"Mariana Ianelli – em seu frescor de sombras e quedas de água, ligeiras desesperações, vozes líquidas,
quase serenas, na solfa dos pássaros, no canto de Salomão e sobretudo
na ferida noturna e grave de João
da Cruz – atinge uma altitude inconteste. Poesia de uma riqueza, de uma densidade, de uma sutilíssima percepção das coisas que nos cercam.
Almádena é uma espécie de consciência vigilante, torre alta e bem plantada, frente ao lirismo em que mergulha e do qual emerge com rigoroso espanto. A torre do Padre Vieira, do Sermão do Espelho e do Demônio Mudo. O severo. O contido. E as mirabilia. Mariana mede a palmos certos as formas da língua,
o ritmo e a força das imagens nos mares do texto.
Nessa torre de vertigem e liberdade, vejo o início de uma etapa, em que Mariana terá de se haver com os limites do silêncio, assim como Vieira, quando converte Deus para Deus – no Semão do Bom-Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda. Mariana não quer pouco. E sente
o risco desse jogo de rara beleza.
Mas é outra a máquina de guerra,
tal como Holanda e Portugal são outros, e agasalham nomes e destinos vários.
Almádena é o marco de suas novas terras. Descobertas não faz muito.
E que urge conquistar com serena alegria e vivacíssimo risco. Frescor de sombras e quedas de água. Ligeiras desesperações. Vozes líquidas".
Marco Lucchesi
"A poesia de Mariana Ianelli
apresenta uma rara conjugação
entre um registro discursivo de extração clássica e uma inquietação subjacente que tensiona o clássico
e o desestabiliza por meio de alta voltagem metafórica.
Neste novo livro de uma produção que se consolida e se refina a cada obra, Mariana desdobra-se em doze faces ou segmentos que atravessam
a dor, o desconsolo, o desejo e a morte, e seu apurado domínio técnico elabora uma dicção ao mesmo tempo culta, comovente e perturbadora.
À contracorrente do minimalismo,
o fio discursivo de Mariana se distende em laboriosa reflexão sobre tudo aquilo que acena à superação da contingência, embora nela se abasteça. Um sopro cosmogônico perpassa a poesia de Almádena, com inflexões anti-realistas no vislumbre angustiado da dimensão do inacessível.
Como diz Mariana, no esplêndido poema que dá título ao livro,
“Não há rumor nas coisas,
/ Elas são o que são. / Não desejam explicar-se. / A porcelana, a cambraia, a murta / E a falta de uma asa.”.
A poesia fala dessa falta.
E empresta-nos a asa ausente
para que, no sobrevôo lírico, acerquemo-nos perigosamente
da matéria volátil e incandescente
da vida".
Antonio Carlos Secchin
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