CUIDADO, PAINEL À VISTA!
Há três anos, convidado gentil e insistentemente pelo Secretário de Obras da Prefeitura do Rio pra criar painel para a praça Sarah Kubitschek, recusei com a mesma insistência, por me achar absolutamente incompetente. Mas, acuado por alguns amigos - arquitetos e artistas gráficos - com o argumento definitivo de que, se fosse depender de competência em qualquer setor, eu já teria morrido de fome, apresentei o projeto do painel, só agora em ritmo de realização (a burocracia acaba vítima de si própria). Oportunidade para publicarmos a Memória do trabalho (e fazer painel é trabalho, Millôr?). Aqui vai.
MEMÓRIA
(Memória "Dissertação sobre assunto científico, literário ou artístico, para ser apresentada a governo, corporação, academia, etc." Dos dicionários.) Minha idéia do painel é que ele não poderia ser abstrato. Primeiro porque sou tudo, menos "abstrato". E, no caso presente, o painel teria que representar, óbvio, alguma coisa referente ao Rio. Sendo em Copacabana, preferivelmente alguma coisa referente a Copacabana. E, dificuldade maior, por que não referente ao próprio local? Pensando bem (dói um pouco), tomei como assunto o frescobol, de cuja criação me orgulho de ter participado, jogando com as primeiras bolas e raquetes (estas pesavam uma tonelada) que apareceram no Posto 4, no início dos anos 50. Atleta por vocação (não tenho nada a ver com intelequitoal), o Frescobol foi um esporte que cheguei a jogar bastante bem. Esporte maravilhoso, praticado à beira mar - os participantes quase nus - de tempo em tempo interrompido por um mergulho refrescante, o Frescobol é elegante e dinâmico o tempo todo, beneficiando-se ainda da sorte inaudita de nunca nenhum idiota ter tido a idéia de lhe traçar normas, aferir pontos - permanece até hoje uma atividade pura. Há competição, mas não formalizada, pontificada. Não há vencidos nem vencedores. Portanto sem possibilidade de violência. Segue meu princípio; "O importante é nem competir.", diferente do conceito hipócrita do Conde de Coubertin: "O importante é competir." Em 1961, ambos viciados, addicts, do esporte, o colecionador Gilberto Chateaubriand e eu tentamos introduzi-lo no Egito, adentrando o gramado de um clube granfino do Cairo e jogando frescobol durante meia hora. O Nasser ficou boquiaberto com aquela invenção, que desde então passou a chamar de terceiro mundo. O terceiro mundo não colou, o esporte sim. Deixei de jogar Frescobol quando a polícia começou a perseguí-lo. Briguei algumas vezes e, como tive que correr pra não apanhar, passei a correr. Agora algumas vezes apenas ando, mas logo desisto e começo a correr, porque, se ando, a moçada comenta, me vendo passar: "Puxa, ele ainda anda!" Assim, o quadro-painel ficou sendo um jogo de Frescobol entre um homem e uma mulher - o homem em princípio seria negro, para agradar ao "politicamente correto", mas não deu certo porque as figuras deveriam ser vazadas (preto - a tinta!, a tinta!- não vaza) para maior leveza, seguindo uma série que fiz há muito tempo (páginas 152, 153, 154, 155, 156, 157, 158, 159, 160, 161 e 192 de meu livro DESENHOS. Ed.Raizes) e que chamei de Persoas. Forma antiga de Pessoa, professor Niskier (Millôr é cultura). Desloquei ligeiramente o sol e a bola do centro do quadro, para emprestar dinâmica, movimento à bola. Esta deverá ter por trás uma iluminação que a torne discretamente brilhante. Á noite se tornaria, tornar-se-ia, um pouco mais brilhante, acrescentando mistério ao painel. Poder-se-ia (êpa, Millôr, outra mesóclise?) também estudar a iluminação do sol. Nesse caso o sol ficaria iluminado (não muito forte) das 6 AM até 6 PM e a bola (a lua? Sei lá) das 6 PM às 6 AM. O painel terá um dístico explicativo (no Brasil a gente não pode ser demasiado sutil e quando se é irônico deve-se acrescentar entre parênteses - ironia!), com palavras absolutamente precisas, nenhuma palavra a mais do que o necessário.