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FITOESTRÓGENO: OS EFEITOS, O TEMPO E AS DOSES
A pesquisa do potencial estrogênico das isoflavonas da soja não pára de avançar desde a década de 80, quando estudos observacionais feitos no Japão revelaram os benefícios da soja na saúde das japonesas em idade de menopausa. Seria obra dessa leguminosa, parte integrante da dieta japonesa, os baixíssimo índices de câncer de mama entre as mulheres e a ausência, quase, da experiência dos calores na menopausa. Hormônios derivados de plantas atuam de forma diferenciada no organismo. Por exemplo, a genisteína, molécula da isoflavona mais parecida com o estrogênio humano, não interage com todos os receptores de estrogênio que nós temos. Sua ação é similar a de substâncias denominadas SERM, usadas como reposição por mulheres que tem contra-indicação para a TRH. SERM é uma sigla que vem do inglês e significa Selective Estrogen Receptor Modulator -- moduladores seletivos de receptor de estrógeno. As móleculas de estrogênio modificado que compõem os SERMs atuam como o hormônio em certos tecidos mas não produzem nenhum efeito em outros como a mama, por exemplo, ou a camada que reveste o útero. Não causam proliferação celular nesses lugares, e por isso não representam risco de câncer. Existem SERMs específicos para a prevenção da osteoporose, como o raloxifeno e SERMs para o tratamento de mulheres que tiveram câncer de seio, como o tamoxifeno.
Os fitoestrógenos atuam sobre os tecidos das artérias, revelam os estudos, melhoram o equilíbrio do colesterol no sangue e os sintomas de calores e suores. Talvez representem algum benefício para a pele (existem pesquisas em andamento sobre esse efeito). Mas não produzem efeito sobre os tecidos da vagina. Não revertem o processo de atrofia que se instala nessa região após a menopausa e também não representariam grande benefício para a manutenção dos ossos a longo prazo. Até prova em contrário, pelo menos. Existem centenas de estudos indicando o contrário, mas para definir o potencial de uma substância, segundo os padrões da medicina baseada em evidências científicas, seria preciso tempo de observação, de no mínimo dois anos e um número grande de pessoas avaliadas, mais de 2000. Os estudos já feitos envolvem números bem menores.
EFEITOS ESTUDADOS
Um pioneiro na pesquisa das isoflavonas, no Brasil, o ginecologista Kyung Koo Han, da Universidade Federal Paulista (Unifesp), acha que a alternativa de estrogênio traz benefício para os ossos. Kyung fez dois estudos sobre isoflavonas, a partir de 1999 que envolveram 80 mulheres de 40 a 55 anos. Um primeiro, de 16 semanas, para verificar o efeito das isoflavonas no alívio dos sintomas da menopausa. Um segundo, de dois anos, para observar a condição óssea das mulheres tratadas com o fitoestrogênio. Metade do grupo tomou doses diárias de 100 mg de isoflavonas, divididas em três vezes ao dia. A outra metade tomou placebo. Ao fim das 16 semanas, as que usaram isoflavonas tiveram 85% de redução nos sintomas medidos pelo índice de Kupperman, que mede os principais sintomas da menopausa. As que tomaram placebo tiveram 15% apenas de redução na frequência e intensidade dos principais sintomas. Ao fim de dois anos, o grupo de mulheres que tomou isoflavonas apresentava ganho de 38,2%, em média, de massa óssea, enquanto as mulheres que tomaram placebo tiveram melhoria de apenas 3,5%.
Kyung chama a atenção para uma questão delicada envolvendo a reposição com isoflavonas, que é a falta de padronização de seus componentes. Pesquisas da Embrapa informam, por exemplo, que a soja cultivada em lugares frios tem mais isoflavonas do que a planta que cresce em regiões quentes. O clima onde é cultivada a soja, a espécie utilizada e o cuidado no processamento para obtenção das isoflavonas são os principas fatores que dificultam essa padronização. As isoflavonas consumidas no Brasil são importadas, principalmente da China. Nenhuma empresa brasileira dedica-se ao processamento dos compostos. Na hora de escolher o que comprar é aconselhável verificar se o produto tem registro no Ministério da Saúde, o que significa que foi examinado pela Anvisa, a Agência de Vigilância Sanitária. Os técnicos da agência informam que o registro aparece na embalagem, na inscrição REG-MS seguida de um código numérico que sempre começa com o número 1 e contêm ou 9 ou 13 dígitos. Para melhorar os sintomas a concentração de isoflavonas deve ser de 40% e conter no mínimo 10mg de genísteina, informa Kyung. As doses diárias recomendadas variam de 90 a 150 mg dependendo da intensidade dos sintomas.
TEMPO E AS DOSES
A ginecologista Cristina Kaari acaba de defender tese de doutorado na Unifesp sobre o uso de 120mg de isoflavonas, em uma pesquisa que durou seis meses. Ela observou 79 mulheres divididas em dois grupos. Um deles tomou dois comprimidos de isoflavona de 60 mg de Soyfemme, uma marca do laboratório Aché, diariamente e o outro, um comprimido diário de estrogênios conjugados equinos Premarin, de 0,625 mg, do laboratório Wyeth. Os sintomas do climatério dos dois grupos foram avaliados de acordo com o índice de Kupperman. O grupo que tomou Premarin teve alívio de todos sintomas no primeiro mês de tratamento. As mulheres submetidas ao Soyfemme levaram dois meses para sentir o mesmo alívio.
Leva mais tempo para o efeito dos fitohormônios aparecer no organismo, duas a três vezes mais do que a TRH. A quantidade de isoflavonas recomendada para uso diário baseia-se em um cálculo sobre o consumo das populações de culturas asiáticas. Essa concentração pode ser encontrada em comprimidos e em formulações especiais de isolado protéico vendido como alimento. O departamento de ginecologia do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), estudou o Previna, um dos produtos mais antigos dessa categoria, fabricado pelo laboratório Sanavita. Segundo a professora Angela Maggio, coordenadora da pesquisa, os efeitos do suplemento foram semelhantes aos estrogênios conjugados equinos usados para comparação, depois de 16 semanas de uso. Ambos reduziram em 70% os sintomas da menopausa, de acordo com o índice de Kupperman.
As sociedades de ginecologistas especialistas em climatério não consideram os fitoestrógenos como uma alternativa de reposição hormonal. Os dados disponíveis são inadequados e não permitem confirmar o efeito das isoflavonas sobre o câncer de mama e endométrio, a massa óssea e a secura vaginal, informa o consenso da Sociedade Brasileira do Climatério (Sobrac). As sociedades européia e norte-americana têm a mesma posição, de que faltam estudos adequados para definir os efeitos dos fitoestrógenos na mulher e referendar sua indicação como alternativa à TRH. A principal preocupação dos médicos em relação aos fitoestrógenos é quanto ao uso de longo prazo e os efeitos adversos, que não são conhecidos devido a falta de estudos prolongados. A falta de evidências científicas faz com não recomendem o uso de fitoestrógenos para quem teve câncer de mama. Não há divergência nem controvérsia sobre o fato de que uma dieta rica em soja pode ser benéfica ao coração, um efeito reconhecido inclusive pelo FDA, o poderoso órgão norte-americano regulador de alimentos e medicamentos, o qual recomenda a ingestão diária de 40 gramas de soja por pessoas com problema de colesterol alto.

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