O
nosso trompe

Trompe-l'oeil,
engana olho, em francês. Pintura tão
realística que parece tridimensional,
a verdade. Trompa mesmo, engana. No
século XVII, os holandeses, donos da
pintura na época, praticavam isso muito.
A técnica, claro, já era moda
na pintura da Renascença, o que é
que não?, quando uma porta era tão
bem pintada que levava todo mundo a querer abri-la,
um papel dobrado levava à tentação
de desdobrá-lo e uma mosca sobre um vidro
trazia a necessidade de enxotá-la. Os
franceses, que criaram a expressão trompe-l'oeil,
levaram o trompe à saturação.
E o que já não era considerado
arte passou a ser considerado vulgar. Pois,
afirmam os afirmativos, para que uma pintura
seja arte deve haver nela alguma forma de intervenção
humana, que afaste a obra da cópia servil.
Mas quem se trompa, realmente? A lenda
de que os pássaros bicavam as uvas pintadas
por Zeuxis ou a que garantia um cavalo querer
cruzar com a égua pintada por Apelles
devem ser engolidas com a famosa pitada de sal
ático, que, aliás, já ninguém
sabe o que é. Fazer com que a gente ingenuamente
veja o que não está vendo, acredite
no inacreditável, é coisa de mágico
de teatro e de circo.
Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca
ouviu falar do trompe-l'oeil, faz isso
sem saber. Mas não trompa só o
olho, trompa também ouvido e
olfato. É o otolaringologista da trompiação.
Porém, primitivo como em tudo, faz apenas
como os desprezíveis artistas populares
que, na França, pintavam seus trompes
nos muros das ruas. Só se trompa quem
quer se trompar.