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Retrato de Katia


Separada da tua sorte, desde muito,
trago junto da manhã
teus olhos estrangeiros e assustados.
Todo retrato que defendo para mim.
Num segundo meio deslocado
da nossa espera sem-razão, adiante,
te verei mulher de uma clareza expandida
que me confundirá.
Vejo estes silvestres para que eu não te duvide
quando surgires entre eles e eu te redescobrir.
Tua boca não é essa, não é como nenhuma,
a tua boca é só a tua
e os olhos que eu lembro,
não os mais belos, não os mais quentes,
são o teu brilho triste de ser, tua síntese azul.
E quando vieres, eu te pergunto,
serás quem eu lembro ?
Luto, emboscada, revolta italiana,
ou terás merecido os outros
que me põem muito medo
por seus caminhos hesitantes, suas armadilhas?...
Organizo aquela mesma menina
jogando o cabelo louro para trás
e peço repetidamente
que sejas ela quando vieres,
que eu sorria, quando vieres,
como outra criança que te fizesse festa.
Alguma saudação calada entre a gente
de improviso vai lembrar e esquecer
o peso obrigatório dos dias.
Adiante, surgiremos desvelando nosso próprio susto.
Agora vem, que está feita a minha prece.