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V

C.
É impossível explicar as preferências humanas. Embora confeccionados com materiais absolutamente idênticos e, ambos, lindíssimos (ninguém é capaz de dizer qual dos dois é mais belo), o pôr-do-sol sempre teve muito mais público do que o nascer-do-sol.
E, além disso, o pôr-do-sol é muito mais machista!

XCIX.
Ponto facultativo é um dos mais antigos e sólidos exemplos da hipocrisia burocrática.

XCVIII.
Dizem que quando o Criador criou o homem, os animais todos em volta não caíram na gargalhada apenas por uma questão de respeito.

XCVII.
ARGUMENTOS BASICOS PARA VOCÊ ENCARAR UM DILEMA DE FORMA HUMANA.

1. Meu amigo, acho que suas conclusões são perfeitamente discutíveis.
2. V.Ex. está enganado; as estatísticas provam exatamente o contrário.
3. Ora, as estatísticas não provam coisa alguma!
4. Confesso que também já pensei dessa maneira.
5. O senhor está sendo deliberadamente parcial.
6. Bem, isso é uma maneira pessoal de ver as coisas.
7. Aparentemente o senhor está certo. Mas as aparências enganam.
8. Encarando as coisas desse modo chegaremos à conclusão que quisermos.
9. Mas estã claro que esse não é um ponto de vista científico.
10. Só para encerrarmos a discussão: acho-o uma besta quadrada.

XCVI.
Quando os matemáticos-filósofos gregos descobriram que 2 não é um número racional, celebraram a descoberta com uma hecatombe, a morte de cem bois.

XCV.
Explicativa
Como sei que alguns leitores ficam, às vezes, perplexos, chegando quase a fundir a cuca, em busca de uma piada qualquer nas notas que escrevo nesta página (internet é página?), esclareço que devem continuar procurando. A gente acaba sempre encontrando o que procura, como me dizia noutro dia um desses guardas de trânsito que estão sempre a fim, e param todo mundo no meio da rua, pedem a carteira e começam a ameaçar até que... (Me entenderam, detrans da vida?).
Mas, como eu ia explicando quando fui interrompido pelo guarda, o fato é que, de minha parte, eu nunca disse a ninguém que eu era um humorista. Eu sou, mas quando bem entendo. Eu sou, a maior parte das vezes. Mas não me obrigo a fazer gracinhas pra ninguém. Mesmo porque, quem se obriga acaba sempre, um dia, ouvindo aquela: "Hi, olha ele aí." Acho que o público tem discernimento bastante para não me exigir um rótulo. Um homem é um ser que oscila permanentemente. E eu quero que estas notas mostrem exatamente essas variações num carioca devidamente deformado pela sua cidade. Assim, quem lê, tem que saber por si mesmo, quando uma história é inventada, quando é séria, quando uma fotografia é verdadeira, quando é montada. A foto do meu batismo no Rio Jordão , por exemplo, é absolutamente autêntica. Se eu conseguir que os meus 18 leitores consigam separar a verdade da mentira sem o auxílio de ninguém, terei ajudado imensamente o país em sua marcha em direção à Grande Democracia. Pois a verdade é que os políticos nunca avisam quando estão chutando. Porque estão sempre.

XCIV.
Antigamente se falava , com total convicção: “O que é do homem o bicho não come”. O pessoal todo ainda estava no armário.

XCIII.
“Pérolas aos porcos” é expressão depreciativa. Exceto no Planalto, onde os porcos adoram pérolas.

XCII.
É a eterna istória de só darmos valor ao que vem de fora. A toda hora os jornais se enchem de artigos louvando como fantásticas as previsões de Sibila, Tirésias, Nostradamus e que tais, todos, afinal, estrangeiros. E no entanto ninguém se lembra do nosso genial profeta, o maior cronista do país, Rubem Braga, que há mais de trinta anos lançou sobre o bairro mais famoso do Brasil o seu anátema terrível: "AIDS TI, COPACABANA!"

XCI.
Palavras, palavras, palavras
Ser ou não ser (FRESCO?)

Nunca entendi bem o porquê da prolongada indecisão do Príncipe da Dinamarca ( o Hamlet, esse mesmo) diante de seu problema existencial. Só a necessidade da peça durar três ou quatro horas, enquanto a patuléia ria, berrava, comia e brigava (exatamente como a galera faz hoje nos xous de
roque), pode explicar o fato.

