempos, encarna-se num momento. A sucessão se converte
em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmuta o homem.
(...) Pois o poema é via de acesso ao tempo puro, imersão nas águas originais da existência” (O Arco e A Lira ).

Vislumbra-se, na força de muitas das imagens viscerais da poeta Mariana Ianelli,
a viagem da analogia-fantasia que ruma para o plenitempo, em que o ser almeja habitar “um continente livre”, onde possa se “deitar no lago das carpas”. A poesia, instrumento quase absoluto desta busca, redimensiona crenças e descrenças, na in/finitude do verbo. Morte, aqui, é, também, luz-passagem: instância singular de transcendência.

Escreve a poeta: “Aconteceu-me este fogo”. E delineia com sensibilidade e maturidade
sua ilha epifânica, “suspensa no fluxo do tempo”, no espaço-observatório em que contempla os “desastres e as delícias do tempo”. Então, no útero alquímico do próprio fazer poético, sua expressão reflexiva de evidente raiz logopaica insinua a voz profética
e também investigativa, e dessa conjugação, a inventividade faz resultar instantes imagéticos e fanopaicos de rara beleza, como “olhos que miram a exuberância da erva doce”. Aqui e ali, a poeta se põe em estado de vôo para colher, entre viagens, atalhos e grãos da memória, uma a uma, cada “pétala urdida no sol e na água”. E “dança contra
os sinais de pecado” da superficialidade e da dissipação que, lamentavelmente inundaram nossa cultura. Na construção de uma atmosfera prenhe de futuros, contornando “a margem fina do esquecimento”, Mariana Ianelli vai modelando e remodelando, com argila e fogo, água e brasa, de modo às vezes tênue, às vezes devastador, seu próprio espaço-tempo, sua própria luz poética, esculpindo em sintaxe muitas vezes quase narrativa, um pentagrama de tessituras múltiplas, entreabrindo sombras e delírios, numa soma de qualidades poéticas que produzem o novo ser-palavra.

No pulso de sua voz-verbo-viagem, Mariana disserta, argumenta, reflete, e muitas vezes dilacera o leitor, na experiência de paradoxos que se adensam, desdenham oráculos, fundam páginas inusitadas de promissores frutos, pois “a música fala pelos que ficam”
e os pássaros-de-passagem representam a resistência em prol de uma liberdade plena. Indignada entre os limites e a estreita insensatez do cotidiano, a verdadeira poesia avança muros e paredes, despindo os vícios do horizonte, e re-inaugurando, em espiral, a nova direção do tempo-luz:

“Mas algo ainda permanece,
Penumbra de nossa própria forma”
(p.95)

Beatriz Helena Ramos Amaral é poeta, autora de Planagem e Alquimia dos
Círculos, entre outros.