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Memorial


Um pano feito de céu ia, sim,
receber as tuas tintas

Foi quando nasceste
que primeiro apanhei tua mão,
tu tinhas a cor das nuances raras
e eras que nem uma luz morta.
Foste uma criança miúda
e me enxergavas com olhos fracos
no azul apagado
cheio de espanto.
Eu era teu mestre, tu sabias,
te ensinaria sobre pintura
sobre como matizar uma tela
como viver para a imortalidade
no mundo pequeno entre as paredes.
Tinhas tão pouca idade quando
escolheste os pincéis com que brincar
quando te puseste a caminhar
com as pernas,
eu dizia que não fosses à janela
porque a altura só competia a Deus
e aos pássaros grandes
e que as paisagens serviam
para os pintores
para quem soubesse de pincéis
e de arco-íris.
"Amor, vem aprender o trabalho
do teu mestre,
o colorido do seu ofício".
...Mas tu soerguias
com uma palidez que alastrava,
teus olhos cada vez mais albinos
tomavam a cor do sangue,
eu ia perdendo a palavra,
tu já chegavas à janela
perguntando de onde Deus nos mirava
e minha resposta era prevenir
que não devia haver tanta pergunta.
"Amor, por que soltaste os cabelos
por que os rebelaste, amor, que tens ?
Tu lembras uma qualquer,
pareces quase louca !..."
Descobriste sobre os pássaros
sem a minha ajuda,
já eras uma mulher inteira feita
de perguntas
e te sumia a transparência de antes.
"Amor, tu quiseste um par de asas, eu sei..."
Não pudeste mais enxergar
minhas lições
não pudeste enxergar
as paisagens que eu pintava,
preferias o desenho de fora da janela
ou a realidade volúvel da imaginação.
"Amor, o que vai lá fora ?
O que lá de fora te encanta assim
o que te põe tão fresca, tão loira
sob a roupa, o que te põe desvestida,
minha criança, tão santa assim ?"
Talvez ainda procurasses por Deus
quisesses, talvez, alguém pra brincar.
"Não deixa o teu mestre, sai à janela
mas não passes da porta,
o mundo é todo de intenções escondidas
de traumas no espírito,
o mundo tem crimes
tem máscaras pretas
que nem Deus afronta;
Deus, que criou a virtude
mas que também inventou o medo."
Quando morri as tintas ficaram
preparadas na mesa
e o pincel deitado dentro delas,
dentro dos azuis escuros, e dos brandos,
era como uma interrupção que não podia.
E onde estiveste enquanto eu enrugava
enquanto me perdia, todo eu acabava,
pele de pergaminho ?...
Se eu juntasse as cores primárias
erguesse a tela na altura dos olhos
no alcance das mãos,
tu estarias presente, sim,
invadindo a minha profissão,
respiravas dentro da minha paz
numa sintonia desequilibrada
porque os jovens não medem seus sonhos,
se abandonam na exaltação.
Mas, amor, onde estiveste
enquanto eu acabava
eu, fóssil de lagarto
câncer que desata,
espalhado nos dedos
na omoplata, nas idéias;
eu, um velho suscetível, um artista...
Tua casa era aqui, esta era a tua janela
tua vida, comigo.
"Amor, seja o que houver
mira as pessoas nos olhos.
A mão do homem, tarde ou cedo
ela chega, e te vai usufruir
vai escolher de ti o melhor sítio
que beijar, o mais abundante,
vai tomar-te a mão, e tu sentirás,
sim, amor, é inevitável,
tu sentirás uma tal peste no ventre.
Nesta hora, minha criança,
sê tranqüila;
e no estupro do teu corpo,
mira o homem que te ofende
no profundo dos seus olhos;
nesta hora sê tranqüila,
conduz a mão dele no teu prazer intacto,
em teu desespero feminino."
Quando morri tu casaste com Deus,
branca e limpa como no dia
em que nasceste
e eu a tivera comigo
(tua vida era comigo)
até o fim não passaste da porta
mas juravas terminar como um pássaro,
as asas abertas no céu
e a mão do homem seria a de Deus,
ajudando o teu vôo.