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Amor com Amor se Paga (1)
Morria
o dia e Ismael morria. Sob a colcha de linho, tiritava
seu corpo ainda relativamente moço, corpo, aliás,
de homem cuja vida não fora das mais operosas. A esposa,
a seu lado, ainda moça também, assistia-o em seu transe
derradeiro. Ismael morria. E Isaura assistia. E, no
pungir da morte, Ismael confessou:
- Isaura, meu amor, quero morrer com a consciência
límpida. Na hora grave e treda em que parto desse
mundo, devo levar a alma leve pra iniciar outra existência
sem o peso desta (2). Confesso que errei muito em
minha relação com você. Nem sempre fui verdadeiro,
nem sempre fui fiel. Mas, para não tirar da minha
consciência os dias e as vezes em que pequei ou errei,
coloquei um saquinho dentro do armário de roupa, lá
em baixo, onde guardo os sapatos velhos. Nesse saquinho
você encontrará tantas moedas de mil, mil réis, mil
cruzeiros, mil cruzados, mil reais ah, nosso dinheiro
muda tanto! quantos foram meus erros e pecados (3).
Não abra o saquinho antes da minha morte (4). Só depois,
só depois...
Dizendo isso, Ismael desmaiou. Desmaiou e reviveu.
A morte poupo-o, a vida convidou-o para novas aventuras
e ele mudou as moedas de saquinho, e o saquinho de
lugar. E o tempo passou (5). E veio então a vez da
mulher cair doente, pois aos cônjuges o destino reserva
sempre alternação nas moléstias, para que possam repartir,
e ocasionalmente, como interessa à nossa fábula, lealdades
e sacrifícios. Os médicos examinaram cuidadosamente
Isaura e concluíram que não era nada grave. Consequentemente
(ah, os esculápios!) ela começou a dar sinais de que
não ia durar muito. Sentindo a morte, chamou Ismael,
o marido, e disse:
-Ismael, naquele dia, gravemente enfermo, você teve
a coragem de me confessar que tinha errado. Chorei.
Mas, quando você pensava que eu chorava ferida por
seus erros, na verdade eu chorava ferida pelos meus.
De remorso por não poder também contar meus pecados,
na hora em que você partia para sempre (6). Se você
não podia levar para outro mundo a manchas de suas
faltas, como dizer-lhe naquele momento que mais pecadora
era eu, amargurando o coração moribundo que se mostrava
tão nobre?(7) Agora, porém, quando é meu fim que se
aproxima, eu lhe digo:
-Se eu morrer, como é quase certo, você vai naquele
latão na cozinha, onde está escrita a palavra Milho.
Nessa lata eu pus um grão de feijão por cada erro
que cometi em relação a você. Mas só abra depois que
se instalar em mim uma absoluta rigidez cadavérica.
Dizendo isso, Isaura deu início a seu the end. Fechou
os olhos e principiou a falecer. Antes porém teve
um lampejo, uma lembrança. Abriu os olhos e disse:
-Ah, Ismael, ia me esquecendo; na lata há alguns feijões
de menos porque, no outro dia, no teu aniversário
(8), a empregada tirou quatro xícaras para fazer a
feijoada. E morreu.
1. Tesão com tesão se paga. Soco na
cara com tiro se paga. Ingratidão com ingratidão se
paga. Similia similibus curantur se paga. Etc...
2. Eufemismo. Aquilo que torna possível a gente dizer
tudo sem dizer coisa nenhuma.
3. Os mistérios que existem entre marido e mulher,
os dinheiros não dados, os pensamentos não ditos,
os códigos do livrinho de endereço, os telefonemas
incompreensíveis na calada da noite (ou mesmo no raiar
do dia, por que não?), os pedacinhos de papel queimados
no cinzeiro, toda essa massa de desvio de intenção,
exigem mais do que eu para explicações anímicas.
4. Não dar oportunidade ao acaso. A gente sempre pode
sobreviver.
5. Como sempre. O tempo não faz outra coisa.
6. É muito comum tirarse de uma verdade explicitada
uma mentira absolutamente sincera.
7. É preciso, outrossim, examinar bem cada gesto nobre.
Muitos enferrujam.
8. "Happy birthday to you"...
MORAL:
QUANDO O PECADO É GRANDE NÃO IMPORTA UMA FEIJOADA
A MAIS OU A MENOS.
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