LXXX.
Probidade à prova
A certeza de que eu falo com a absoluta sinceridade os senhores poderão verificar, consultando minha conta bancaria. É um dos saldos médios mais altos deste país. Porém, mesmo sem ser moralista ou sendo apenas um moralista das quantas, às vezes acho o dinheiro tão chato (ou perturbador, não sei), que estou bastante inclinado a pagar alguém para gastar o meu por mim.
LXXIX.
Ó Tempora!
Seguindo Toynbee, fiz também minha precária avaliação da durabilidade ("mortalidade?") dos valores; o trabalho de artistas e homens de letras vive mais do que os feitos de homens de negócio, as conquistas dos soldados, as realizações de estadistas. O filósofo dura mais do que o historiador. Os profetas e os santos sobrevivem a todos.
E a perspectiva histórica - espécie de deformação, senão profissional, pelo menos psíquica de visão e projeção do pensamento, como é que fica? Pros homens comuns, homens de negócio e militares, a visão é quase a do dia a dia, com ocasional projeção para anos e décadas. Pra artistas, i.e., pintores, músicos, homens de letras, o cérebro abrange um espaço maior, gerações, mas tende a se aprofundar em sensitividade e psicologismo, e a se limitar no tempo. Já os historiadores projetam seu pensamento, naturalmente, em alguns milhares de anos. Os arqueólogos em muitos milhares de anos. Os geólogos abragem mais - milhões de anos. E os astrônomos só pensam mesmo na escala do Google e do ano-luz, ou seja, bilhões e bilhões de anos.
LXXVIII.
Cuidado, prudência, em todos os lances da vida é fundamental você saber o que está acontecendo. Por exemplo: quando você está muito mal e te levam pro CTI, você tem a mesma possibilidade de sobrevivência dum cara que vê o avião caindo e procura a saída de emergência.
LXXVII.
Em situações difíceis, e nem tanto, você poderá usar sempre estes argumentos básicos:
• Meu amigo, acho que suas conclusões são perfeitamente discutíveis.
• V.Ex. esta enganado; as estatísticas provam o contrário.
• Ora, as estatísticas não provam coisa alguma!
• Confesso que também já pensei dessa maneira.
• O senhor está sendo deliberadamente parcial.
• Bem, essa é uma maneira pessoal de ver as coisas.
• Aparentemente o senhor está certo. Mas as aparências enganam.
• Encarando as coisas desse modo chegaremos à conclusão que quisermos.
• Mas o senhor deve concordar - o seu não é um ponto de vista científico.
• Só tenho uma coisa a dizer, acho-o uma besta quadrada.
LXXVI.
Previna-se
Humilhado? O sistema, a máquina, a sociedade, o grupo de poder, ou lá que diabo seja, ou como se chame, o tem humilhado, e ultrajado muito, como ser humano e cidadão? Você não agüenta mais? Pois não agüente mesmo. Remeta imediatamente sua frustração, em papel timbrado ou fita gravada, para Palácio do Crepúsculo, perdão, Alvorada -, Brasília, D.F. (não mande e-mail que eles apagam). E aguarde sua C/C (conta corrupção) pelo reembolso postal.
LXXV.
Pode-se esganar todas as pessoas algum tempo. Pode-se engalanar algumas pessoas todo o tempo. Mas não pode engajar todas as pessoas todo o tempo.
LXXIV.
Lulinha, que é isso, garotão? Que má-criação! Sua mãe não lhe ensinou que não se trata assim os mais velhos? Nem os menos velhos? Olha, minha nona sempre me dizia: "Millôrzinho, nunca se deve xingar uma pessoa por condição humana da qual ela não tem culpa; "Velho! Capenga! Caolho!" Você só deve xingar por vícios ou defeitos adquiridos: "Cachaceiro! Mentiroso! Prefeito! Presidente!". Sábia dona Conceta di Napoli!
E, sobretudo, também não fique irritado com alguém agir em causa própria, guri. É caracerística humana. Nem todo mundo pode ser como você, e todo esse pessoal em volta, que só age em causas impróprias.
LXXIII.
Todos sabem que, ao passar da atividade, mesmo rotineira, para a inatividade absoluta, o ser humano sucumbe. Então não é melhor o sistema deixar os velhinhos trabalhando até morrer, em vez de ficarem enchendo o saco de todo mundo com essa palhaçada sinistra da aposentadoria?
LXXII.
O Clube dos Machões, de Minas, deve conceder imediatamente o título de Machão do Século ao ex-prefeito de Washington, aquele que pegou seis meses de cadeia por consumo de crak. Pois não é que, no dia de visitas à prisão, o simpático negão, já com mais de 50, foi visto praticando (sendo praticado) felácio (boquete ou chupetinha, em português castiço) num canto da sala de recepção? A coisa foi vista por mais de vinte visitantes devidamente escandalizados (sem falar que possivelmente invejosos). Como diria Niquita, minha amiguinha portenha, de 10 anos: "Me gusta por lo discretito, mamita."
LXXI.
I. Devemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles estaríamos até hoje falando tupi-guarani, uma língua que não entendemos.
II. Está bem, lingüistas, se dois é ambos, porque três não é trambos?
III. O “pois sim” e o “pois não” deveriam ser estudados profundamente por nossos políticos devido à louvável pecularidade de significarem exatamente o contrário do que dizem. Ou não.
LXX.
É preciso ter conhecidos que só conhecemos porque os vemos ao vivo, caras particulares, que nunca aparecem ou aparecerão nos meios eletrônicos de comunicação, em busca de popularidade, essa suprema vulgaridade.
