Crônicas
 
Um vaso de nardos e trinta moedas de prata | Glenn Gould |
Para aqueles a quem os dias são um sopro
| Depois do último dia | Quem é Leonard Cohen |
Dia do silêncio | Um mundo de nomes | Um pássaro sujo de neve |
Carta para o amigo
| Sophia de Mello Breyner Andresen
 

Ilustração de Alfredo Aquino
 

Para aqueles a quem os dias são um sopro
26/03/2011

Raramente concede entrevistas este ermitão chamado Antonio Lobo Antunes. Não vai a lançamentos, não aparece, não promove seus livros. Uma vez, convidado
a encerrar um congresso de medicina, não hesitou em frustrar as expectativas declarando que “esperar que
um escritor diga coisas interessantes é o mesmo que esperar de um acrobata que ande aos saltos mortais
na rua”. Por muito que soe antipático, e com isso prove
a outra face da fama, Lobo Antunes não participa da indústria do espetáculo por uma razão muito simples, talvez por isso mesmo incômoda, elementar feito água. Lobo Antunes não aparece porque, sendo escritor,
está a escrever. Porque o tempo é curto para o que de melhor ele tem a fazer, e está fazendo – diante do papel, não dos microfones.


Há certo escândalo em se abster do espetáculo quando vigora a lógica de que todo o tempo, por uma boa causa, pode ser negociável. Há um escândalo no sentido radical da palavra, o impedimento dessa lógica perversa que arrebata o escritor da sua mesa de trabalho para um palco, aparentemente em favor da própria literatura. É esperado que, além de escrever, o escritor fale a respeito do seu livro, e fale sedutoramente, que seja cativante, que desperte e faça durar o interesse de uma plateia, que conte um pouco sobre o seu método de trabalho, sobre como faz para pensar o que pensa e dizer o que diz. É esperado que ele dê mais do que o inefável de sua escrita, ele, que já falhou tantas vezes na vida, e falhou com tanta excelência a ponto de criar um mundo novo dentro da órbita do espanto de estar vivo; ele, que escreve desde sua solidão sem fundo, desde súplicas remotas, fazendo de suas perguntas sem resposta o seu poema, ele agora é este escritor que deve estar apto a responder, a fascinar, a surpreender, como quem volta de uma longa jornada e abre sua bagagem cheia de lembranças exóticas, histórias de além-mar, relatos de pequenas grandes peripécias por trás de suas cicatrizes, tudo isso transformado de chofre num livro vivo, numa proeza, num evento digno de aplauso, como um acontecimento que, para além dos inenarráveis fracassos pessoais que porventura alimentam a própria escrita, possa ser considerado o fato de uma conquista, a razão de um sucesso, a prova de que um livro antes escrito sem plateia e sem garantia de resposta é um livro que, afinal, merece ser lido.

Basta pensar no teor venatório da expressão “público-alvo” para ver que alguma coisa aí não faz sentido. Num auditório que reúne uma centena de pessoas com o propósito de ouvir a uma só pessoa, ali, de frente para todos, caberia a pergunta de onde está realmente o alvo. Porque, ao fim e ao cabo, num verdadeiro encontro entre o escritor e seus leitores, não há quem não saia atingido, quem não se reconheça nas mesmas antigas interrogações de um único homem que, há muito tempo, nos confins da Arábia e do país de Edom, por falta de um consolo para a angústia que sentia, não encontrou outra saída senão cantar dentro de um longo poema, e assim, cantando, perguntava por que ele era cercado por todos os lados, vigiado, tomado por alvo, posto à prova, agarrado pela orla de sua túnica, confundido com o pó e a cinza.