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Ano 04 • nº 07 • Fevereiro 2004

Veja os outros anos
O "outro lado" de Dom Casmurro
“O desconfiado ainda é vivo” do populário
 
por Millôr Fernandes

Quando se fala cada vez mais de Machado de Assis, a pretexto do cinema, permito-me, com o desrespeito que Deus me deu (inclusive em relação a Ele próprio) falar do Bruxo. Como não sou dos maiores e nem mesmo dos menores admiradores do fundador da Academia Brasileira de Letras (“a
Glória que fica, eleva, honra e consola”, eu, hein?) não vou discutir a maciça, impenetrável, inexpugnável web que se criou em torno dele. Nem polemizar com a desconfiança que os maiores erúditos (com acento no ú, por favor) e curiosos têm pra relação equívoca entre Capitu, a “dos olhos de ressaca” (que Machado não explica se era ressaca do mar ou de um porre) e Escobar, o mais íntimo amigo de Bentinho, narrador e personagem principal do livro.

Essa desconfiança vem desde 1900, quando Machado de Assis publicou Dom Casmurro. Afinal Capitu deu ou não deu pro Escobar? Dom Casmurro é ou não é corno, palavra cujo sentido de infâmia - ainda mantendo bastante de sua força nesta época de total permissividade - na época de Machado era motivo de crime passional, “justa defesa da honra”, e outros desagravos permitidos pela legislação e pelos costumes. A palavra corno era tão infamante que mesmo o sangue não lavava honra nenhuma. O cara era corno e, lavasse ou não lavasse o brio dos seus chifres com todos os sabões e explicações, o universo dos olhares convergia, pelo menos ele assim sentia, pra sua infamada testa .

Curioso que, ontem como hoje, o epíteto corna não se grudou às mulheres. Ela é tola, idiota, “não sei como suporta isso!”, “corneia ele também!”, mas o epíteto não colou. Mas Dom Casmurro sofre da dor específica umas 50 páginas do romance, envenenado pela hipótese da infidelidade da mulher.

Eu, porém, ao contrário dos erúditos, não tenho hipótese. Capitu deu pra Escobar. O narrador da história, Bentinho/Machado, só não coloca até o DNA de seu (do Escobar, claro) filho porque ainda não havia DNA, que atualmente está acabando com o romance “policial” e a novela passional.

Mas Bentinho/Machado fica humilhado, desesperado mesmo, à proporção em que o filho vai crescendo e mostrando olhos, mãos, gestos e tudo o mais do amigo, agora morto. Bentinho chega a chamar Escobar de comborço (parceiro na cama conjugal).

Essa é a intriga principal do livro. Mas, curiosamente, pela nossa eterna pruderie intelectual, ainda ridiculamente forte com relação a outro tipo de relação, a homo, nunca vi ninguém falar nada das intimidades entre Bentinho e Escobar. É verdade que, na época, Oscar Wilde estava em cana por causa do pecado “que não ousa dizer seu nome”.

Mas, olhe, não estou afirmando nada. Leiam estes destaques (da edição da Editora Nova Aguilar), que colhi no original, e julguem. Quem fala é Bentinho/Machado.


(pág. 868)
Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.

(mesma página)
Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro... Não sei o que era a minha. Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou....(pág. 876)
Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar mais que os rapazes e os padres.(pág. 883)
Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa... mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado.(mesma página)
Fui levá-lo à porta... Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.(mesma página)
Capitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.
- É o Escobar, disse eu.(pág. 887)
- Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração...
- Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça... Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.(pág. 899)
Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se não me visse desde longos meses.
- Você janta comigo, Escobar?
- Vim para isto mesmo.(pág. 900)
Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo.(pág. 901)
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão: um padre que estava com eles não gostou...(pág.902)
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos.(pág. 913)
Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.(pág. 914)
A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar ao ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força.

(pág.925/26)
(Depois da morte de Escobar)
Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória, escrita embaixo, não nas costas do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70”.


Mas, pros que ainda tenham qualquer dúvida, reservei para o fim a moral da história de Bentinho/Machado, a cena e a frase conclusivas. Está na página 845 do fúlgido romance.

Bentinho, ele próprio, ficou pasmo com seu feito de bravura, quando conseguiu dar um beijo (na verdade apenas uma bicota) em Capitu. É ele próprio quem fala, cheio de entusiasmo, na página 845:

“De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho: - Sou Homem!”

 
sobe
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