"Hoje sou o errante que civiliza o vácuo.
(...)
Uma caça devorada pelo abutre, ainda quente,
Estas ruínas que transporto inutilmente.
Nem promessa de luz, nem melancolia :
Um fantasma já não medita sobre o seu tempo."
Poeta da condição humana, Mariana
Ianelli, neste Passagens,
se faz testemunha lúcida/agônica do atual caos
em que mergulhou
a brilhante Civilização que herdamos da Tradição.
A que criou o mundo belo e progressista de ontem, alicerçado
em Verdades e Certezas absolutas e que, já esgotado
em seus valores de base,
se vê mergulhado em crise, sem que outros "absolutos"
surjam para substituir os antigos e permitir que um novo equilíbrio
seja alcançado no mundo. Em meio ao caos, só
restou o Homem e sua voz de Poeta com a tarefa de re-nomear
o mundo.
"De outrora só restou a matriz
do indivíduo
Que disseminava aos ventos o seu afinco
(...)
Já não peço o contrário desta
noite - eu silencio.
(...)
Caiam todos sobre mim : eu subsisto."
Passagens testemunha o apocalipse; dá
voz ao homem-da-queda, "prisioneiro de si mesmo",
que "dança contra os sinais de pecado", nele
inscritos por Deus. Poesia essencialmente metafórica,
a destas Passagens tem raízes bíblicas.
Como a poeta diz na Introdução, ao descobrir
no Antigo Testamento a "intensidade de um sofrimento
humano nunca tão bem entoado como nas queixas de Jó",
nasceram os versos do "Enredo do Cão", -
poemas que abrem o volume. Neles se faz presente o "homem
degradado" do nosso tempo-em-mutação, aquele
que, como Jó, se viu despojado de sua dignidade humana
e de tudo quanto construiu em sua vida de dedicação
ao dever e de fé.
"Nas galerias ocultas do medo eu me
contive,
Não ousaria elevar meu grito de inocência.
Tantas vezes ostentei os meus cuidados
Em conservar o rebanho e os campos de trigo
Como se todos habitassem um só corpo
Que a ocasião da felicidade protegesse
E foi num sopro que acabei exterminado
Vivendo entre a espada, o luto e uma elegia."
Essas três palavras, espada, luto
e elegia, definem o húmus que alimenta esta poesia
em seus cinco passos : "O Enredo do Cão",
"Lamentações", "Passagens",
"Outubro" e "Poemas para epitáfios".
Em todos eles, se faz presente a luta, a morte, o lamento.
Ou, sintetizando, o homem visto como o ser-para-a-morte (como
o viu Heidegger num primeiro momento) - aquele que, por mais
que busque a vida, só encontrará a morte, a
aniquilação do próprio ser.
"Eu persisti,
Olhei os teus braços erguidos,
Pesquisei os teus pavores nos meus
E concluí que a nossa luta era perdida."
Mas nesse limiar apocalíptico, algo
vibra como intuição da vida cíclica,
que preside o universo e a história :
"- Aprendemos isso.
O que de nós foi roubado
Mas antes resplandecia,
O que foi interrompido em mim,
Instinto de luta,
Retornará mais ardente, mais firme,
Para as mãos de quem eu nunca vi"
Réquiem pelo homem sitiado pela dor
e pela morte, Passagens termina abrindo uma fresta
para a luz :
"Não te aflijas:/ Na entranha do
rochedo que te prendeu/ Foi inscrita
a audácia do teu desafio./ Do espelho inerte que te
recebeu/ Uma fonte viva expediu a tua luz./ Que nunca se perca
o esplendor da tua ascensão."
Estará nascendo o homem, ser-feito-de-tempo
?...
|