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Fedra de Jean Racine
Tradução de Millôr Fernandes



PERSONAGENS

Teseu – Filho de Egeu, rei de Atenas.

Fedra – Mulher de Teseu, filha de Minos e Pasifaé, rei e rainha de Creta.

Hipólito – Filho de Teseu e Hipólita, rainha das Amazonas.

Arícia – Princesa do sangue real de Atenas.

Terâmeno – Tutor de Hipólito.

Enone – Ex-ama e atual confidente de Fedra.

Ismênia – Confidente de Arícia.

Panopéa – Mulher do séquito de Fedra.

Guardas

(A cena se passa em Tresena, cidade do Peloponeso, na baía de Salamis, do outro lado de Atenas, da qual é uma dependência.)


FICHA TÉCNICA

Elenco: Fernanda Montenegro, Jonas Mello, Edson Celulari, Wanda Kosmo, Cássia Kiss, Fernando Torres, Betty Erthal, Joyce de Oliveira

Produção Executiva: Miguel Verro

Assistente de Direção: Eduardo Lago

Divulgação: Moacir Deriquem e Marilena Cury

Cenários e Figurinos: Helio Eichbauer

Direção: Augusto Boal

Teatro de Arena

Fevereiro 1986


ELENCO E PERSONAGENS

Fernanda Montenegro – FEDRA

Jonas Mello – TESEU

Edson Celulari – HIPÓLITO

Wanda Kosmo – ENONE

Cássia Kiss – ARÍCIA

Fernando Torres – TERÂMENO

Betty Erthal – ISMÊNIA

Joyce de Oliveira – PANOPÉA


FEDRA – o essencial

Escrevo esta nota a pedido da produção do estupefaciente espetáculo a que vocês assistiram ontem (*). A proposta para que a nota seja esclarecedora bateu, porém, no homem errado – toda minha vocação é tumultuadora. Mas vamos lá.

"Quem decidiu montar Fedra em 1986?" – comentava-se em toda a cidade (isto é, comentavam dois intelectuais magrinhos num botequim do baixo Humaitá).

J’accuse: Fernanda Montenegro. Quer dizer, acho. Eu nunca tenho muita certeza de nada. E acho também, e também sem muita certeza, que é porque o papel lhe cabe como uma luva. Imagem aliás absolutamente imprópria numa época em que ninguém mais usa luvas.

Fernanda discutiu com Boal (acho), este também entusiasmado com a "obra imortal de Racine", como dizem os erúditos. Eu entrei na história depois, para a tarefa de traduzir esse momento supremo do espírito humano. Embora Victor Hugo achasse Racine "um razoável escritor de terceira ordem". Mas isso faz parte.

Tudo pensado – se é que tudo foi pensado – decidimos, Fernanda, Boal, e eu, o que parecerá iconoclástico para alguns, desde que saibam o que é iconoclástico, que a peça, em português, preservaria mais sua autenticidade se abandonássemos a forma rimada e alexandrina (tão emprenhada nos ouvidos franceses) pelo verso branco. Compensando a perda da rima pela clareza da ordem direta, ganhando na reprodução do sentido exato das falas, no ritmo, na correspondência poética, no maior rendimento dramático por parte dos atores e maior facilidade de recepção por parte do público. Ponto.

* Em geral os programas só são lidos no dia seguinte.

Fedra. Já se disse tudo sobre ela nestes últimos três séculos (e muito mais se dirá neste programa): é a tragédia erótica de uma família sexo-orientada. Fedra, esposa de Teseu, é irmã de Ariádne (a do labirinto) que já foi apaixonada por Teseu e, abandonada por este num rochedo, que maldade!, se casou com Baco, logo com quem! Ambas, Fedra e Ariádne, são filhas de Pasifaé, aquela senhora que se apaixonou por um touro, ora!, ora, e mandou ver, dando à luz o Minotauro. Teseu, o marido de Fedra, antes de casar com esta, conquistou Antíope, rainha das Amazonas, além da já citada Ariádne, depois ganhou Helena – aquela mesma, de Tróia – no jogo e teve uma filha com ela. Alguns eruditos discordam dessa versão porque Helena tinha então apenas nove anos, mas se esquecem de que Helena era muito pós-helênica.

Nesta tragédia, Fedra, filha do sol, é prisioneira das trevas de um amor absolutamente proibido – ama Hipólito, seu enteado –, foge da luz do dia e se debate entre a loucura, a exaltação, a inveja, o ódio, a autopunição e a vergonha pública. Um prato feito pro Hélio Pelegrino.

Mas, ao fim e ao cabo, penso que a história de Fedra é mais do que um amor tabu que luta contra a proibição moral e social. É a história paleontológica do próprio incesto, cuja explicação só encontro na origem da linguagem humana. Inventadas as palavras (entre elas pai, mãe, filho, filha, irmã) estava automaticamente inventado o incesto. Assim a culpa de Fedra não só não pode ser admitida nem perdoada – não pode também, fundamentalmente, ser pronunciada. A tragédia toda se desenvolve no caminhar lingüístico ansioso, mortal, mas irresistível, rodeios e circunlóquios, fugindo ao estigma da palavra indizível, até explodir no escândalo e no crime, na catástrofe catártica do nome maldito: "Hipólito!"

Aí começa a tragédia. Acho que é isso. Vocês me digam. Millôr Fernandes, telefone 247-1254.

Para ler o texto integral, clique aqui. 
sobe
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