Crônicas
 
Um vaso de nardos e trinta moedas de prata | Glenn Gould |
Para aqueles a quem os dias são um sopro
| Depois do último dia | Quem é Leonard Cohen |
Dia do silêncio | Um mundo de nomes | Um pássaro sujo de neve |
Carta para o amigo
| Sophia de Mello Breyner Andresen
 

Ilustração de Alfredo Aquino
 

Um pássaro sujo de neve
04/06/2011

Assim o roteirista Tonino Guerra definiu certa vez o seu amigo de alma russa, filho de poeta, o cineasta Andrei Tarkovski. Os dois trabalharam juntos em Nostalgia, primeiro filme que Tarkovski realizou fora da Rússia, inspirado por uma saudade tão profunda do seu país

que os campos abertos do interior da Itália nesse filme se converteram em campos de névoa iguais aos do vilarejo a trezentos quilômetros de Moscou onde o cineasta e sua mulher tinham uma casinha.  

Para a elaboração do roteiro de Nostalgia, Tarkovski visitou com Tonino Guerra o grande portal de pedra que saúda a chegada dos barcos às areias de Flore, a arquitetura barroca das igrejas de Lecce, os paraísos turísticos de Amalfi e Sorrento. Tarkovski se inquietava com uma beleza tão explícita. Eram lugares excessivamente bonitos para o seu filme, radiantes demais para uma paisagem que devia ser a emanação das sombras do seu personagem, um poeta de nome Andrei, que viaja para a Itália em busca de material para biografia de um músico russo do final do século XVIII que teria estudado em um conservatório de Bolonha.

Nem a pedra ricamente trabalhada nem os cinematográficos espetáculos da natureza interessam a Tarkovski. Tampouco lhe interessam enredos engenhosos, rebuscados, monumentais. Interessa-lhe o detalhe sublime, a força de uma pintura, de uma música,
de um poema, o mínimo que poderá fazer do seu filme “um todo metafísico”. Interessa a Tarkovski realçar os interiores, o interior de uma casa, de um quarto de hotel, de uma igreja, e uma planície a perder de vista, um campo a céu aberto que é também um interior, o interior de um homem doente de nostalgia, exilado de sua história, desgarrado de sua pátria e sua família, um homem apaixonado pelo cadáver de sua infância, um solitário que se deixa engolir pela neblina.
 
Escapando da censura, Tarkovski partiu da Rússia para recriá-la na Itália. Acusado de
“ter se afastado da realidade” em seus filmes, não podia estar mais profundamente inserido em seu tempo, na angústia do vazio espiritual de seu tempo. Tarkovski acreditava na dignidade e na verdade da arte quando já esses princípios eram molestados pelos próprios artistas. Acreditava na liberdade nos termos de Púchkin, uma liberdade enquanto pacto de honestidade consigo mesmo, sem esperar agradar ou ter sucesso, sem motivações propagandísticas. Considerava-se filho do seu país, preso à sua vocação,
e era livre. Era um pássaro seduzido pelo adágio que sobe das ruínas. Um artista que descobriu no seu passado o seu destino.