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Chico (Modelo, Proposta, Esquema,
Diário, Súmula, e Álacre) Anísio

Chico Anísio nasceu numa agência de produções chamada Maranguape que mais tarde transformou em sua cidade natal. Começou a fazer graça aos sete anos de idade, mas ainda conserva inúmeras cicatrizes. É ligeiramente amargo, mas bota muito açúcar. Só caiu do galho uma vez, porém conseguiu se salvar agarrando-se a um galho de cima. Faz tremendo sucesso na televisão, mas em casa nem tanto , porque lá é ao vivo. Sabe tudo que não sabe, mas até hoje ignora o que aprendeu. É assim, magro por afinidade, já que só se alimenta dos próprios erros técnicos. Um dia deixou crescer a barba, mas, como as mulheres se rasparam, ele resolveu se escanhoar de novo. Ah, mulher ele não só gosta muito, como parece até que é desses que não tem outro jeito. Pra fazer rir, tem uma receita fácil comprime o cerebelo contra o occipital, empina os músculos abdominais, retesa os trapézios e costureiros, prende a respiração durante cinco minutos, abre a boca e fecha os olhos. Isso tudo naturalmente, seguro ao mastro. Nas boates, já viram?, seus dentes brilham. Tem muitos amigos, alguns inimigos, um chofer, um time de botões, uma grande determinação profissional e quando crescer vai ser meritíssimo. Falar em muitos amigos, ele tem tantos, que entre eles figuram até dois inimigos. Seu maior azar foi receber o Prêmio Nobel da Paz exatamente na hora da briga. O que ele faz, faz, e o que não faz deixa pros outros fazerem.

Por ser dos que estão aqui, sempre que vai, volta. Só uma vez não voltou nunca mais, mas ninguém lhe conta porque senão ele cai em prantos. Seu maior desejo é ser eremita, mas o pessoal que lota o teatro não deixa. Seu pai, que nasceu uma geração antes dele, sempre lhe disse que tomasse cuidado com os filhos que o transformariam em antepassado. Ele porém tem dois, um mais velho do que o outro. Já foi assaltante, em filme, e assaltado na vida real. Tem uma saúde de ferro mas preferia de matéria plástica, que não enferruja. Se pesa de meia em meia hora, complexo do dia em que levou uma surra de um peso pesado . É homem, o que até um cego pode verificar facilmente; brasileiro, coisa que o deixa muito subdesenvolvido; casado três vezes no civil, no religioso e na cama; técnico de futebol como todo mundo e amante do belo-horrível aquele ao qual comparecem com presteza os bravos soldados do fogo.

Muito dado, diz publicamente que dá (só no "Canto de Ossanha"), mas ninguém sabe a quem, e onde, e como, e quando. Uma de suas maiores ambições era ser rapsodo, mas acabou Chico Anísio, que basta passar a mão e a gente vê logo que é de outra plumagem. As vezes se arrepende e ateia fogo às vestes, depois de colocá-las bem longe do corpo. Circense e altaneiro, é uma espécie de palmeira que venta sempre ao contrário. Fraco em matemática e bom em meteorologia, tem cálculos no coração e um sopro na vesícula. Dona Rose, em casa, finge não perceber que ele é um terrível comediante. Os filhos, coitados, estes nem suspeitam de que espécie de Adão é feito o pai. Pois, quando ri, Chico mostra a arquitetura de que é feito o drama dos que choram. Quem o vê assim, às 3 da tarde, jamais poderá imaginar que já são 7 e meia. De avião prefere nem passar por baixo. É a favor de todos os vícios, devidamente curados. Tem uma sede de prazer, um hábito de cantar, muitos sintomas apriorísticos e em seu teatro ninguém entra sem pagar. Mas, em compensação, também ninguém paga sem entrar. Num mundo de tanta cuca fundida é um dos raros que podem garantir a própria saúde mental tem até atestado. É a favor da reforma tributária sem dor, do parto agrário e do cão sem coleira. Acredita num mundo mais justo, mais do que justo, bem apertadinho. Uma só frustração: até hoje, o Todo Poderoso ainda não lhe deu o alvará de localização.

30.06.1970

sobe
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