Poemas
 
Apresentação

 

Um salto no chão

José Castello

 

As palavras traem. Queremos dizer uma coisa, e elas dizem outra. Isso se dá, em particular, na poesia, quando as palavras deixam
de ser veículo para se tornarem objeto. Então, sua fragilidade e inconstância ficam ainda mais expostas. A leitura de Fazer silêncio , de Mariana Ianelli, mostra quão radical pode ser essa traição.

A primeira aproximação do livro, a mais superficial, diz que a poesia de Mariana trata de temas metafísicos, calcados em delicadas citações bíblicas e em questões filosóficas que se referem às causas primeiras do ser. Versos, pode-se cogitar, voltados para
a grandeza divina e que, por contraste, e por ênfase, acentuam a insignificância dos homens e a necessidade de sua submissão. Talvez, não sei, seja o que a própria Mariana pense a respeito do
que escreve.

Acontece que, dispostos a celebrar a elevação, e a medir a extensão do salto expondo, por contraste, a insignificância humana, é do homem, e de sua grandeza pequena, mas única, que os poemas
de Mariana Ianelli vêm falar. A dimensão dividida é só um espelho imenso no qual o homem pode mirar com mais clareza, e também com mais amor, seu próprio tamanho.

Poemas reflexivos, com imagens fortes e percepções penetrantes
de coisas simples, ou simplesmente pequenas. Versos em que o pensamento se valoriza, idéia manifesta em um poema como “Quinto elemento”. “Força do pensamento/ Que em nós persevera”, ela diz. Pensamento humano, limitado, mas por isso mesmo, potente, adequado ao que apenas é, e com a qual a poesia de Mariana não se furta a trabalhar.

Poesia pensativa, ruminante, que chega a constatações frágeis,
mas devastadoras. “Nada temos, tudo nos é concedido”, ela escreve em “Tudo e nada”, disposta a enfatizar a imperfeição do homem,
os limites estreitos em que ele se espreme. Mas é justamente aí, nessas mãos vazias, e não nas mãos cheias do céu que o ultrapassa, que a grandeza do homem se faz. Situação paradoxal, que a própria Mariana descreve, com perspicácia, quando diz:
“Nada ínfimo e tudo/ o deserto em milhões de partículas”.

Há em seus versos, muitas vezes, uma grande desconfiança em relação às coisas terrenas, que se expressa em momentos como este, dedicado a Hilda Hilst: “Pediste luz/ Mas o que realmente/
Te terá trazido esse dia?” É justamente por se ater à escuridão,
por suportá-la e dela fazer a matéria de sua poesia, sem o consolo de sonhos longínquos, que Hilda se tornou uma magnífica poeta.
Pelo mesmo motivo, os versos de Mariana, espessos, atentos às pequenas fendas nas quais nos movemos, realçam a fibra do humano. É por ser estreita a estrada que nos tornamos mais fortes.

“Chegar adiante/ Sem mesmo um só movimento”, ela escreve
em “Premonição”. E sugere mais: “Uma visita ao dia seguinte/
E o imediato retorno ao presente”. Nesse presságio, que é mais
uma revelação, Mariana desvela a fragilidade das idéias a que,
por hábito, submetemos a vida humana. Sim, fragilidade, mas viva; sim, inconstância, mas fiel. Pouco, mas que é tudo.

Está dito em “Filhos do fogo”: “Damos calor às coisas enquanto é tempo/ E mais tempo há enquanto estamos mudos,/ Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo”. Este “enquanto é tempo”, é o tempo dos homens. Como disse Vinicius, em verso célebre, é o “eterno enquanto dure”. Que caracteriza a mais crucial força humana: o amor.

Quanto à mudez, é o homem encolhido diante de tudo o que desconhece mas, ainda assim, firme, sabendo suportar o que lhe escapa, fazendo resistência ao que não pode ouvir, sem abandonar a luta. Sem a necessidade de atribuir a outro o que ele é, sem a esperança de chegar a nada fora de si. “De tudo extraindo o que sobra de nosso, afinal:/ O irreversível”. O irreversível: a grandeza fugidia do que é. Aquilo que em nada mais se pode converter.

Poesia do ser humano, sim, de um ser atormentado pelo medo do último juízo, apequenado diante de seus temores, e que necessita, por isso, e só, de um afago, de um pouco de tranqüilidade, de um sopro para existir. Como Mariana diz em “Assim será”, o ser que se encontra sempre no abismo, que habita sempre o “entre” dois extremos, ser que se faz em “uma felicidade/ Não inteiramente estúpida, nem inteiramente sábia”.

Suportar o humano, vivê-lo com os limites impostos por nossos olhos vendados e nossas bocas amordaçadas, saber fazer de si aquilo que nem se sabe o que é. Assim avança, traiçoeira (mas a língua, em si, já é traição) a poesia metafísica de Mariana, uma poesia que, disposta a celebrar o alto, acaba por revelar a grandeza do chão. E é ali onde falha que a metafísica dá passagem ao real.

E nessa pequenez, em vez de massacrados ou diminuídos, constatamos, ao contrário, como a vida se agiganta. Isso se lê
em cada verso. Como é heróico o homem, tão nu, tão desarmado,
a seguir em frente. Apesar de si.

Poesia, enfim, da beleza da vida, beleza paradoxal, que Mariana sintetiza em belos versos assim: “Estou aqui e aqui perduro/ Isto que hoje fala em mim, em mim se cala”. Até porque, como ela mesma
diz em um poema como “Autópsia”, sob a capa do mágico, do transcendente, mais forte que a fantasia, está o instante.

Poesia do presente, perguntas e respostas que se enroscam,
se agitam, que tremem e, por fim, compõem em sinfonia aquela fragilidade doce, mas intensa, que o homem, mesmo cheio de temores e de ilusões, insiste em ser.