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São Paulo
Centro de Medicina Diagnóstica Fleury
"Queda e Ascensão" (42m2)

Veja Fotos


Millôr Fernandes diante de seu mural em São Paulo


MEMÓRIA PARA O MURAL DO FLEURY -
CENTRO DE MEDICINA DIAGNÓSTICA.

(Rua Gal. Waldomiro de Lima, 508 - Jabaquara - São Paulo-SP)

Millôr Fernandes

No contravisto do caminho, Capuchinho Purpúreo ia à frente, a com légua de andada, no desmedo da floresta.O bornoz estornava demasias de gula, carnalidades, guleimas, bebeiras e pitanças pra boca de pessoa, a vó, sem nem aviso antes. Sente o muito bicho retardar, ponderado. Hora de poder água beber, esses escondidos. Por ali sucuri geme. O céu embola no brilho de estrelas, cabeça de Chapeuzinho vai que esbarra nelas. É um escurão que peia e pega. Dali vindo, um senhor Lobo, na frente da boca todos os demais dentes de caso quisesse.

- Se é, sê, linda menina, que parece dispor de muita virtude na pressa desse aonde.
- Nada, nada vezes – disse, e pensou Capuchinho, deve ser o Incapacitado, no irreconhecível do demônio. E nem indagou nonada, mas Lobo no após, santificado de maldade, ensoou que só estava na busca \do significante de sua indagação. Consoante falou soez, amiudado, com propósito de voz.Capuchinho arrenegou e, suspendida no fôlego, atravessou o Pardo e o Acari, pela Vereda do Alegre, no célere do pressentido. O lobo, coração quejando nas esquerdas foi pelo Piratinga, que é fundo, mas subindo beira desse, se passava. Chegou em inhantes, não muitos, com tempo de assinalar à vó outros caminhos, só você entende, compadre Quelemém, e se botou, assim deitado coberto, na espera que o que viesse vinha – o que não é de Deus, é estado do Demônio.Capuchinho foi chegando, mostrou papanças e pitanças, salivas de goelas, bocas e queixadas, e daí deu-se ver na vó sinais discordes.

- A ser, avó querida, no desarranjo da forma, sem falar feieza, suas orelhas desmandam.O velho lobo, no entendido da hora disse que na velhice os sons se vão-se e a orelha sai em busca, o nariz dá no mesmo de comprido tentando tragar cheiro esfugido. E que os dentes vão crescendo pro Vups, que ele deu logo na garganta da carótida salutar da carne doce doçura.E pois, pelos entretantos, dito Zé Bebelo, provedor da estúrdia forca de enforcar no morrote de São Simão do Bá, se apareceu, ele mesmo em sua pessoa, de laço e baraço devido restante enforcamento. Capuchinho, agora pois, no choro. Nem todo mundo carece, mas tem os que. No mais, nada. O que termina acaba.Viver é muito perigoso, compadre meu Quelemém.Mas vamos ao feito como foi feito.Naturalmente, dada a personalidade profissional e artística do autor, o mural não poderia ser abstrato, forma fácil de escamotear a extrema dificuldade atual de realizar um figurativo expressivo e, ai!, muderno. Mas tomamos esse caminho.Figurativo - o diabo do figurativo, atualmente maldito, é que ele é reconhecível no significado, e pouca gente tem o que significar. Por outro lado, é evidente que o figurativo fantástico assimila, absorve e critica todas as tendências plásticas dos últimos 100 anos. Nossos colegas de ofício, genericamente chamados de humoristas, são mestres nessa apropriação.E, em se tratando de um mural, digamos, íntimo, ao qual as pessoas terão acesso muitas vezes, até várias vezes diariamente, é fundamental que a idéia seja apreensível logo, mas sem excessiva facilidade, e seja suscetível de novas interpretações a cada vez que as pessoas vêem o mural. O conjunto, esteticamente, tem que ter a mesma atração que teria um "abstrato", cuja função, porém, se esgota aí. Como uma bela cortina ou um reposteiro.
A idéia, aqui concebida e executada, da inversão de valores, onde os pássaros estão presos ao dia-a-dia do chão, e os seres humanos aparecem libertos da gravidade, atrai logo pela estranheza e ultrapassa a "anedota". Espero, imodestamente, que atinja um pouco o metafísico do "Que raios do céu ele quer dizer com isso?".

Pois é; o que aconteceu nesse mundo que não previmos nem na mais louca ficção científica? Por que os pássaros decaíram tanto a ponto de estarem presos, amarrados, escravizados às funções pedestres que eram só dos seres humanos? Terão perdido definitivamente sua capacidade de neutralizar a gravidade, e de voar, essa mágica que sempre dominaram para inveja dos mortais bípedes?
Nunca saberemos porque o quadro apanha os pássaros num momento em que a hipótese de voar já lhes parece natural e definitivamente vedada.Enquanto isso os seres humanos voam, pairam, flanam. E, isso conquistado, conquistaram como conseqüência, vê-se, tudo que era natural nas aves, até o despojarem-se de vestimentas, já que a facilidade de deslocamento as faz desnecessárias, não mais incumbentes (!).O mural pretende também criar um pouco do que hoje se chama de interação, pois as pessoas, sobretudo as de mentes menos poluídas por excesso de informação, tenderão a comentar as figuras e o que elas fazem, tirando conclusões que nem imagino quais serão. Possivelmente estapafúrdias, ou seja, admiráveis.
A proporção do mural, com um terço da largura reservado para uma passagem corredor, permitindo acesso a outras áreas do edifício, trouxe especial dificuldade de execução. A base, bem menor do que o topo do espaço, obrigou-nos à concentração de figuras na parte de baixo. O que, me parece, foi solucionado pela própria temática. O céu, personagem quase em branco, traz naturalmente a sensação de amplitude.
O corredor sugeriu a idéia de pintar figuras também nele. Um ou mais pássaros em sua atividade humana, caminhando em direção à abertura. Quem venha pela primeira vez na direção da abertura terá uma divertida visão ao perceber que os pássaros do corredor fazem parte de um grupo maior, a céu aberto.É só pelo momento.Não, não é só. Como o mecenas, vale dizer, o Laboratório, em nosso contato para a confecção do trabalho, surpreendeu-nos com a sensibilidade de dizer que não pretendia sugerir nada institucional, ou seja, a figura do Laboratório Fleury não estava em jogo na criação do mural, ao executar este tentamos devolver a sutileza. O nome do Laboratório aparece, e bem nítido, na fachada do prédio ao fundo. Porém devidamente criptografado.

Mas vamos facilitar. Qualquer usuário de computação, consultando a lista de alfabetos do Windows, descobrirá logo a chave do enigma, podendo, a partir daí, reescrever o nome Fleury em qualquer tipo usual.Ah, na lata de tinta, o letreiro sujo também diz Fleury.Esperando que o respeitável público nos aplauda pela despretensão e nos critique pela pretensão, pedimos-lhe que volte e traga outras gerações. Mas isso só com o passar dos anos.M.F.PS. O desenho-pintura básico foi feito executado sobre papel-cartão Crescent, de 2,5 milímetros de espessura, não com a intenção de tornar o trabalho mais apresentável ou duradouro, mas apenas para tornar mais difícil aos executores e assessores se desfazerem dele.

Execução final do mural.

Artístas Plásticos:

Renato Brancatelli, Damara Bianconi, Susie Hervatin.

Colaboração:

Professora Sônia Maria Tosatti Rosa

Pintores da base:
Antônio Pinheiro Torres, Cosme José de Araujo, Antônio Carlos de Souza.

Produção e coordenação:
Rodolfo Felipe Neder.

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