Crônicas
 
Apresentação

 

Abelha na biblioteca

Texto de orelha de Luís Henrique Pellanda

 

Dia desses, vi uma abelha voar pela biblioteca do meu apartamento e me lembrei da Mariana. Sim, eu confesso, estava com a poeta na cabeça, impressionado com estas belas anotações a respeito de certo felino. É o mesmo material que vocês têm, agora, entre os dedos: um tipo raro de ouro, leve e valioso. Sintam-se ricos, portanto, como eu me senti.

Estas crônicas me enriqueceram antes mesmo de virarem livro.
Já as havia lido ao menos duas vezes, a primeira no Vida Breve, onde eram publicadas aos sábados e me davam, como tão bem sugeria a autora, “algum prazer de sombra ao fim de uma semana ensolarada”. Fui um leitor feliz e não escondo: sou grato a tudo
que me dá algum prazer.

Mas, e a abelha, por que me fez lembrar da Mariana? A princípio foi só um pensamento que passou zunindo. Eu trabalhava no meu escritório, a janela aberta, a tarde quente. Tão rajado quanto o tigre do título, o inseto apareceu e, após uma euforia rápida, sumiu entre as prateleiras. Onde teria se metido? Não vi, mas combinei comigo: escondeu-se atrás de uma antologia da Emily Dickinson.

É mentira, eu sei, mas faria sentido. É que numa de suas crônicas,
a Mariana se compara à famosa abelha de Dickinson, aquela que penetra as flores e se afoga em bálsamo. Gosto da analogia. Porque a cronista parece escrever como vive: voando entre a biblioteca e o seu jardim de azaleias, aonde vai quando, “bicho desaçamado”,
quer farejar a terra, “o mais sedutor dos livros”.

Nesse trânsito enganosamente mínimo, ela aproveita para visitar as casas e amores de sua família, a mãe retratada pelo avô artista, os poetas que jamais a abandonam, suas leituras inaugurais, a voz de Leonard Cohen, a grandeza de Sabato, os pés perfumados de Cristo, os colegas de escola que o tempo soterrou, um paraíso marciano e tantas outras paisagens, geladas ou áridas ou lindas – paulistas, russas, austríacas, domésticas, íntimas.

Na escrita, nos diz a Mariana, há uma espécie de dança de Salomé. Também acho. Só nos falta saber o que de nós será arrebatado
ao fim da dança das páginas. E agradecer à poeta por ter se entregado com tamanha paixão à crônica. Ou seja, por ter se apaixonado por nós.