Poemas
 
Apresentação
O Poeta no Limiar

Nelly Noaves Coelho


"Hoje sou o errante que civiliza o vácuo.
(...)
Uma caça devorada pelo abutre, ainda quente,
Estas ruínas que transporto inutilmente.
Nem promessa de luz, nem melancolia :
Um fantasma já não medita sobre o seu tempo."

Poeta da condição humana, Mariana Ianelli, neste Passagens,
se faz testemunha lúcida/agônica do atual caos em que mergulhou
a brilhante Civilização que herdamos da Tradição. A que criou o mundo belo e progressista de ontem, alicerçado em Verdades e Certezas absolutas e que, já esgotado em seus valores de base,
se vê mergulhado em crise, sem que outros "absolutos" surjam para substituir os antigos e permitir que um novo equilíbrio seja alcançado no mundo. Em meio ao caos, só restou o Homem e sua voz de Poeta com a tarefa de re-nomear o mundo.

"De outrora só restou a matriz do indivíduo
Que disseminava aos ventos o seu afinco
(...)
Já não peço o contrário desta noite - eu silencio.
(...)
Caiam todos sobre mim : eu subsisto."

Passagens testemunha o apocalipse; dá voz ao homem-da-queda, "prisioneiro de si mesmo", que "dança contra os sinais de pecado", nele inscritos por Deus. Poesia essencialmente metafórica, a destas Passagens tem raízes bíblicas. Como a poeta diz na Introdução, ao descobrir no Antigo Testamento a "intensidade de um sofrimento humano nunca tão bem entoado como nas queixas de Jó", nasceram os versos do "Enredo do Cão", - poemas que abrem o volume. Neles se faz presente o "homem degradado" do nosso tempo-em-mutação, aquele que, como Jó, se viu despojado de sua dignidade humana e de tudo quanto construiu em sua vida de dedicação ao dever e de fé.

"Nas galerias ocultas do medo eu me contive,
Não ousaria elevar meu grito de inocência.
Tantas vezes ostentei os meus cuidados
Em conservar o rebanho e os campos de trigo
Como se todos habitassem um só corpo
Que a ocasião da felicidade protegesse
E foi num sopro que acabei exterminado
Vivendo entre a espada, o luto e uma elegia."

Essas três palavras, espada, luto e elegia, definem o húmus que alimenta esta poesia em seus cinco passos : "O Enredo do Cão", "Lamentações", "Passagens", "Outubro" e "Poemas para epitáfios". Em todos eles, se faz presente a luta, a morte, o lamento. Ou, sintetizando, o homem visto como o ser-para-a-morte (como o viu Heidegger num primeiro momento) - aquele que, por mais que busque a vida, só encontrará a morte, a aniquilação do próprio ser.

"Eu persisti,
Olhei os teus braços erguidos,
Pesquisei os teus pavores nos meus
E concluí que a nossa luta era perdida."

Mas nesse limiar apocalíptico, algo vibra como intuição da vida cíclica, que preside o universo e a história :

"- Aprendemos isso.
O que de nós foi roubado
Mas antes resplandecia,
O que foi interrompido em mim,
Instinto de luta,
Retornará mais ardente, mais firme,
Para as mãos de quem eu nunca vi"

Réquiem pelo homem sitiado pela dor e pela morte, Passagens termina abrindo uma fresta para a luz :

"Não te aflijas:/ Na entranha do rochedo que te prendeu/ Foi inscrita
a audácia do teu desafio./ Do espelho inerte que te recebeu/ Uma fonte viva expediu a tua luz./ Que nunca se perca o esplendor da tua ascensão."

Estará nascendo o homem, ser-feito-de-tempo ?...