Legalizemos
a banana
A
banana justifica a casca que a envolve ou a
casca é que explica a banana?
Nua, a banana sem casca nos remete ao que fazer
com a casca da banana. Como se sabe, as bananeiras,
por ficarem ao sol e ao relento, dão
bananas. A carne do caule é macia e propiciatória
nas tardes estivais, quando todas as bananas
crescem. A casca, feita de ouro, e ocasionalmente
decorada com sardas de senectude frutífera,
não é comestível, mas é
tragável.
Raspa-se cuidadosamente, expõe-se ao
sol durante vago tempo e, uma vez curtida, oferece
os prazeres de um estranho PalI Mall: "Kiss
me. Kiss me. Kiss me, baby".
A banana, antes de deglutir, é apreciá-la.
Odor tem pouco. Como convém. Só
para apreciadores dos quase-não-odores.
Cheira a longe. Ao que poderia ter sido e que
não foi.
Mesmo podre não tem cheiro de podre.
Limpa, clara, macia, tem gosto de banana. Cortada
em fatias, posta ao fogo brando, envolvida em
azul de álcool, queimada até ficar
morena, pulverizada com açúcar
e canela, vira banana frita. Com calda, porém,
é só banana em calda.
A casca bem que poderia ter um zíper
e ser mais prática. Mas já é
a mais prática das frutas, a banana tão
prática. Uma cabe na palma da mão.
E dá; em cachos. Às vezes minhon,
pequena e arredondada, fresca, ela é
banana-ouro, maior é banana-d'água,
quando não exige cuidados especiais para
ser degustada, banana-da-terra.
Dá em árvores baixas, a banana,
e a árvore se chama, condizentemente,
bananeira. Pois ninguém admitiria uma
banana em outro pé que não uma
bananeira. E, por ser baixa, a bananeira põe
seus frutos à disposição
de quem os quer, ninguém precisa trepar
nela.
As folhas da bananeira abanam como orelhas de
elefante, embora os elefantes, no Brasil, estejam
todos no jardim zoológico, onde só
os macacos comem bananas. Sei lá. A casca
serve ainda ao escorregão na casca de
banana. Ao envelhecer, a banana vai ficando
parda e, vendo isso, os passarinhos a bicam,
ela vira borboleta amarela, mas ainda vive de
três a quatro horas, naquela bananosa.
Em Jacarepaguá existe um cemitério
só de bananas. Foi fundado em 1833 pelo
padre negro, do Zaire, Regias Amintas, que trouxe
para o Brasil a manga-espada, a fruta-de-conde
e o aipim-manteiga. A banana não foi
ele quem trouxe.