LXVIX.
Durante muito, muito tempo, nós todos, milhões de brasileiros tentamos civicamente, esforçadamente, ungidos em fé cívica, entender o que eles diziam no plenário, nas comissões e, sobretudo, nas mordomias. Ninguém, nenhum de nós, confessemos, conseguiu pescar bulufas do que tanto se transava na assim chamada Assembléia dos Eleitos da Nação. Mas, vimos, nem era pra. Esforçávamo-nos, inutilmente, pra ouvir e entender um Diálogo de Surdos com absurdos.
LXVIII.
Aviso a meus seguidores
Se, de vez em quando, o leite azeda por aí, não tenho nada com isso; a vaca não é minha. Escolham melhor na próxima vez.
LXVII.
Inflação? Afinal, o que é inflação? Bem! A carne anda cara: você deixa de comer carne. A fruta anda cara: você deixa de comer fruta. O legume anda caro; você deixa de comer legume. Aí só lhe resta comer macarrão todos os dias, porque massa ainda é uma comida barata. Um mês depois, você vai fechar a calça e vê que ela não fecha mais. Inflação é isso.
LXVI.
Estatuto da terra
Renovo e reitero (em épocas de MSTs e vanguardas do atraso)
I. Em nenhum caso poderão ser desapropriadas terras com menos de 200 milhões de quilômetros quadrados, a fim de evitar o minifúndio, que seria fatalmente ocupado pelos diminutos japoneses que o Japão vem produzindo especialmente com esse fito.
II. Serão totalmente desapropriadas as conversas terra-a-terra.
III. Certas regiões especialmente ricas em minérios continuarão em poder de seus atuais donos multinacionais. Mas o povo brasileiro poderá considerá-las Terras Prometidas.
IV. As terras indígenas ficarão apenas com aumentos progressivos dos impostos, proporcionais aos valores folclóricos das ditas Terras.
V. Não pagarão impostos: a) a terra de Siena; b) a terra-mãe; c) a terra que se junta aos montes enormes nas obras publicas, demolições e deslizes dos morros; d) crises políticas aterradoras.
VI. Os proprietários de terras aguadas e pantanosas estarão isentos de impostos sobre a terra, pagando-os apenas sobre a lama, cobras, sapos e lagartos.
VII. Em nenhum caso, o gravame impostal poderá exceder 3.700 vezes o valor da terra. A avaliação será feita por pessoas de reconhecido gabarito moral e alto conhecimento técnico, como por exemplo, advogados encarregados de aposentadorias, inspetores do Detran em causa própria, e cassados por corrupção com seus direitos plenamente garantidos pela falta de provas.
VIII. Os trabalhadores que ocultarem alguns quilômetros quadrados de terra com o fim de iludir o fisco e seus fiscais, serão considerados inidôneos pra usufruir verbas da reforma agrária. O mesmo acontecerá aos que não souberem explicar o que é agrária.
IX. Todas as terras devolutas serão distribuídas nos grandes centros urbanos, que è onde mais falta terra
X. Até a promulgação deste ato, não se aceitam aterros.
LXV.
A medicina fez gigantescos progressos nos últimos duzentos anos. Antigamente, a qualquer mal do paciente, fazia-se uma sangria. Hoje faz-se uma transfusão de sangue. Mas isso também deu aos médicos a prepotência de deuses.
Lembramos apenas um lamentável erro médico há tantos! em que essa prepotência teve conseqüências lamentáveis na vida do país. Vocês ainda devem estar lembrados de quando, no século passado, Tancredo Neves, o candidato eleito pela oposição ao regimem militar, ia tomar posse. Deu um treco lá nele e chamaram os médicos do Hospital de Base de Brasília. Opera aqui, opera ali, discute daqui, discute dali, corta aqui, emenda acolá, elegeram o Sarney. Deu no que deu.
LXIV.
Análise
Durante anos fiz, na revista O CRUZEIRO (*), uma seção chamada Aprenda a ver as coisas, com criptos gráficos, imagens figurativas disfarçadas de modo que seja difícil, ou impossível, identificá-las. Quando o significado é identificado, descoberto, a sensação é "estética" e... engraçada. Por quê? Não procurem explicação em Freud, nunca vi ninguém que entendesse menos de humor. Ou em O Riso, de Bérgson: também passa longe do fenômeno. Nem esperem que eu explique nada, humor é inexplicável.
(*) Revista semanal extremamente popular no Brasil. Circulou de 83 A.C a 21 D.C.
LXIII.
É impossível explicar as preferências humanas. Embora confeccionados com materiais absolutamente idênticos,e ambos lindíssimos (ninguém é capaz de dizer qual dos dois é mais belo),o pôr-do-sol sempre teve, e tem, muito mais público do que o nascer-do-sol.
Observação: Ora, Millôr, o pôr-do-sol é muito mais machista.
LXII.
Não adianta, sempre resta uma hierarquia e uma divisão de classes, mesmo entre os que levam uma vida de cachorro.
LXI.
Primeiro a religião prometeu o céu longínquo, sem jamais dizer onde ou quando. Depois apareceu o comunismo e pregou uma solução também bem distante; quando tudo fosse mais, e mais bem produzido, e seria mais bem repartido. Mas só mesmo quando surgiu a televisão e criou a sociedade de consumo, garantindo a felicidade colorida e fácil aqui mesmo na loja da esquina, foi que o pessoal entendeu. E começaram os assaltos e seqüestros, com a distribuição social imediata.
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