Crônicas
 
Um vaso de nardos e trinta moedas de prata | Glenn Gould |
Para aqueles a quem os dias são um sopro
| Depois do último dia | Quem é Leonard Cohen |
Dia do silêncio | Um mundo de nomes | Um pássaro sujo de neve |
Carta para o amigo
| Sophia de Mello Breyner Andresen
 

Ilustração de Alfredo Aquino
 

Um vaso de nardos e trinta moedas de prata
19/02/2011

Ofereça um pouco mais do que o suficiente, escreva
uma carta longa, de próprio punho, quando bastaria um bilhete, faça transbordar a taça no lugar da dose mínima, e uma sensação de desconforto irá pesar no ambiente. Não convém ser assim tão generoso. Via de regra,
as pessoas desconfiam. Como quando se pergunta
pelo preço de uma joia linda e essa joia,

sendo de graça, perversamente passa do conceito do que vale muito ao conceito do que não vale nada. Se é de graça, alguma coisa tem. Alguma coisa suspeita, sub-reptícia.

Jesus não custou trinta moedas de prata? Pois então, é a célebre alma do negócio.
Antes pecar por excesso de cautela do que se arriscar ao engano por ingenuidade.
Como disse uma vez Martin Amis, “nós já surgimos não-inocentes”. Da falta de inocência
à estranheza frente a um gesto magnânimo são poucos passos, precisamente a distância entre o irrepreensível e o reprovável. Pois não foi justamente aquele que recebeu as trinta moedas de prata que se escandalizou com Maria Madalena ungindo os pés de Jesus com uma libra de nardo puro, quando podia ter vendido o perfume por trezentos denários?
A casa recendendo a bálsamo um dia antes da Ceia e Judas indignado com tamanho desperdício.

Diga que sua mão esquerda não sabe o que faz a direita e para um desconfiado o provérbio comprova o delito. Para que seja uma dádiva, mas pareça um acidente, como
se o vaso, por azar, tivesse escorregado das mãos e só por isso os pés ungidos e a casa inteira perfumada, como se a taça transbordasse por distração, como se, afinal, não fosse tudo o que por isso mesmo não tem preço, capriche no delito: não diga nada.