"Ser ou não ser", ora, ora. Quando há uma indecisão dessas, meu Príncipe, a coisa se resolve mais facilmente na Cara ou Coroa. Cara, a gente mata o tio. Coroa, a gente mata a própria mãe. Se a moeda cair em pé (o Lula consegue), a gente mata os dois. De qualquer forma a solução é imediata, sem os intermináveis florilégios:

"Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando, e o achincalhe que o mérito recebe dos inúteis, podendo ele próprio encontrar seu repouso com um simples punhal?"

XC.
Se você está apavorado com tanta violência, é bom prestar mais atenção: a maior violência não anda armada.

LXXXIX.
O Brasil ainda é os Estados Unidos de que eu mais gosto.

LXXXVIII.
Vou andando, como sempre, de vez em quando corro um pouco, o mar à direita, a cidade à esquerda. A areia está dura, seu contato com os pés é um prazer sem igual. Penso, na fluidez do que quase não chega a pensamento: "Sou um homem de praia. Não sou um homem de mar. Vivi toda a minha vida à beira do mar, na praia. Pra mim o mar podia acabar logo ali, na linha do horizonte".

LXXXVII.
Todos sabem - os poucos que sabem - que sou grande admirador da tecnologia. Mas o progresso é sempre melhor? Sempre? Todo dia a gente vê desastres. Terríveis acidentes aéreos, engavetamento de trens, batida coletiva de automóveis. Você alguma vez ouviu falar de algum acidente com os maravilhosos meios de transporte do passado - soube da queda de algum tapete voador, de alguma batida de vassouras de bruxas, de algum enguiço de botas de sete léguas?

LXXXVI.
Minha homenagem, mais uma vez, a São Sebastião, padroeiro desta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Homenagem pequena, mas eu não poderia deixar de fazê-la mais uma vez. Hoje não existe nada de tão representativo do Rio quanto esse São Sebastião todo esburacado. Mas, ao contrário do que pensa a maioria dos devotos, São Sebastião sobreviveu aos buracos ordenados pelo administrador de Roma, Diocleciano. E Diocleciano teve que mandar abatê-lo a pauladas. O Rio não perde por esperar.

LXXXV.
A cada sol que surge, novos e mais novos sinais aparecem de mudanças dos tempos clima & sucessão de horas. Enquanto o frio desagradável que nos assolou (tem sol aí no meio!) vai se dissipando e o ar brilhante da primavera vai penetrando a atmosfera, os ratos de esgoto se tornam mais visíveis, alcatéias de pulhas saem dos ralos e, sobretudo na calada da noite, ouve-se os guinchos e uivos das milícias solertes sentindo seus tugúrios ameaçados pelo calor que aumenta. De vez em quando, insustentáveis, caem do alto alguns gambás não conseguindo mais se sustentar nos galhos e cipós autárquicos. Ao mesmo tempo, alguns raros talentos-malversados são vistos bêbados e cegos pela luz que ameaça despontar. Na saída do túnel vendem-se ainda (forma reflexiva, eles se vendem) muitos sibaritas tediosos da última temporada. Mas há também muita vida antiga preservada no último andar, sobretudo no sótão; gerentes hemiplégicos recebem para derradeira tentativa os vetustos safados. Mas uma janela bate, se abre, e deixa entrar uma lufada (êpa! Nada de Maluf!) de ar fresco, inoculando pneumonia e bronquite nesses remanescentes amigos do peito. Não é necessário ter narinas muito apuradas pra perceber que vai ser tarefa de Hércules livrar toda a área do fedor terrível deixado pelos superexecutivos, vigas, forros, degraus, revestimentos, quase tudo está podre nesta nossa Dinamarca.

LXXXIV.
Proverbial: tanto é verdade que o dinheiro pode tudo que uma pequena moeda, a menor moeda do fabulário econômico, colocada junto ao olho, esconde a luz do sol.

LXXXIII.
Estamos, de novo, fazendo um gigantesco esforço pra desapurar tudo que já desapuramos há muito tempo, quem está com o bilhão e quem é sócio do bilhão. Parece que desta ninguém escapa, estão envolvendo até o Presidente. E todo o país respira aliviado. O Brasil vira mais uma página de sua História?

PS: A interrogação que botamos na frase é pra não exagerar no otimismo. Mas resolvemos dar a eles o benefício da dúvida, perdão da dívida!

LXXXII.
Fiquem tranqüilas as autoridades. No Brasil jamais vai haverá epidemia de cólera. Nosso povo morre é de passividade.

LXXXI.
Lula sabe, Lula é um estudioso da mitologia grega. Daí sua popularidade. Aprendeu com os deuses do Olimpo que pode cruzar mil burros brancos com mil mulas pretas que não dá zebra.

sobe
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