Crônicas
 
Um vaso de nardos e trinta moedas de prata | Glenn Gould |
Para aqueles a quem os dias são um sopro
| Depois do último dia | Quem é Leonard Cohen |
Dia do silêncio | Um mundo de nomes | Um pássaro sujo de neve |
Carta para o amigo
| Sophia de Mello Breyner Andresen
 

Ilustração de Alfredo Aquino
 

Glenn Gould
05/03/2011

Ele conta que começou a ler partituras antes mesmo
de ler as palavras, por volta dos quatro anos de idade. Aos treze já tocava Bach e submergia nos seus primeiros surtos musicais de madrugada, enquanto os pais dormiam. Revendo os indícios de trás para frente,

talvez se reconheça aí não somente a precocidade do gênio, mas a exaltação daqueles que vivem, por assim dizer, ionizados, num estado de hipersensibilidade que precipita muitas coisas, entre elas, a intuição de uma vida curta.

Em 1955, com então vinte e dois anos, tornou-se o Glenn Gould das Variações Goldberg,
o jovem de cabelos esvoaçantes e maneiras excêntricas que transformava uma plateia numa multidão de testemunhas da sua intimidade com o piano, alguém de tal modo possuído pela música que as teclas lhe serviam de repositório de um transbordamento,
o lugar para onde manavam prelúdios, tocatas, adágios e fugas que não podiam ficar contidos dentro de um só corpo.

Mas Glenn Gould detestava plateias. Era, na realidade, um solitário. Em 1967, quando
já havia abandonado as audições públicas pelas gravações em estúdio, produziu um documentário de rádio chamado A Ideia do Norte. O programa falava das paisagens geladas e desérticas de um lugar apartado de tudo. Era ao mesmo tempo a sugestão
de um poema e uma pintura. “Sim, é um programa sobre o Norte só porque se passa no Norte, mas na verdade é sobre o Norte de nós mesmos, sobre a essência de conviver consigo mesmo quando não há mais nada em volta”. Glenn Gould colocava dessa forma, em palavras, a sensação de um solo intenso, de uma pausa entre as notas que evoca o deserto para onde cada um deve partir sozinho.

Foi na maior igreja de Toronto, em 1982, que a plateia de Glenn Gould se reuniu pela última vez. No meio do silêncio de três mil pessoas, ele, que não gostava de multidões, ressurge, inteiro feito música, na ária das Variações Goldberg. Mais do que uma despedida, estava ali o princípio de tudo. Um piano invisível tocando o poema do Norte.