Quando
Carlos nasceu, um anjo disse "Vai, Drummond, ser
gauche na vida", pois cada país tem o Rosebud que
merece. Por isso, gauche num país de ambidextros,
ele se aprimorou até ambisinistro. Ao embarcar,
porém, não exigiu idaevolta: já sabia que a vida
é sem retorno. E o mundo, porta giratória. De uma
família de faiscadores de ouro e fazendeiros de
criação, herdou apenas o brilho das pepitas. E,
quando lhe falam em (agri)cultura, ele puxa logo
a sua enxada. Diplomado em farmácia, preferiu a
poesia, outra forma de cura, forma maior de alquimia.
Mineiro e poeta, tem sempre aquele ar de quem compra
queijo de Minas em Amsterdam. Macunaíma das quantas
nega Mário de Andrade, mostrando à repartição pública
que o (anti) herói tem todos caracteres.
Pois,
pertencente a uma vasta tradição de funcionários
públicos e notórios, conhece bem com quantos processos
se faz uma pessoa. Mineiro e burocrata, acredita
piamente na autoridade constituída. Desde que lhe
mostrem a Constituição. Sua visão da infância é
pular carniça, gritar mamãe posso ir e não correr
pro pique. Lento repentista, disfarça sua agilidade
num passo contido pra ninguém perceber seu lado
Comanecci. Atilado, onde ele passa não cresce a
grama: mas o asfalto se abre para a flor sem canteiro.
Em 1934 se mudou definitivamente para o Rio, antiga
cidade brasileira hoje desaparecida. Maior humorista,
consegue a síntese da análise espécie de dialética
sem pergunta nem resposta. Pensa no pensamento o
tempo todo, só fala em linguagem, usa gíria sem
o menor sotaque, viaja sempre no estribo e acha
a vida um trem danado. Ao sair, porém, fecha todas
as janelas, trancando as correntes de ar dentro
de casa.
Tem
um olho terno e arisco para a assim chamada juventude,
pois nunca ninguém foi mais jovem que ele. Quer
dizer, há tanto tempo. Churchill, se o conhecesse,
diria que é um enigma envolto num mistério embrulhado
num criptograma. E, se se chamasse Raimundo, seria
uma rimaanagrama pois Drummond já contém o (vasto)
mundo. Mas à hora em que todos os bares se fecham
ele é tão citado quanto a Bíblia, o citado poeta.
Magro, mais magro por dentro, fica escondido atrás
das paralelas só se encontra no infinito. Crê em
amizades profundas e inimigos bem rasos. Anda sempre
de óculos; pra nada lhe escapar ao longe. Donde
o calidoscópio. Mal fisionomista, poucos o reconhecem,
embora todos o saibam homem muito reconhecido. Escapou
por um triz e jamais esqueceu que nada fica. Foi
político militante durante pouco tempo pois decididamente
seu forte não é militar. Rápido no gatilho, é incapaz
de matar uma mosca. Casado, pai de filha, viajou
a Buenos Aires uma vez pra ver os netos e constatar
para sempre que o mundo é só pontodevista.
Desconfia das convicções, rói o pecado, mas, mesmo
quando peca por base, não se baseia na desconfiança.
Porém, se alguém fala em mulher no andar de cima,
ele cala e consente. Nem sempre pode, mas, antes
de poder, já era. Em certas tardes de sol, um brilho
em seu olhar mostra visivelmente que entre Itabira,
Belô e Rio muitos anos se passaram. Nem amigo nem
inimigo da tecnologia vai quase sempre a pé. Mas
jamais seria o que é sem Guttenberg e dizem que
Graham Bell inventou pensando nele. Não sei se bebe
ou se fuma mas inda outro dia recusou o prêmio,
por achar que era de grego i.e., não quis entrar
no cavalo de Tróia nem como observador. Vive o que
pode, o que deixam e o que inventa. E, quando terminam
as vinte e quatro horas, ainda vive um bocadinho
mais, nesse espaço entre o ido e o quevirá, dito
premonição. Pois crê no tempo e um só seu filho,
o hoje-em-dia, o qual foi concebido por obra e graça
de tudo que existiu. Ainda ri muito; nas janelas
da rua Lafaiete só dói quando Itabira. Amanhã recomeça.
(Atenção
Casulos e teleitores, antes de ler este texto tome
Carlos Drummond de Andrade três vezes ao dia, durante
uma semana)
(*)
Este Retrato e este Hai-kai foram feitos quando
Carlos Drummond de Andrade completava 75 anos.
12.09.73