Pasquim
Sob
as mais variadas pressões, realmente violentas
e sempre parecendo invencíveis, escrevi alguns
artigos sobre a vida do Pasquim, na vida do Pasquim.
Este, dramático, tinha sua razão de
ser; o jornal estava, mais uma vez, pra ser fechado.
Réquiem
Para um Jornal Humorístico
Assim,
depois de quatro anos de muitas e gargalhantes pelejas,
algumas das quais foram acompanhadas alacremente
pelo leitor, e outras das quais o leitor nem pode
tomar conhecimento, O PASQUIM chega ao número
200. Chega, não passa. Este é o último
número do nosso jocoso semanário.
Não é preciso que nossos amigos se
embriaguem de alegria. Nem que nossos inimigos chorem.
As coisas, como as pessoas, nascem, crescem e morrem,
não é mesmo, Conselheiro? Só
que O PASQUIM nasceu às gargalhadas. Como
todo o mundo viu, cresceu, diminuiu e cresceu de
novo, sempre castigando os mores, e hoje morre,
rindo às bandeiras despregadas. Pois morre
vendendo saúde (100. 000 exemplares) .
Morre
atropelado. Uma força de alguns milhões
de toneladas, uma teia de milhares de restrições
e impedimenta, uma incalculável massa de
obrigações e imposições,
tornaram irrespirável a nossa já modesta
ração de ar.
Dos
seus quatro anos de hilariante vida, este zombeteiro
hebdomadário pode contabilizar a glória
de ter modificado fundamentalmente a linguagem dos
outros jornais e ter influído muito na expressão
falada da juventude e no estilo da comunicação
publicitária. Durante quatro anos, este risonho
jornal cuja maioria de sorridentes redatores não
é ligada a nenhum grupo político,
econômico, religioso, nacional ou estrangeiro,
que tem como único objetivo o exercício
de uma crítica geral e democrática
a tudo e a todos (os poderosos e estabelecidos sendo,
naturalmente, os mais criticados, pois, não
há graça nenhuma em criticar os caídos),
foi combatido pela maioria dos grandes órgãos
de imprensa brasileira e por todos os detentores
de algum poder, inconformados com um veículo
que não tinha preço de venda a não
ser o da banca e era dirigido por intelectuais inatacáveis
porque sem fichas pregressas que os situassem em
qualquer esquema de ilegalidade ou qualquer espécie
de criminalidade, mesmo fiscal.
Chegando
a circular com um máximo de 64 e um mínimo
de 16 páginas, o ridente PASQUIM conseguiu
sobreviver a tudo, até mesmo à prisão
de todos seus redatores, provada inútil pelas
próprias autoridades num processo que foi
a consagração deste grupo de profissionais,
pois demonstrou que eles tinham como único
e total objetivo de vida o exercício de sua
apaixonante profissão.
A
coação física não impossibilitou
a saída do jornal. Durante dois meses, ele
circulou sem a colaboração de qualquer
dos seus redatores habituais. Sobreviveu graças
à solidariedade de inúmeros colegas.
Saiu fraco e sobreviveu mal. Mas sobreviveu com
a barriga doendo de tanto rir.
Agora,
porém, temos que nos render e afirmamos,
humildemente, a nossa derrota definita, diante da
única coação irresistível,
a coação intelectual, hoje absoluta.
Uma censura inconstitucional - a Constituição
vigente é explícita quanto à
liberdade plena de jornais e revistas circularem
sem qualquer censura, os responsáveis respondendo,
naturalmente, diante da lei, pelos desmandos que
cometerem - já vinha sendo exercida de maneira
sufocante. Jornais pobres, como este, resistiam
debilmente, gastando 20 horas para refazer um trabalho
anteriormente feito em 10 e tendo o dobro e, às
vezes, o triplo de gastos para a confecção
do material de suas folhas. Coincidindo com o número
200, atingimos o limite das nossas possibilidades,
fronteira natural de nossas ilimitadas impossibilidades.
As poucas normas que ainda havia foram substituídas
por um desvairo total das canetas pilotis, em que
não há nem mesmo aquilo que se poderia
exigir como último direito do cidadão
- o respeito ao seu trabalho. Nosso trabalho, mesmo
os nossos piores adversários reconhecem que
o fazemos com conhecimento e seriedade. Trabalho
de criação, único, pois artigos
e desenhos humorísticos não podem
ser substituídos de um momento para o outro
como se fossem simples reproduções
de discursos ou resenhas de acontecimentos sociais.
Mas
o importante é que esta despedida não
se alongue nem se transforme numa inútil
exposição de motivos. E que, sobretudo,
não seja triste. Só fechamos porque
nos falta a competência da maleabilidade.
Fechamos porque fechamos. O mundo não vai
acabar. O Brasil vai continuar. Acontece que há
momentos em que certos países não
produzem determinados produtos que noutras épocas
já produziram em abundância e que voltarão
a produzir um dia.
Agora,
parece, não é o momento propício
para o plantio de facécias. Esperamos apenas
que, daqui a cinqüenta anos, quando os especialistas
estiverem saboreando os magníficos produtos
satíricos de então, alguém
se lembre de nos fazer justiça: "É,
73 não foi um bom ano para humorismo!"
Junho
1973