Canto de Ofício | Almádena | Hodie
 
Hodie

 



Desenho de Rubens Ianelli
Nanquim a bico de pena


I.

Há de ser mais do que a vida.

Mais do que a estrela do corpo
Que se põe todos os dias,
Com seu coração refém
Das pequenas olimpíadas.

Há de ser mais, muito mais
Do que esse deus enxadrista,
Mais do que o par da minha sombra
E a iluminura das tuas cicatrizes.

Há de sobrepujar nosso caminho.

Quantas vezes mais será
Do que a invenção do inimigo,
Tanto mais do que as mãos,
Sua pistola, sua prece, seu címbalo.

Passará o algar das raízes.

II.

Os diferentes mundos,
O eterno homem sozinho,
O peso assente nos ombros,
A maçã, o cardamomo, o trigo
Há de ser mais do que isso.

Mais do que a hora perdida,
Do que esta noite e a seguinte,
Do que Alcatraz e Treblinka.

Mais, muito mais do que a esposa,
Os filhos, os velhos e o amigo.

Excederá o jogo da roleta,
Perderá o atlas dos países.
Será além do pão e da carne,
Da carne e seu véu de formigas.

Além da mais altissonante teoria.

III.

Atravessará meu canto de aleluia,
O verão entranhado nas coisas,
O que teu punho entende por justiça.

Há de pairar sobre o feito e o refeito
E sobre o restante já esquecido.
Será mais acima do topo,
Acima da injúria e da orquídea.

Mais real do que as coisas, mais físsil.

Diante do que toda ciência é pouca,
Toda fábula, todos os ritos.

Um disparo, uma faísca,
Tua história desembocando na minha,
O que quer que tenha um princípio,
E será mais além, mais acima.

IV.

Nem afável, nem terrível,
Igual para tudo que existe.

Do pelicano dos rios
Ao camaleão da Namíbia,
Da anêmona dos recifes,
A alguém como nós e outros mil.

Triunfará sobre a púrpura e o branco,
Sobre os ramos, as teias, os ninhos.
Será antes da rosa-dos-rumos,
Muito antes do buliço
Entre acordar e dormir.

Para além do último gesto,
Aquém do primeiro,
Fora de toda idéia sensível.

Há de ser mais do que a morte, esvair-se.