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Segunda vez  


Quando te chamarem
E a hora for grave,
Não respondas,
Não respondas ainda.

Repara antes no teu nome,
Separa-te dele, levita.
Repara no que não foi batizado,
Escarlate, atroz, que extasia.

Procura as mãos
Que te cavaram para fora,
Inaugurando o teu passado,
Imiscuindo-te entre a fome e o frio.

A estocada de luz, imagina,
Que te cristalizou no tempo
E assimilou a tua forma
Na forma viva de um grito.

Tua mãe, imagina tua mãe,
Quanto ela envelheceu num dia,
Os olhos mais alucinados
Que os olhos de um assassino.

No teu sono sem pecado
Procura o que não pode ser limpo –
Todo o impossível pode
No teu sono sem política.

E se te chamam,
Se te chamam ainda,
Que seja maior o teu longe,
Mais largo o teu giro.

Sonâmbulo, plácido
Sabedor dos ventos,
Sobrevoa o teu nome
No parto do teu espírito.