Estranho mundo cheio
de desespero, desencontro, buscas, repleto de sensualidade.
Mariana torna sensual cada verso que toca,
mesmo no trágico, na angústia, na agonia. Há
nela inocência insana, ironia perplexa diante do abandono
(porque as pessoas se abandonam umas às outras), da
solidão (esse é o destino e de nada adianta
buscar), da nostalgia (de nada adianta rever).
Há em Mariana malícia, interrogação,
sufoco, olhares hesitantes para um Deus que existe/inexiste,
há silêncio, premonições de morte,
portas arranhadas em noites molhadas, frutos que não
vêm porque não houve germinação.
Textos delicados, porém corrosivos. Mariana conhece
o valor de cada palavra, a síntese, ela sabe como transformar
a palavra em estilete, cortando fundo.
Ela tem o corpo sempre de sobreaviso, ela pode
levar nas mãos o momento de pensar. Estão atentos,
ela e o seu coração. Ela sabe que podemos ser
soltos em um lugar desconhecido da vida.
Mariana viaja em estouros de luz, tem o destino
dos homens, a missão nos olhos. Revela mulheres santas
que recebem os inimigos como se fossem amantes, como se fossem
aqueles que chegam pisando a terra e cavam com os dedos o
espaço.
Mariana olha o escuro, olha os dias e não
precisa penetrá-los para viver como quer. Ela fala
de mulheres de formas inconclusas, de meias formas, de escamas
rastreadas na areia, de guizo silvando nas pedras.
Mariana olha com olhar de pólvora a
vida, o mundo, o amor. Ela quer um farol na montanha, quer
a beleza de semente graúda, espera por mensagens na
garrafa, vê o sangue escorrendo das pernas no dia depois
do adultério.
E ela sente, nos transmite, nos faz sentir
a ardência da fogueira estalando gravetos e nos coloca
dentro das nuanças de perdição, porque
essa é a vida, perdição, ninharias denunciadas,
perdas, derrotas, quedas para as quais não estamos
preparados, com as pessoas indo para o fundo delas mesmas,
em busca de seus próprios vestígios.
E se pensam que essas frases são minhas,
não são.
Elas foram retiradas de dentro dos textos de
Mariana, doloridos, suaves, cortantes, contundentes porque
nos revelam em descrenças e desesperanças, com
um toque de poesia como há muito não se via,
e não se tem visto.
E quando pensávamos: onde está
a nova poesia brasileira, a que fale de pessoas e sentimentos?
a que venha do fundo e não seja puro jogo verbal, visual,
armadilhas, mas poesia de sangue e vísceras, aqui está
Mariana, corajosamente à beira do ano 2000, buscando
a trajetória do antes, enquanto todos querem a trajetória
do depois, sem perceber que o depois não existe sem
o antes.
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