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Pântano  


Haverá uma noite
No fundo desta lama
Para tudo o que foi teu :
O caminho de partida,
O horizonte das bandeiras,
O extraordinário ano de 1980.

Entre guelras e barbatanas,
No ventre de uma água sonolenta,
O castelo de tua memória se acende.
Ressurge um alto portão de madeira,
De longe brilha a pesada maçaneta,
Cresce para baixo o tronco do velho castanheiro.

No escuro passeia o teu amigo inexistente,
Deitam-se juntas as tuas amantes insatisfeitas,
Do topo de uma escada o teu filho te acena.
Os muros contornados e logo desconhecidos,
As alamedas visitadas e já desaparecidas
Formarão ali tua cidade secreta e sem fronteiras.

O retorno para casa como se para um cativeiro,
Toda vacuidade do suplício e do desejo,
Um gemido de orgasmo reboando no silêncio :
Tudo o que foi teu renascerá
No pântano de uma noite derradeira
Para além do tempo do esquecimento.