Poemas
 
Texto de orelha

 

Uma vasilha de oceano

Fabrício Carpinejar, poeta

 

Mariana Ianelli produz silêncio no leitor. Um silêncio que é cumplicidade e empatia, a identificação de uma memória
em comum.

A escritora refaz o passado com o refinamento de uma profecia,
cria uma "arqueologia sagrada" de seus hábitos, desaloja verdades das aparências. Em sua poética singular e febril, cuidadosa e alentada, não há desperdício. Descobre o "rumor do oceano/
no fundo de uma vasilha".

Não existe propriamente o passado, o presente e o futuro, mas aparições, fulgurâncias de uma compreensão simultânea dos tempos. "Não há tempo que me fortaleça/ Sem antes ter me derrubado." Seu olhar é de cima, como do alto de uma árvore,
dos telhados, das costas de um anjo. Ela ensina a arte de perdoar, entende as imperfeições que pesam, problematizam e enriquecem
a vida. "De todas as paixões do mundo/ Resta-nos o dom de
saber perdê-las." Não condena o sofrimento com castigos, culpas
e maldições. O sofrimento é sábio e transmuda-se na alegria
do autoconhecimento. Não pune; abençoa com a partilha. Para
cada aflição, indica uma receita curativa. Ao desespero, sugere
"o consolo num copo de cidra".

São poemas para a moldura da voz. Mariana tem uma vocação classicista para lapidar a dúvida em diamante. O adjetivo é bem colocado, os paradoxos são necessários e os versos se perfazem em paralelismos bíblicos. Persegue a justiça e o equilíbrio da
forma. Assim como Sophia de Mello Andresen e Maria Teresa Horta, grandes autoras de Portugal, condensa o raro em instantes de deslumbramento, descarna o mínimo com acurada intensidade, ultrapassa a vagueza pelo simbólico e adere ao território mágico
das evidências.

Se no outro lado "a eternidade é leve", aqui, neste livro, a escrita ajuda a passagem da brasa ao cristal, do animal ao espírito, do prosaico ao sacro. Dificilmente a poeta fala por si, na primeira pessoa. Recusa a catarse existencialista ou os achaques domésticos, fala com os outros (nunca pelos outros), em conjugação coletiva. "Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo." Sua mitopoética tem um andar místico e concentrado, a retirar visões sobrenaturais de banais conjunções dos fatos. "Vês aquela menina?/ Alheio à sorte, não podes vê-la:/ Falta-te o conhecimento
do oculto:/ Essa criança será tua mulher daqui a vinte anos." Supera a indigência da força física a subir como perfumada fumaça dos círios e da flor oracular do fogo. Não são apenas poemas, são promessas de uma mulher que entendeu a solidão para conviver, que sonhou para contar, que viveu para não morrer a esmo.