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Câncer


Beleza de pedra
De cera fria
De olhos frios : cinza arapuca.
Beleza nórdica
De santa a que não se deve tocar.
Mulher que está em descanso na terra,
Mulher de ancas rijas,
De pés flutuantes e milagrosos.
Um perfume diferente,
Seresta onze e meia no cais.
Beleza de folha derretida na chuva :
Musgo incorporando na pele.
Mulher de sorriso ignoto,
De sensualidade marítima.
Mulher de barbatana enérgica,
Com prata respingada nos cílios.
Mulher de pupilas insones,
Maçã do rosto cavada em sulco abrupto.
Mulher de cabelos lineares,
Qual manto escorrendo macio
Nas estradas, fronteiras da neve.
Beleza de córrego egoísta,
Que repele os caramujos da margem.
Beleza verberando néon,
Uma vulnerabilidade de hotel.
Beleza do farfalhar de borboleta mutante
No fim da primavera.
Beleza de asfixia,
Ácido queimando músculo.
Um farol na montanha
Interditando escalamento.
Mulher de pernas pegajentas,
De ventosa aderente à ponta dos dedos.
Mulher de camisola vegetal,
Santidade de pé no tapume,
Franja coroada de gel.
Mulher de voz metálica,
De sons concretos que doem no ouvinte.
Mulher de formas inconlusas,
De meias formas
De escamas rastreadas na areia,
Guizo silvando nas pedras.
Geada no verde do pinheiro,
Floco de gelo no lodo discreto e movediço.
Mulher-poema dos versos brancos,
Escalavrados e decompostos
Na descrição de uma flor, azul.
A peça mor do tabuleiro
Percorrendo sete casas em estirão.
Mulher de olhos individuais.
O bafo gelado em quem navega
Os fiordes noruegueses.
Mulher, prontidão mortal de uma flecha,
A mulher desertificada,
Um chapéu de moda passado da moda.
Uma causa suspeita de crime hediondo
Advogada pelo mestre das letras.
O adubo que faz germinar
Mas que também esgota o chão.
Mulher protegida na pelúcia da ave
Do ecossistema austral.
O último lírio de nervuras coradas
Vendido em Finados.
A tristeza do touro que cede na arena
Com a espada afundada no lombo.
Um seio que acontece infantilmente,
Que brota no meio da tundra
Como um nascimento alcalino:
O bico saltando numa incidência rosada.
A conquista do milhão:
O contato glacial das moedas na bochecha.
A mensagem na garrafa
Surfando as cristas do mar.
Penugem meio denunciadora,
Pele por desvendar-se...
A colheita de juta que não vingou.
Uma âncora fincando
Seu pesado imperialismo nas águas.
O único guarda-sol (azul)
No interior do milharal.
Um ensaio de balé no tablado do teatro.
Alga sem cor secando na areia.
O esqueleto suposto durante a rotação dos pulsos,
Das saboneteiras no prenúncio do decote.
Estátua absoluta remando o seu império,
Bajulada pelo povo.
A pacificação finissecular.
- Ai, mulher de ninguém.

Capricórnio

Beleza de semente graúda,
De cacau muito puro,
De fauna brasileira:
Patas ágeis, morenas,
Mormaço torneado no busto.
Beleza heterogênea
De sangue jurado e oferecido
Nos terreiros clandestinos de Honolulu.
Mulher expedida para fazer crer aos devotos
Que a terra de Deus é a mesma do Cão.
Vodu de pano roto que o povo alfineta
Esconjurando suas magias
De tigresa malhada...
Um forte aroma de esperma
Pulverizando no calor.
Beleza de um arquipélago explorado já
E de maior encantamento
Que a tal Ilha dos Amores...
A controvérsia na roda de capoeira.
A desesperação faminta
Dos amantes no antegozo.
A competição entre dois galos
Que vale uma aposta em dinheiro.
Boca de lama fresca e cintilante,
Lábio de conjugado exclusivo.
Mulher de olhos flertivos,
De larga circunferência,
Auréola ensolarada e protéica.
Paixão de quinta categoria
Que xinga e espanca e faz juras.
O sangue escorrendo das pernas
No dia depois do adultério.
Beleza de índia indo para o rio,
A quem se vê entre moitas.
Indumentária ambulante de cobre a 600°C.
O arco-íris difuso do camaleão
Camuflado no tronco de árvore,
Nas folhas da copa, nas frutas berrantes.
Femeazinha dos pobres.
Uma aparição demoniada,
Lenda ruim que fecha a porta das casas.
Componente da relva.
A ardência da fogueira estalando gravetos.
Sumo de fruta caída do pé.
Beleza de mandar para o olho do cu.
A baderna entre os moleques
Que sapecam na rua
Entre os malandros do boteco
Que prolongam a ressaca.
Intérprete do despudor.
Fotografia móvel e intermitente,
O jogo de luz e sombra.
Nuança de perdição.
Rivalidade incessante com Deus.
A generosa que dá prazeres
Pelo preço de uma ninharia.
- Ai, mulher das profundas...